Victor F. Miranda

Autor

A necessidade de falhar

O que pode definir o que é o sucesso ou o fracasso em nossas vidas além das nossas próprias consciências?


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Todo mundo sabe de tudo. O que é melhor para as pessoas próximas, para desconhecidos e para a sociedade. Religião e política são defendidas por lados diferentes com o mesmo fervor e argumento: é melhor para você. A hipocrisia sempre esteve em transformação dentro de todos nós por séculos, e a atual tendência é se passar como antimoralista sendo moralista. Como politicamente incorreto até o momento em que os próprios direitos são pisoteados. É ter opinião para tudo ao mesmo tempo em que se afirma não ligar para absolutamente nada.

Isso não é sobre Deus, política ou o que for. É sobre o único assunto que todos sabemos a verdade em nossas particularidades: o que é melhor para nós mesmos, como indivíduos.

Nietzsche uma vez disse que só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos.

Definições de vitória foram tatuadas no tempo e ficaram expostas até o presente como obras de arte simplistas, interpretadas de maneira tão otimista quanto como foram escritas. Clichês motivacionais de palavras simples moldam a maior parte de cada nova geração, que se torna cada vez mais e mais sonhadora e, ao mesmo tempo, revoltada com relação a acontecimentos de que não fazem ideia da sensação do impacto. Mas é claro, cada geração não deve ser vista como um todo, e sim como uma repetição da anterior adaptada para a atualidade. Todas são iguais de certa forma, e essa nascença repetitiva de pseudo-revolucionários (principalmente os que habitam a internet) foi um dos motivos que levou esse texto a ganhar vida.

Apesar de ninguém lidar perfeitamente com todos os problemas que vive, todos sabem o que é melhor para você.

E eles sabem mais do que você mesmo.

Não desista. Lute até o fim. Se entregue ao amor. Se valorize.

Você provavelmente já ouviu, e até mesmo disse frases parecidas com o intuito de ser ajudado ou não deixar alguém afundar mais ainda na própria merda. Infelizmente, a maioria não percebe que para alguns, a resposta não está na ascensão e sim na própria queda. Sim, é necessário coragem para persistir e, em certos casos, ainda mais coragem para desistir. Porque nem sempre desistir é perder.

Se você nunca pensou nisso, é porque provavelmente ainda se guiava por esse cego otimismo.

Quando chegamos à nossa própria ruína, percebemos que não somos tão frágeis assim. Por mais que nosso interior esteja caindo aos pedaços, quando o desmoronamento chega ao fim, percebemos que mesmo com a ausência de sentimentos ou a falta de tato para a dor, ainda continuamos vivos.

E olha que eu nem estou falando sobre dor física (caso nunca tenha conhecido alguém que é acostumado a viver em constante agonia por problemas de saúde e que ainda assim sabe como ser feliz, você ainda não viu um dos feitos mais fantásticos que o ser humano pode fazer), mas nesse caso, tratemos de outra forma: a maneira como seguimos adiante com nossas vidas e objetivos.

É comum para muitos que se encontram nesse estado não possuírem metas senão as tentativas ocasionais de se interessar por qualquer coisa e fazer com que o tempo passe logo, sem qualquer expectativa pela frente. Isso se deve ao fato de que, por alguma razão, foram iludidos pelo falso otimismo que polui o mundo e falharam em seus propósitos que tinham como prioridades.

Eu não diria que é culpa das palavras ou de seus autores, e sim que qualquer vitória — ou derrota — plantada em nossas vidas é uma consequência colhida unicamente por nós.

Quando expus isso, certa vez, argumentaram que não temos controle sobre nossas próprias vidas. Só que desde as pequenas escolhas até as maiores, tudo vai te gerar um retorno não necessariamente proporcional, seja negativo ou positivo. Você também não tem a ausência absoluta de controle da sua vida, portanto, é ciente de que haverá consequências, boas ou ruins, antes de qualquer escolha significativa ou não. Então por mais que pareça que não há alternativas, sempre haverá outro caminho. Mesmo que ele não seja tão óbvio. E com isso, me refiro ao fracasso.

O tempo leva tudo, então nada mais justo que falhemos caso sintamos a necessidade de aprender com os nossos erros ou repeti-los até absorver algo que nos passou despercebido. Somos todos feitos de cicatrizes, e cada uma delas tem uma história.

grayScale-53c3340fedb1b.jpg As nossas cicatrizes tem o poder de nos recordar que o passado foi real. (Dragão Vermelho)

O mundo é cheio de gente que não sabe lidar com as próprias mentes e sentimentos, boa parte das vezes são estes os que gostam de dizer ao próximo o que fazer. Também são esses os que ainda possuem os dedos de terceiros fincados em suas feridas e não percebem, impedindo que as mesmas se fechem.

Algum domínio sobre as nossas mentes é o pouco que necessitamos para ter o verdadeiro controle de nossas vidas. Destaco algum, pois muitas vezes a solução se encontra apenas em deixar-se levar pela maré. E se isso significa falhar caso haja a necessidade, seja em nossas vidas profissionais ou pessoais, então que assim seja. Aquele papo de que cada um faz o que quer desde que arque com as consequências depois, sabe?

Afinal, é no nosso próprio inferno que conhecemos a nós mesmos.


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