Victor F. Miranda

Autor de todos os textos do blog Lixeiratura e dos romances Chagas da Condenação e Queimando Viva. Também escreveu os contos Quebra-cabeça, Monstros e Dragões e Homem que é Homem.

Somos assim, desajustados

Um cuspe no que é "normal".


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Nós temos poucos amigos, e sabemos que eles vêm e vão.

Conseguimos socializar, mas não fazemos questão e sequer temos interesse. Porque nós observamos. Detalhadamente. Observamos como eles agem para refletirmos sobre nós mesmos. E, aos poucos, cada um de nós molda-se em uma forma única. Nos tornamos cada vez mais deslocados.

Por isso é difícil nos encaixarmos. Mas não impossível.

Impossível é querermos.

Por sabermos que a sociedade é como um corpo que sofre de uma doença auto-imune. E por ficarmos entediados. Entediados com suas normas, seus estereótipos, seus discursos. O tédio é fatal para nós. Gostamos de experimentar, de arriscar. Toda vez que consideramos nos ajustar à idiotice imposta pelo mundo (porque uma parte da gente às vezes quer), nós jogamos os planos para o alto por parecer autossabotagem.

Porque queremos nos encaixar pelos nossos julgamentos, não pelo deles.

Não somos exemplos nem heróis. E não fazemos questão de ser. Não somos vítimas. O mundo pode ser um lugar frio demais, duro demais. Mas nós também. Porque boa parte de nós é autodestrutiva, e nem isso conseguiu nos matar.

A única certeza que temos é a de que ninguém tem certeza de nada. E os que fingem ter são os que menos têm. Toda vez que percebemos estar perdidos por causa do mundo, nos encontramos.

Não damos a mínima para regras ou decência. Se pudéssemos, patentearíamos “moral e bons costumes” como a marca do nosso papel higiênico. Aliás, fica a dica para quem for menos desinteressado e preguiçoso do que nós.

Já “família” tem um significado pessoal para cada um.

Não temos paciência para conversas manjadas nem interações forçadas. Muito menos para opiniões que não pedimos. Palavras são superestimadas. Sempre sabemos diferenciar quando há silêncios nas palavras e palavras nos silêncios.

Nós rimos dos outros, sim. E de nós mesmos. Lamentamos pelos que não vêem graça no caos e sensualidade na escuridão. Os que não aceitam que caminhar entre o bem e o mal é natural.

Acreditamos em amor, mas não que podemos encontrá-lo. Ele é que nos encontra. Por isso, não procuramos. Curtimos a viagem e a estadia, quando aparece. Dependendo do momento, da freqüência, sabemos que estar sozinho é a pior e melhor condição.

Não concordamos com os sentidos de vida e padrões pré-determinados jogados em nossas caras, por isso escolhemos os que nos convém e criamos individualmente os nossos. Eles podem nos classificar em grupos sociais, mas nós rejeitamos como quem diz “não, obrigado”.

Podemos até participar deles, mas nunca pertenceremos.

Cada um de nós só pertence a si mesmo.


Victor F. Miranda

Autor de todos os textos do blog Lixeiratura e dos romances Chagas da Condenação e Queimando Viva. Também escreveu os contos Quebra-cabeça, Monstros e Dragões e Homem que é Homem..
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