luciana chardelli

As coisas mais importantes são banais.

Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes.

Câmera Escura. O espelho que nos revela.

Há na distorção de uma forma ou na condição da irregularidade, uma verdade que tememos conhecer.
Existe nas fotografias de Diane Arbus uma crueza no olhar. Esta crueza parece revelar que olhar não necessariamente é ver, fazendo nascer em nós um pescoço mental que nos faz olhar, desviar e novamente olhar, para por fim ver.


Um jovem homem com bobes em casa na West 20th Street, 1966 © Diane Arbus via Masters of Photography.jpg Um jovem homem com bobes em casa na West 20th Street, 1966 © Diane Arbus via Masters of Photography.

Há no absurdo uma desconstrução do ordinário e talvez por tal inversão nos seja possível a poesia. No aspecto absurdo mora também diferentes condições do sentir.

Diane Nemerov, nome de solteira de Diane Arbus, nasceu em 14 de março de 1923, em Nova Iorque. Casou-se aos 18 anos, com Allan Arbus, fotógrafo de moda que de certa forma a introduziu no mundo da fotografia. Abastecida de uma intensidade quase alucinada que explodia nas técnicas que utilizava, como por exemplo, empregar o flash durante o dia, permitindo assim que seus modelos fossem destacados de maneira absorvente e direta, concedendo-lhes uma gravidade acima de tudo e por sobre todo o comum a sua volta, conseguiu fotografar o abstrato no concreto; fotografou medos, fragilidade, segredos e verdades.

d.jpg

Diane começou a se voltar para os “freaks” como objeto de suas fotografias na década de 1950, auge do Teatro dos Absurdos que propagava o entendimento de que a excelência humana está na habilidade de se compreender a realidade em todo o seu desatino.

Untitled (6), 1970-71 © Diane Arbus via Masters of Photography.jpg Untitled (6), 1970-71 © Diane Arbus via Masters of Photography.

Diane fotografou estranhos que conheceu em circos, necrotérios, ambientes encardidos, hospitais psiquiátricos. O olhar direto de seus modelos para a câmera produzia no observador um reptar desconcertante. Retratava o submundo da sociedade de Nova Iorque em amplo aspecto. Suas fotografias remetem ao submundo das mentes, aquele espaço de recusa e de imediata curiosidade. Os modelos de Diane são expostos e condenados cotidianamente pelo olhar imediato, são pessoas invadidas pelo olhar que se recusa a ver. Suas fotografias permitem a pausa que antecede o ver. Expondo o exposto, revelando a fragilidade em meio a crueza.

Anão mexicano em seu quarto de hotel, 1970 © Diane Arbus via Masters of Photography.jpg Anão mexicano em seu quarto de hotel, 1970 © Diane Arbus via Masters of Photography

Diane Arbus buscava o altivo no grotesco, no esquisito, na ilusão. Fotografava deficientes físicos e mentais, grupos circenses, travestis; os suprimidos pela sociedade e despidos pelos olhares da objeção. Os “freaks” fotografados por Diane expunham uma solidão redobrada, as deles e a de todos os olhares sonâmbulos que os observavam.

Mulher portoriquenha com uma marca de nascença, 1965 © Diane Arbus via.jpg Mulher portoriquenha com uma marca de nascença, 1965 © Diane Arbus Gêmeas idênticas, Roselle, 1967 © Diane Arbus via Masters of Photographyjpg.jpg Gêmeas idênticas, Roselle, 1967 © Diane Arbus via Masters of Photography

Diane se suicidou em 1971. Após sua morte sua obra ficou sob a tutela da filha, Doon Arbus. Desde o lançamento do livro, Diane Arbus – An Aperture Monograph (1972), somente três livros foram liberados: Magazine Work (1984), Untitled (1995) e Revelations (2003), além da biografia não autorizada: Diane Arbus - A Biography, de Patrícia Bosworth que implicou na exposição, Diane Arbus Revelations, no Museum of Modern Art de San Francisco.

" Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais ela te conta, menos você sabe." – Diane Arbus


Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/fotografia// @destaque, @obvious, eros //Luciana Chardelli