luciana chardelli

As coisas mais importantes são banais.

Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes.

É preciso esquecer?

A lembrança tem cor sépia. Sépia é o tom da despedida ou da permanência ausente e insistente.
As folhas amarelam com o tempo e sabem o exato momento de cair. Esquecer do latim excadescere; excadere, cair para fora.
Cair para fora é sair do que lhe compõe.


Eternal Sunshine of the Spotless Mind / Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.jpg Eternal Sunshine of the Spotless Mind / Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

E se pudéssemos apagar as recordações indesejáveis? Relacionamentos que não deram certo, frases cortantes, sonhos interrompidos. Um tiro certeiro e fatal nas lembranças que nos incomodam.

Se a possibilidade de apagar memórias dolentes é dar um tiro no passado que lateja, bem provável que também seja o enevoar do futuro. Sem lembranças perdemos as referências e junto a possibilidade de ser inteiro.

Por que dói quando lembramos daquilo que um dia amamos, mas que deixou de existir no presente? Dói porque no amar há uma necessidade do ato, do fato, do tempo presente e palpável. Lembrar é a vivência do que não vive mais.

Há uma irreversibilidade no tempo que por vezes não aceitamos. Esta impotência diante dos fatos, diante das amputações, dói. Dói porque somos insaciáveis em nossa sede de completude e domínio. Lembrar não basta. As lembranças são abstratas, invasivas, desobedientes, quase mal educadas. Lembrar pode ser o certificado do que não mais existe, mas ainda assim teima em existir. Há um mando impaciente e constante no sentimento da falta. Criamos uma duelo, bifurcamos os sentimentos. Não deixamos ir, não queremos que fiquem.

É preciso esquecer ou basta aprender a lembrar? Para esquecer o que dói é preciso antes lembrar de forma exaustiva, até que a lembrança se perca nas artérias das histórias, e as histórias comecem a ter falhas, e as falhas se transformem em histórias, e as histórias representem apenas histórias. Só é possível esquecer o que nos dói quando possível ser lembrado, então, percebe-se que não existe o esquecer, esquecer é apenas deixar de lembrar insistente e dolorosamente. Esquecer é lembrar em paz.


Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes..
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