luciana chardelli

As coisas mais importantes são banais.

Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes.

A inevitabilidade do fim.

"Entre nós, o céu, o inferno e o nada há apenas a vida, que é a coisa mais frágil do mundo.” Blaise Pascal


amour-di-michael-haneke.jpg Amour, Michael Haneke.

O diretor austríaco Michael Haneke em seu filme Amor (Amour, 2012) conduz uma crua e bela reflexão do fim. Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, protagonistas, desenvolvem um trabalho delicado como Georges e Anne, músicos aposentados que vivenciam a suavidade de uma intimidade adquirida ao longo de uma vida. A intimidade é a face mais bela do amor, porquanto que sinônimo de amor nu. Intimidade é a revelação de um todo, construção minuciosa de detalhes íntimos, delicadeza que não precisa ser vista. Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) chegaram a esse momento do amor, até que Anne sofre um derrame e tem início a caminhada para o inevitável fim.

É dilacerante em Amor observar o tempo que antecede o fim, tudo se contamina: os espaços, o silêncio, os gemidos; tudo dói. Perceber o fim, seja por qual motivo ele venha, é como arrancar a pele da alma; é contar minutos para o adeus; é procurar palavras sem que nenhuma nova palavra mágica nos seja ensinada. Em Amor, o tempo que antecede o fim cobre de escombros a dignidade, a intimidade, a identidade, as referências.

Impressiona no filme a lenta modificação no cenário, uma invasão, um tumulto mudo e insistente. Há fins que são uma evasão invasiva. Tudo some, tudo permanece insistentemente.

Despedir-se do amor nu, íntimo, amante ou amigo é ver partir um pouco de sua própria história. Faz nascer no peito um distante próximo, causando um efeito de carta fechada e endereçada a um destino sem rua. Saudade é carta lacrada, letras silenciosas, inexecutáveis, mas também é o carimbo da existência do prazer e do belo, ainda que findos.

Existe fim em tudo: no amor, na existência, na infância, na velhice. Todo o começo sempre tem seu fim. Há nesta vida vários fins. A vida, na verdade, é uma grande despedida.

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Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes..
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