luciana chardelli

As coisas mais importantes são banais.

Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes.

Lizzie Velasquez, a mulher mais bela do mundo.

Se não formos livres não seremos nada.


46Lizzie.png Lizzie Velasquez

Um dia nos prelecionaram o que significa o belo. Não deveria haver ensinamento ou qualquer rigidez para tal adjetivo. Belo é aquilo que transcende e impossibilita palavras. Distinguimos belo e beleza, deixamos para o belo o conceito e para a beleza a sorte. Aprendemos que tudo o que é belo é agradável de ver e ouvir e neste compasso procuramos significação e critérios. Aprendemos a comparar. Ao nos compararmos quebramos nossas asas, se não as duas, uma. No momento do comparar somos ansiosamente nós e o outro. Viramos par sem sê-lo. Há o que temos e o que o outro tem; há o que o outro não tem e o que temos. Soma e subtração do nada. Não há nada em caminhos que levam ao nada.

Lizzie Velasquez descobriu seu titulo de “A mulher mais feia do mundo” em um vídeo no YouTube. O título era exatamente este: A Mulher Mais Feia do Mundo. Decerto que Lizzie que nasceu com uma doença extremamente rara, apenas três pessoas no mundo apresentam, não se achava a mulher mais bela do mundo. Vivemos em uma sociedade que nos assalta com padrões de exatidão de medidas; anúncios de cabelos eternamente brilhosos e sedosos; dentes perfeitos e irritantemente brancos como uma bala de menta. Não podemos ser o que somos em paz, não podemos envelhecer em paz. As mulheres precisam de coxas eternamente duras e os homens não podem aumentar um pouquinho o peso. Somos ou pretendemos ser entediante e cansativamente jovens e lindos. Somos clones de um padrão, do compreendido como belo.

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Talvez o que Lizzie Velasquez não esperasse era ver suas dificuldades físicas e possivelmente emocionais jogadas como objeto comparativo. Sim, objeto comparativo. É preciso expor, comparar, esmiuçar e por fim machucar a si ou ao próximo. Queremos saber se o vizinho, a atriz, o conhecido e principalmente os desafetos são “mais”. Mais belos; mais ricos; mais inteligentes; "mais qualquer coisa" ou melhor ainda, "menos qualquer coisa."

Lizzie não consegue ganhar peso, tal condição leva a uma coleção de sequelas. Também nasceu cega do olho direito. Com todas as dificuldades que sua doença lhe impôs aprendeu a andar, falar e conseguiu estudar; se formou na faculdade, lançou dois livros e confere palestras. Já falou com milhares de pessoas, fala de sua doença, de ser cega de um olho. Faz piada.

Lizzie precisou se libertar do verbo comparar e ganhou asas. Atrai com sua força e seu encanto. É belo, escreve Kant, “o que agrada universalmente e sem conceito.”

Como não experimentar prazer em ver cadeados inúteis quebrados. Lizzie Velasquez se libertou do cadeado imposto por olhares rasos. O deleite estético é tão solitário quanto parece unânime.

Ninguém pode admirar ou compreender no lugar do outro e assim não reina nenhuma verdade na beleza ou no belo. As coisas avaliadas em si não são belas nem feias. Não há beleza absoluta nem belo que abranja todos os conceitos singulares. Há apenas o contentamento no admirar. Não há medida concreta quando estamos realmente a sós; quando nos damos conta de que a beleza e o belo necessariamente devem transcender a mediocridade dos lugares-comuns. O tempo universal companheiro nos ensinará, ainda que teimemos em negar, a fórmula da liberdade: ver de olhos fechados. É preciso ver de olhos fechados.

Lizzie Velasquez é uma bela mulher.


Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes..
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