luciana chardelli

As coisas mais importantes são banais.

Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes.

A tarraxa do brinco

Meditei sobre as borboletas. Vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras, sem magoar as próprias asas.
- Manoel de Barros-


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Era uma sexta-feira de junho quando perdi uma função. Eu a perdi de manhã, assim como se perde uma tarraxa de brinco, de repente ela não está mais lá, e se você não tomar o devido cuidado perderá o brinco também. A tarraxa é essencial ao brinco ainda que o brinco seja o mais visto. Quando meu pai faleceu perdi a função de ser sua filha e precisei - ainda preciso - da delicadeza das lembranças nascidas do afeto, de modo a não perder o brinco.

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Quando pequena nunca pensei na morte de meu pai, desesperada pelo medo que tinha de perder minha mãe, meu pai tornou-se um ser imortal. Não sei ao certo se cheguei a compreendê-lo bem, não sei ao certo se ele chegou a compreender-me bem, de todo modo creio que nos tornamos essenciais um ao outro. Tenho para mim que eu lhe dava a sensação de possibilidade, e esta sensação concretizava as minhas possibilidades. Gostaria que ele tivesse partido com a compreensão de que a vida é repleta de renuncias, remorsos, reparações e que não obstante a isso é também repleta de saídas e perdões. A dúvida que tenho de que ele tenha partido com esta compreensão fez nascer em mim a vontade de compreender as significâncias da vida, de perceber saídas e perdões. Um filho não começa em si, não é tão simples assim, somos também a continuação do inacabado. Então volto a tarraxa que é essencial ao brinco e percebo que primeiro é preciso reconhecer seus cantos menores, ajustá-los na exata medida do experimentado e, então, reconhecê-lo como essencial.

Ontem era noite em minha casa e os cantos eram menores que o tamanho da saudade, ajustei-os na exata medida do que outrora me foi dado, peguei a velha chaleira que um dia, sem maiores motivos, ganhei de meu pai. Um presente recebido há muitos anos, em um daqueles dias em que ele aparecia de surpresa e carregava nas mãos prazeres colhidos pelas ruas: uma flor roubada do jardim do prédio, caixas de morango ou caju, um brinquedo para bebê ainda que eu já estivesse bem longe do berço, um conjunto de colheres de pau comprado na feira, enfim, qualquer coisa que fizesse sua chegada ser diferente das dos demais.

A chaleira está velha e um pouco quebrada, mas guardada com o carinho que ele me ensinou a ter pelas coisas dadas com amor e sem motivos. Resolvi fazer um chá, minha mãe me ensinou que para acalmar os cantos do coração nada como chá e meias. A água quente cobriu o chá que meu irmão me deu depois de eu ter reclamado de insônia, a embalagem do chá tem um ursinho dormindo, não sei se funciona, mas é acolhedor; tampei a xícara como minha mãe me ensinou, observando o mais importante: deixar o chá por alguns segundos quietinho na xícara. Na vida é preciso pausas. E foi assim que no silêncio da noite saudosa entre uma chaleira, um chá e uma xícara eu pude reconhecer a exata medida do essencial.


Luciana Chardelli

Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes..
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