luiz antonio mello

Jornalismo, Cultura, Comportamento

Luiz Antonio Mello

A Vela

O homem contempla o mar, os mistérios do mar sob um mormaço de verão. Descobre um novo elemento, fonte de prazer, que pretende não desvendar. Mesmo que quisesse, o ponto distante, usina de energia, não se rende, não se mostra, não se abre, não se revela para o homem, sentado na areia da praia, tomado por ilsuões, devaneios, prazer quase absoluto.


OBVIOUS LOUNGE 001 A VELA - Foto de Luiz Antonio Mello.JPG

Mormaço na praia, deliciosamente vazia. Umidade relativa do ar provavelmente alta. Nenhum sinal de chuva. Sentado em uma cadeira avistei à distância um pequeno barco à vela, acho que um snipe. A bordo, sozinha, uma mulher. O barco solitário, em velocidade, ia e vinha sempre distante, paralelo a praia.

Quem seria aquela mulher de colete laranja? Eu não queria saber quem era e muito menos como era. Mesmo à distancia decidi que era bela, saudável, gostosa, que pegou seu barco e decidiu fazer confidências ao mar, o mais poderoso guardião de nossos segredos, alegrias, angústias.

O nome do barco estava escrito na popa. Casualmente, naquele início de tarde, eu estava com minha câmera na bolsa, com uma razoavelmente poderosa lente teleobjetiva. Era só pegar, focar no barco, ver o nome, as inscrições na vela e ver a mulher. Optei por deixar a câmera quieta. Não quis saber como era aquela mulher, o nome do barco, o tipo de barco para não meter o pé na porta da quitinete de minhas fantasias.

Foi quando ela deixou de navegar em paralelo e partiu para o horizonte. Foi longe, muito longe. Eu só conseguia ver uma mancha. A vela. O que ela estaria confidenciando ao mar? Apenas o prazer de navegar? O prazer da tórrida noite anterior? A possibilidade do prazer voraz no final daquele dia? Pensava num amor conquistado, num amor perdido? Mudar de profissão? Estaria feliz, alegre, desolada, isolada? Não sei e jamais saberei. Felizmente.

Em questão de minutos o barco voltou para perto, bem perto, perigosamente perto. Chegou rente a areia. Ah, não! Tudo, menos ver aquela mulher, que me fascinava pelas manobras decididas, pela ousadia, pelo saudável convívio com a solidão, pela decisão de ser feliz mesmo em dias de céu nublado. Eu estava construindo um mito e os mitos não falam, não se exibem, não são de carne e osso.

O vento rondou. O barco deu um bordo e voltou a singrar o mar em paralelo à praia. Alívio. Comecei a inventar nomes para aquele suposto snipe. “Destino”? Não, muito óbvio. Fora isso, ninguém domina o destino com tanta precisão como aquela mulher fazia na minha frente, como se estivesse montada, nua, em um cavalo selvagem. Ela dominava o barco, mas não o destino. “Hope” seria um bom nome, mas apesar do significado (esperança) não gosto de batizar barcos e noites com nomes estrangeiros. Quer saber? Não importa.

Eu estava encantado com a mulher que inventei, fruto de meu solitário devaneio, vastas emoções e pensamentos imperfeitos, como escreveu o mestre Rubem Fonseca. Em menos de uma hora ela se tornou perfeita, bela, companheira, tarada, enfim, aquela minha platônica carência momentânea não poupava delírios.

De repente, o barco tomou uma reta não paralela e foi. Foi, foi, foi, até sumir. Levou a “minha” mulher”. Não, a “minha” mulher levou o barco. Não. O mar levou o barco e a “minha” mulher. Mas, decididamente, nada ou ninguém consegue sequestrar nossos devaneios. Fechei os olhos e cochilei no mormaço, entregue a sonhos, memórias e reflexões.


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