luiz antonio mello

Jornalismo, Cultura, Comportamento

Luiz Antonio Mello

30 anos de Rock in Rio; um pouco dos bastidores

Através da Rádio Fluminense FM, a Maldita, que eu e Samuel Wainer Filho projetamos, participei ativamente da seleção de artistas que vieram para o Rock in Rio I, realizado em janeiro de 1985. Aqui, um pedaço da história e uma dúvida no final: a rádio foi um grande sucesso ou não?


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Em 1984 a Rádio Fluminense FM, eternizada como Maldita, estava em seu segundo ano de vida, com a audiência lá em cima, nas nuvens, e o faturamento comercial lá embaixo. Como sempre. Por razões quase inexplicáveis, a mais importante emissora de rádio dos anos 80, inovadora, revolucionária, ousada, não tinha dinheiro para pagar a conta de luz. Seu dono, o jornal O Fluminense, sustentava a Maldita. Foi assim desde o primeiro dia no ar.

Eu estava sentado na sala da Produção e o gerente de Promoções, Álvaro Luiz Fernandes (sucessor de Carlos Lacombe), abriu a porta dizendo que o Roberto Medina, da Artplan, queria falar comigo no telefone. Lembro que a secretária do Medina se chamava Leila que, como 700% das pessoas que ligavam para a rádio, reclamou da dificuldade. Era uma única linha direta para atender a direção da rádio, ao comercial (existia?), promoções, locutoras, ouvintes. Tem gente que acha essa história o maior barato, exótica, peculiar, mas eu não penso assim. Achava e acho essa situação lamentável e triste.

O Roberto Medina não queria anunciar na rádio e sim ter uma reunião. Dei uma desanimada. Uma verba (estávamos no segundo semestre de 84) cairia muito bem. Agendamos a reunião. Eu não tinha ideia, mas a menor ideia do que se tratava. No dia marcado, fomos para a Fonte da Saudade (imediações da Lagoa, Zona Sul do Rio), onde Medina e equipe nos aguardavam. Em caráter sigiloso, nos foi apresentado o projeto do Rock in Rio, numa espécie de projeção em telão (seria o Power Point de hoje) que nos deixou de boca aberta.

O que Medina e equipe queriam da Fluminense FM: uma consultoria. Segundo eles, foi feita uma pesquisa no Rio e São Paulo comprovando que o público jovem que interessava ao festival estava ouvindo a Fluminense direto, o que para mim não era novidade alguma já que um dos raros investimentos da rádio era assinar o relatório completo de audiência do Ibope. Falando bem, em “ideologia do rock” e outros chavões supostamente sedutores, Roberto Medina nos passou um dever de casa fantasiado de pedido de favor: fazer uma enquete entre os ouvintes para a Artplan saber que artistas deveriam trazer. Nós teríamos que fazer a enquete sem revelar o projeto, o que não foi difícil. Pusemos no ar uma pergunta do tipo “se você fosse fazer um festival internacional de rock, quem convidaria?” Em troca, o que a rádio receberia? Nada! Em nome da tal ideologia do rock, das nossas camisas roqueiras, nossos cabelos roqueiros, nossa babaquice roqueira, a Fluminense entubou. Nós entubamos.

Não vibrei com a história do Rock in Rio porque, em última análise, mais uma vez a Fluminense FM entraria com os glúteos e os outros com o falo. Conscientemente. Meus amigos da rádio (se lembrarem bem), dirão que, de fato, eu não vibrei por uma razão óbvia. Que conversa era aquela de dar consultoria de graça a um megafestival, para uma mega-agência? Por que isso? Mais: nós concordamos, consentimos, não foi nada armado pelas costas.

Felizmente, Roberto Medina reconheceu nosso trabalho, citado nominalmente numa entrevista que ele concedeu ao Globo, semana passada, sobre as três décadas do festival que criou.

Volta e meia íamos a Artplan onde, num fim de tarde, eu me abri reservadamente com o Medina, de maneira pouco sutil, perguntando “qual é a contrapartida que os organizadores do festival pretendem dar a Rádio Fluminense FM?” e ele respondeu “uma enorme quantidade de convites para serem sorteados no ar e também rateados entre os que trabalham na emissora para irem ao festival”. Naquele ponto da história, não havia mais como brigar.

Semanas depois, a enquete ficou pronta e venceram: 1 – Led Zeppelin (que tinha acabado em 1980); 2 – The Who (parado, em crise); 3 – Dire Straits (gravando o célebre álbum “Brothers in Arms”); 4 – Pink Floyd (em guerra judicial, Roger Waters versus David Gilmour); 5 – Queen. A lista tinha vários nomes e muitos vieram tocar, como foi o caso do AC/DC, Iron Maiden e Yes. Liguei para a Artplan para mais uma reunião sobre a enquete. O grande e saudoso Oscar Ornstein (que trouxe Frank Sinatra para cantar no Maracanã) queria trazer Bob Dylan, mas o bardo deu dois furos nele. Um, em Nova Iorque. Reunião marcada, Oscar pegou um avião e quando chegou a NYC disseram que Dylan tinha ido para Paris. Obsessivo, pegou um outro avião e foi para capital francesa. Dylan furou de novo, mandando avisar que estava no interior da França.

Semanas antes do festival, eu, Maurício Valladares, Hilário Alencar, Claudia Cid (locutora), Liliane Yusim (locutora) e Álvaro Luiz Fernandes fomos visitar as obras. Eu só pensava na condição de rádio filantrópica que a Fluminense FM tinha se transformado e, nas vésperas do festival, comecei a perceber que ela não teria futuro (grana!) e muito menos eu (que não pagava minhas contas com saliva, ego inflado ou discos do The Who).

Semana do festival. A rádio em polvorosa, o que era natural. Todo mundo animado, corre-corre nos corredores, e eu indignado e mudo ouvindo na ultra baranga e carcomida Rádio 98 FM, entre um Wando e um Agepê, chuvas de comerciais do Rock in Rio. Na Rede Globo, idem. Na Fluminense? Nada. Fui questionado por amigos do mercado de discos (“a rádio não está ganhando nada?”, perguntavam atônitos) e eu confessava que não. Só “prestígio”. E para mim, o único prestígio que alimenta é o chocolate de mesmo nome.

Fui a uma feijoada da gravadora Warner no hotel Marina, que reuniu o Yes e outros nomes da gravadora. André Midani, na época presidente da gravadora, estava animadíssimo, me deu um forte abraço e, dono de uma intuição reconhecida por todos, achou que eu estava de mau humor. Desmenti. Depois, a gravadora EMI fez um coquetel em torno da piscina do Copacabana Palace, com as presenças do Paralamas, Whitesnake, o insuportável Rod Stewart e outros. Eu dava por encerrada ali a minha participação no Rock in Rio.

Fui a várias reuniões, visitei as obras, fui a festas e, dias depois, comecei a preparar a minha saída da rádio. Minha ideia era pedir demissão logo depois do festival, mas, de novo iludido, achei que com a repercussão do Rock in Rio (nome da rádio circulando no país todo, terceiro lugar no quadro geral da audiência no Rio), as agências iriam anunciar em peso. Não foi o que aconteceu. Bateu estafa e saí em 1 de abril daquele 1985.

O festival rolou e a Fluminense deu um show de bola. Maurício, Liliane, Hilário, todos que foram lá, ligavam de um orelhão no gramado, passavam flashes ao vivo, colocavam o fone virado para o P.A. de som e a audiência sentia um pouco do festival. O Ibope da rádio só subia e eu, acreditem, não fui ao Rock in Rio I. Uma questão de coerência já que para mim aquela festa cheirava a baile da Ilha Fiscal. Vi alguns momentos pela Rede Globo, ouvi pela Fluminense e, naturalmente, contemplei hordas e mais hordas de comerciais do festival e dos seus patrocinadores associados em várias FMs que nada tinham a ver com rock, menos na nossa. Foi duro.

O primeiro Rock in Rio fuzilou o amadorismo no show business. O Brasil até então considerado uma roubada para os empresários internacionais, ganhou sinal verde graças ao festival. De 30 anos para cá, quantas dezenas de atrações internacionais, de todos os gêneros musicais, baixaram (e baixam) por aqui? Por causa daquele projeto nascido em 1984 na Fonte da Saudade, assessorado por amigos meus que fizeram a mais espetacular, inteligente, ousada e comercialmente mal sucedida FM do Brasil.

P.S. – Em 2005, um amigo me apresentou ao presidente de um megagrupo de comunicação.

Meu amigo – Esse aqui é o Luiz Antonio Mello que fundou uma rádio que foi o maior sucesso nos anos 80, a Maldita.

O empresário – Deu dinheiro?

Eu – Não.

O empresário – Então não foi o maior sucesso.

Segundo a Wikipédia, quem tocou para quem no Rock in Rio I:

11 de janeiro de 1985 470 mil pessoas Queen Iron Maiden Whitesnake Baby Consuelo e Pepeu Gomes Erasmo Carlos Ney Matogrosso

12 de janeiro de 1985 250 mil pessoas George Benson James Taylor Al Jarreau Gilberto Gil Elba Ramalho Ivan Lins

13 de janeiro de 1985 110 mil pessoas Rod Stewart Nina Hagen The Go-Go's Blitz Lulu Santos Os Paralamas do Sucesso

14 de janeiro de 1985 30 mil pessoas James Taylor George Benson Alceu Valença Moraes Moreira

15 de janeiro de 1985 300 mil pessoas AC/DC Scorpions Barão Vermelho Eduardo Dusek Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens

16 de janeiro de 1985 180 mil pessoas Rod Stewart Ozzy Osbourne Rita Lee Moraes Moreira Os Paralamas do Sucesso

17 de janeiro de 1985 70 mil pessoas Yes Al Jarreau Elba Ramalho Alceu Valença

18 de janeiro de 1985 250 mil pessoas Queen The Go-Go's The B-52's Lulu Santos Eduardo Dusek Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens

19 de janeiro de 1985 380 mil pessoas AC/DC Scorpions Ozzy Osbourne Whitesnake Erasmo Carlos Baby Consuelo e Pepeu Gomes

20 de janeiro de 1985 200 mil pessoas Yes The B-52's Nina Hagen Blitz Gilberto Gil Barão Vermelho


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