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Jornalismo, Cultura, Comportamento

Luiz Antonio Mello

Estou cheio dos sucessos dos Beatles

Excesso de covers feitos nas coxas, overdose de tributos vagabundos, superexposição de músicas me fizeram ficar com asco de vários sucessos dos Beatles. Por isso, tomei uma atitude radical.


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Um dia desses peguei um táxi e o motorista ouvia rádio. Adoro táxis, tanto que há uns meses atrás, respondendo por telefone a uma pesquisa de consumo, me perguntaram “qual é o melhor carro do mercado?”. Respondi “táxi novo, com ar condicionado”. A mulher achou que era galhofa, mas não era, e não é. De fato, é o que acho.

Há muito tempo não ouço FMs pelo dial. Optei pela internet por razões quase óbvias: ouço um monte de webradios pelo smartphone quando ando por aí(e ando muito por aí)ou nos desktops da vida já que, por motivos que não quis investigar (preguiça) não gosto de notebooks nem de tablets. Logo que entrei no táxi, tocou uma música dos Beatles no rádio e eu senti e náusea, mal estar. Reagi mal aos primeiros acordes de “Let it Be” (era essa a música) e me assustei. Estaria ficando de saco cheio dos Beatles? Quando? Onde? Por que?

É verdade. Uma verdade que eu suspeitava mas não confirmava porque achava um absurdo. Mas estou enojado de boa parte das músicas dos Beatles, minha banda preferida ao lado do Who, não por culpa de Lennon, McCartney, Harrison e Starr, mas por causa da overdose de covers, tributos, versões, imitações, enfim, a molambalização que estão fazendo da obra da maior banda da história do rock. Exemplo: tema de novela, a versão de “Lucy in the Sky With Diamonds” é uma cusparada nos meus tímpanos, chacina de otorrinos, é de fazer mandril comer fuzil. Aquilo é absolutamente lamentável.

Com o passar do tempo (e das versões, dos covers, das homenagens e cusp! tributos) fui enjoando, enjoando, enjoando até ficar assim, enojado. Não aguento mais ouvir “Hey Jude”, nem “Something”, muito menos Yesterday, enfim, a lista é grande mas parou de crescer porque optei por estancar a hemorragia. Parei de ouvir Beatles.

Quando voltar a ouvir vou partir para canções que não foram sucesso mundial (“Tomorrow Nevers Knows”, “Fixing a Hole”, etc) e muito menos fontes de cobiça de aproveitadores fantasiados de beatlemaníacos que jogam barro sobre a obra dos chamados Fab Fours. Principalmente os que fazem aquele traste chamado “tributo” que, em geral, urina sobre a biografia dos homenageados.

Certa vez, no Rio Grande do Sul, no meio de um “tributo" a Stevie Ray Vaughan um cara da plateia, meio bêbado, levantou e quis atirar um tijolo de obra no líder da banda. De fato, aquilo que ele estava cometendo não era Stevie Ray Vaughan nem no Paraguai, mas atirar tijolo já seria demais. Várias pessoas (eu, inclusive), imobilizaram o agressor, arrancamos o tijolo de sua mão e o expulsamos dali.

Percebo que o próprio Paul McCartney está preocupado com a super-exposição de muitas canções dos Beatles e a cada turnê varia, busca músicas mais alternativas, enfim, o GPS do grande Macca já percebeu que os Beatles não merecem morrer de overdose, ou de fastio e muito menos de nojo generalizado. Puxei assunto com o taxista que disse gostar dos Beatles e que, inclusive, foi a um show do Paul McCartney. Perguntei se ele não estava cansado de ouvir algumas canções e ele disse que “essa aí toca muito...já está meio batida”, referindo-se a “Let it Be”. Para escrever esse texto telefonei para alguns amigos ligados a música e todos, absolutamente todos, concordaram que por causa dos covers, versões, tributos (cusp!) os Beatles estão mesmo cansando.

Desde 2013 não vou mais a shows de imitações ou referências de Beatles. Um amigo que é médico, montou uma banda que toca Beatles no Rio, me mandou e-mail/convite para a estreia e tal, mas acabei não indo. Semanas depois encontrei com ele no Leme e veio a fatídica “pô, não foi ao show...” Fiz o que tinha que ser feito: abri o jogo, falei a verdade, disse que não vou mais a show de cover de Beatles. Ele não acreditou e eu insisti: “não vou nem a shows para preservar a obra da banda.” Ficou tudo bem, como sempre acontece quando falamos a verdade.

Recentemente, estava num bar conversand e o equivocado violeiro que nos punia com a famigerada música ao vivo começou a tocar Beatles. Pedi a conta e fui embora antes dele chegar ao refrão de “Here Comes The Sun” (urgh!) porque a banda que sacudiu o planeta não merece um final tão melancólico como o esquecimento, consequência de overdose de exposição. Excesso de covers feitos nas coxas, overdose de tributos vagabundos, superexposição de músicas me fizeram ficar com asco de vários sucessos dos Beatles. Por isso, tomei uma atitude radical.


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