luiz antonio mello

Jornalismo, Cultura, Comportamento

Luiz Antonio Mello

O dia em que Eddie Van Halen perambulou pela tarde de Copacabana, bebendo cachaça e dando risadas

Imagine um dos maiores guitarristas do mundo circulando pela tarde de Copacabana, visitando bordéis e enchendo a cara de cachaça, poucas horas antes de um show. Imaginou? Não? Pois eu imaginei. Imaginei e detalho a fantasia com base em fatos reais que vivenciei.


OBVIOUS LOUNGE EDDIE VAN HALEN.jpg EDDIE VAN HALEN.jpg Até recentemente os camburões existenciais viviam me dando geral. “Isso é velho”, “isso já deu”, “isso está out”, mas a Cultura é filha do SER e não do TER. Não tem nada a ver com ontem, amanhã, hoje. O que é bom é bom. Assim como tenho o direito de achar Jack White sensacional, continuar ouvindo Hendrix, Zeppelin e Who, não significa que estou out. Não quero saber das capas de revistas da moda mídia, dos sites “ligados”, enfim, não conheço e nem quero conhecer o mudo “coxinha”, fútil, vazio. Meu planeta é outro, mistura Albert Camus com Sartre, bastante Anais Nin e Carlos Zéfiro além de política com P maiúsculo.

Vivo muitas experiências com a tropa de elite do rock. Afinal não estou jornalista. Sou jornalista desde pequeno, há mais de quatro décadas. Nos anos 1980, conheci o giga-guitarrista Eddie Van Halen no Rio. A rádio Fluminense FM, que fundei e dirigi, foi a promotora do show da banda no Maracanãzinho, em 1983. Ficou tudo acertado, mas na hora H o mexicano, molambeiro e salafrário do Alex Valdez, ex-cafetão do Van Halen, tentou nos dar uma rasteira. Não conseguiu porque se no México eles são bons de tequila, em Niterói o negócio é rabo de saia e de arraia.

Conheci Eddie numa entrevista de imprensa, e durante a conversa inexplicavelmente comecei a imaginar várias cenas dele (e com ele), como num filme. Curta-metragem. Imaginei o dia do show, início da tarde.

Em minha ficção baseada em fatos reais, eu perambulava nas imediações do hotel. onde o grupo estava hospedado, e vi Eddie sair por uma porta lateral. Os fãs estavam na frente do hotel. Magro, quase baixinho, aquele sorriso de peixe morto. Felizmente, ele hoje está limpo, sóbrio, saudável, mas naqueles tempos o guitarrista pegava pesado. Eram umas três da tarde e ele estava só. Cheguei perto, na maior cara de pau, me apresentei e começamos a rodar ali pela Duvivier e ruas próximas que são o principal reduto da orgia nacional.

No meio devaneio, ele queria uma companhia e nem prestou atenção quando eu disse que era jornalista, com meu inglês de Praça 15. No início de Copacabana havia um muquifo chamado New Munich, onde as mulheres dançavam e cruzavam num palquinho redondo (vulgo queijinho) quase do tamanho de duas mesas de pingue pongue. Eu mostrava a casa de baixíssima tolerância ao Eddie que, logicamente, estava fechada aquela hora, mas os dois faxineiros que lá trabalhavam colaboraram e nos deixaram entrar. Ao lado da New Munich, um botequim, daqueles que tem pirulito Zorro misturado com maço de Belmont, mariola, paçoca e muita, muita cachaça. Eddie caiu dentro.

De cara, dois copos. Um de 51 e outro, se não me engano, de Praianinha. Ele queria fazer uma espécie de test drive com todas. Eu estava distraído com uma mulata boa pra cacete que tinha parado ali perto, com uma amiga melhor ainda. E o Eddie virando, virando, virando, a ponto dos operários que estavam encostados no balcão comentarem “o china manda bem”. É bom deixar muito claro que, anos depois, ele livrou-se também do alcoolismo.

Em minhas cenas imaginárias, no quinto ou sexto copo que Eddie entornou, comecei a me preocupar. O cara tinha show naquela noite. E se caísse? E se tizesse coma alcoólica? Fiz um sinal do tipo “pega leve”. Ele nem ouviu. Na falta do que dizer, pensei “all the best cowboys have chineses eyes”, nome do disco-solo de Pete Townshend que tinha acabado de desembarcar no Brasil. “Todos os grandes caubóis tem olhos china”, tradução livre do nome do disco.

Resumindo, depois de uns sete copos (aquele da média e pão com manteiga), o guitarrista deixou o bar pisando o asfalto com a precisão de um equilibrista de circo. Chato é que eu paguei a conta. Eddie andava reto, seguindo em direção ao Leme (turistas, Leme fica a esquerda de quem vai pro mar) enquanto falava, pouco, do disco que ia gravar com Brian May, grande amigo, do Queen. Esse disco, sensacional, chamou-se “Brian May + Friends”. “Vamos ligar as guitarras, os amplificadores e sair tocando”, disse Eddie que mostrava umas variações de humor e, eventualmente, dizia coisas desconectadas, mas mantendo a lucidez de quem bebe atalaia jurubeba e não 10 copos de cachaças variadas.

De fato, em 1984 eu acho, saiu no o vinil de Brian e Eddie absolutamente demolidor. Uma jam de hard blues que contou, também, com a presença de outro gigante, Jeff Beck. Percebi que Eddie Van Halen não estava muito bem e não aguentava mais o estrelismo afetado, estilo “toda dando”, do cantor David Lee Roth. Eddie não disse nada mas evitou falar de sua banda, o Van Halen.

Naquela semana eu tinha lido que o guitarrista também tinha batido de lado com o irmão Alex, monumental baterista, e segundo os seguranças estrangeiros (como sempre fofoqueiros) Alex estava pegando pesado com Eddie por causa da birita. “Meu negócio é tocar”, disparou na volta pro hotel como se dissesse “não suporto esse negócio de ser band leader porque enche o saco”. Ele entrou no hotel e só fui revê-lo no palco do Maracanãzinho.

Van Halen abriu o show e logo nos primeiros acordes caíram 18 pessoas nas primeiras filas, todas desmaiadas, com os tímpanos estourados. Alex Porco Valdez mandou para a produção em Los Angeles o mapa da arena do Maracanã e os caras meteram som de Maracanã no Maracanãzinho.

Lembro da parede de amplificadores: Marshall, Marshall, Marshall, Marshall, Marshall, no fundo do palco, mais os P.A.s completamente marcianos, coisas que nunca vi. As vidraças de vários apartamentos na avenida Maracanã, no entorno do ginásio, quebraram. Vi gente vomitando por causa do impacto das ondas sonoras, vi a garotada rolando no chão, mas a banda não aliviou e o público não parou de aplaudir.

Acidentalmente assisti ao show da arquibancada, lá em cima, e fiquei cinco dias com a sensação de ambulâncias no ouvido. Mas o que me surpreendeu foi o encachaçado Eddie tocar muito, muito, muito! Precisão absoluta, nenhuma asfrada, nenhum compasso de fora. Claro, rolou perda de memória com letras, mas o som estava perfeito. Como pode? Quando o show terminou os milhares de fãs deixaram o Maracanãzinho uivando, ululando, vomitando, urinando de alegria.

Mas, logicamente, o destino mandou seu garçom com a conta. No ano 2000 foi anunciado que Eddie estava com câncer no fígado e pâncreas. Levou até extrema-unção. Na época eu tinha montado a minha rádio, a Rocknet on line, com a também jornalista Aline Rios e li a notícia. A Rocknet funcionava no estúdio El Sonoro de Felipe Melo, o maior intérprete de Jimi Hendrix que já ouvi e uma figura humana sensacional.

Li a notícia e saí. Fui andar, indignado, triste, pensando no Eddie. Ou melhor, no fim de Eddie. Mais um que subiria. Minha cabeça girava, pensei no levantamento feito por uma agência de notícias que contabilizou mais de 300 rockers mortos de 1954 até 2000. Motivos: 1) desastres de carro ou moto provocado por porrancas; 2) cirrose, pancreatite, falência múltipla de órgãos por causa de birita; 3) overdose de heroína, cocaína e afins. E por aí vai. Será que Eddie iria engrossar a lista?

Acompanhei dia a dia o noticiário pelo site Whiplash. Quando Eddie deixou as manchetes (na verdade as manchetes é que o deixaram em paz) percebi que alguma coisa boa tinha acontecido. Aconteceu. Uma cura milagrosa que médico nenhum consegue explicar. E o Eddie da rua Duvivier voltou à cena, mandando ver, mas sem birita e drogas. Mais: além de parar de beber e usar drogas, ele virou atleta e hoje está feliz da vida. Esse a mulher vestida de preto, cara branca e foice na mão não levou. Afinal, o mundo precisa de Eddies, gente de caráter, humildade, e overdose de Música nas veias.


version 5/s/recortes// @destaque, @obvious //Luiz Antonio Mello