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Luiz Antonio Mello

Ópera sucessora de "Tommy" do The Who, "Quadrophenia" terá versão sinfônica

Quadrophenia é a segunda ópera-rock escrita pelo fundador do The Who, guitarrista, compositor, cantor, produtor, escritor inglês Pete Townshend. Marco na história da música, a ópera vai ganhar uma versão sinfônica que será lançada em julho em concerto da Orquestra Filarmônica de Londres no cultuado Royal Albert Hall.


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Como parte das comemorações do aniversário de 50 anos da superbanda inglêsa The Who, a gravadora Deutsche Grammophon vai produzir o concerto da estreia mundial da nova versão sinfônica da ópera-rock Quadrophenia, escrita por Pete Townshend, gravada e lançada pelo Who em 1973.

A nova versão orquestral deste marco na história do rock foi orquestrada por Rachel Fuller, multiminstrumentista, compositora e regente, que ficou quatro anos trabalhando exaustivamente nas partituras originais. A nova e revolucionária versão de Quadrophenia vai ser lançada no dia 5 de julho com um concerto-estreia mundial no Royal Albert Hall (Londres), e vai ser apresentada pela Orquestra Filarmônica de Londres, conduzida por Robert Ziegler e estrelado por Pete Townshend e Alfie Boe, que cantam as partes que no disco original do Who são de Roger Daltrey.

Na década de 1960, Pete Townshend e The Who definiram o conceito de "ópera rock" com Tommy, lançada pela banda em 1969. Em 1970, Townshend mergulhou no projeto multimídia “Houselife”, envolvendo teatro, cinema e música, mas – extremamente prolixo - que ninguém conseguiu entender. “Houselife” virou o extraordinário álbum “Who´s Next”, de 1971, e na sequência Townshend escreveu a segunda e definitiva ópera-rock, Quadrophenia, que acabou se tornando um clássico, um marco, um símbolo do caos afetivo visitado com coragem, ternura e firmeza pelo disco.

Pete Townshend tornou públicos os seus traumas de infância em Tommy e Quadrophenia, para mim o melhor disco da história do Who. Desde 1973 não conheço (nem ouvi falar) de um show do Who, ou de Townshend sozinho, que não tenha sido incluída uma faixa do álbum duplo. Quem me apresentou ao disco foi o músico Zé da Gaita, no verão de 1974. Ele estava em Teresópolis, região serrana do Estado do Rio, nos encontramos e descemos a serra ouvindo a fitinha K7 aos berros na Variant de meu pai. Nunca mais Quadrophenia me deixou, nem eu a ele.

Álbum duplo conceitual, essencialmente ópera-rock, Quadrophenia foi lançado no mesmo ano de The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, outro longo e genial poema. Mas, o que Townhend escreveu fez com que vários críticos, biógrafos e fãs começassem a chamar o disco de “álbum da minha vida” porque, de ponta a ponta, ele aborda todos os tipos, formas e conseqüências do hediondo e deformador sentimento de rejeição, tão ou mais grave e dilacerador do que a culpa.

Em 1979 o diretor Franc Roddam lançou o filme que, evidentemente, contou com a consultoria de Pete Townshend que numa dessas pisadas na bola que eventualmente dá, entregou a direção musical a John Entwistle, baixista do Who, que deve a delicadeza de destruir a obra original. Até flauta doce o saudoso e genial baixista (morto de cocaína com vinho em 2002) meteu na trilha sonora que, comprei, ouvi uma única vez e derreti em seguida, transformando o vinil em cinzeiro, como já havia feito com uma série de outros discos, para mim, execráveis. Entwistle foi um dos melhores baixistas do mundo, mas como produtor musical foi um zero à esquerda.

Assisti ao filme Quadrophenia em 1981, mas sem legendas. Até os ingleses tem dificuldade de entender o dialeto mod (grupo de pós-adolescentes que formavam quadrilhas de lambretas em Londres no inicio dos anos 60) mas um dia, para a minha surpresa, o filme passou no Corujão da Rede Globo, tipo três horas da madrugada de uma quinta para sexta-feira, dublado. Há coisas nesse mundo que desisti de entender, como, por exemplo, Quadrophenia ser exibido na Rede Globo.

O filme é ambientado em 1963 e conta a história de um garoto chamado Jimmy Cooper (vivido pelo ator Phil Daniels) que, com a sua lambreta, vive rodando com os outros colegas mods (expressão de que vem de moderns), filhos de operários, que são molestados e perseguidos pelos rockers, de classe média, montados em potentes motocicletas. Jimmy briga em casa e é expulso com tapas na cara, chamado de vagabundo. Vai trabalhar, se defende de uma injustiça, manda o chefe tomar no... e é demitido. Se apaixona por uma garota, mas durante uma viagem do bando a Brighton, balneário onde rolou de fato uma batalha campal envolvendo rockers e mods, dezenas de presos e feridos, ele flagra a namorada com um cara dando amassos num beco.

E as rejeições vão se acumulando, Jimmy ingerindo cada vez mais doses cavalares de anfetaminas, até perceber que o único sentido de sua vida é o bando, a ideologia mod. Bando este que tinha um líder, rebelde radical que no filme é vivido por Sting, admirado, cultuado por Jimmy Cooper. A lambreta do personagem de Sting é cromada, cheia de espelhos, enfim, “cavalo” de um verdadeiro líder.

Até que um dia, solitário e atravessando mais uma crise de angústia, Jimmy vê a lambreta do líder encostada em frente a um hotel. Pior: flagra o próprio líder anarquista trabalhando como carregador de malas (“Bell Boy”), dizendo “sim, senhor”, “sim, senhora”, recebendo gorjetas, enfim, um capacho social. Indignado, Jimmy espera Sting entrar e rouba a lambreta dele. Sem família, sem mulher, sem trabalho, sem grupo de amigos, decide se atirar de uma escarpa britânica, mais de 50 metros de altura. Com a lambreta do personagem de Sting. Mas (há sempre um mas), Townshend deixa em aberto se Jimmy Cooper morreu pois a lambreta cai no abismo vazia. Os danos das rejeições são profundamente tratados nessa obra que a crítica mundial classificou como “drama”. Aos que perguntam se é uma autobiografia de Townshend, a resposta é não. Aos que perguntam se retrata a adolescência de mais de 80% dos fãs do Who, com certeza a resposta é sim.

Não conheço ninguém que gosta de música e que tenha ouvido Quadrophenia sem sentir o impacto. O impacto instrumental das lancinantes guitarras, pianos e sintetizadores de Townshend, a visceral e genial bateria de Keith Moon (1931-1978) o contrabaixo ágil, preciso, quase guitarra base de John Entwistle e a voz de Roger Daltrey, massa sonora que se junta as letras dessa magistral história existencial criada por Townshend.

Imaginem a versão sinfônica. Em tempo: os ingressos para o concerto do dia 5 de julho no Royal Albert Hall, em Londres, já estão à venda. Detalhes em http://www.classicquadrophenia.com


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