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Jornalismo, Cultura, Comportamento

Luiz Antonio Mello

Fazendo amor no teto da barca Rio-Niterói, ou, um Onassis na Baía de Guanabara

Há quem diga que o amor não tem limite. O sonho de passar uma noite inteira amando, ouvido Neil Young, num lugar inacessível para o resto da humanidade pode parecer quase impossível, mas neste caso não foi. Neste relato, absolutamente real, o amor não impôs limites e o sonho aconteceu.


OBVIOUS LOUNGE BARCA RIO-NITEROI PINTURA DE JOAQUIM DA FONSECA.jpg Óleo sobre tela de Joaquim da Fonseca

As barcas que ligam o Rio a Niterói foram o único meio de transporte ligando as duas cidades até 4 de março de 1974, quando foi inaugurada a ponte. Hoje, não são mais as mesmas. Nem as barcas, nem o Rio, nem Niterói, nem o planeta e muito menos nós, mas o fim da barca da madrugada deve estar deixando muita gente com saudade. Gente que estudava no Rio, ou trabalhava em compensação de cheques, telemarketing, enfim, a barca “do sereno” era um celeiro de casos. Muitos renderam crônicas, artigos, contos e livros ao longo do tempo.

Guardo uma história daquele tempo. Um grande amigo era um quase hippie, gente boa pra caramba. Naqueles anos 1970 vivia uma grande paixão e um dia teve uma ideia. Afoito, corajoso, tocou a ideia em frente e, as 23 horas e 45 minutos de um sábado de meia lua, estavam ele, a paixão (que já alcançara a condição de namorada), duas garrafas de vinho branco, um edredon, travesseiros, taças de cristal e velas. Levou um gravador K7 portátil e várias fitinhas só com Neil Young. Meticulosamente passou para as fitinhas os álbuns “After the Gold Rush”; “Harvest”; “Journey Through the Past”; “Time Fades Away”; “Tonight's the Night”; “On the Beach” e “Zuma”.

Ele conhecia um marinheiro, daqueles que acordavam os passageiros batendo com um jornal no encosto dos bancos de madeira quando a barca chegava. Meu amigo pagou a passagem, fez um sinal para o marinheiro amigo, entrou na barca, subiu e foi lá para a popa. Assim que a barca saiu, ele fez pepé para a namorada e em seguida subiu no teto da embarcação. Esticaram o edredon, abriram o vinho, acenderam as velas, deitaram e passaram a noite ali, no enorme teto da barca, sob o manto da meia lua, céu banhado de estrelas, brisa do mar, enfim, parecia Onassis com Jaqueline num mega-iate. Rio, Niterói, Rio, Niterói, incontáveis vezes. Neil Young não parava de cantar, fizeram amor intensamente várias vezes, deram gargalhadas, sem que os passageiros suspeitassem o que poderia estar acontecendo lá em cima.

Quando o sol ameaçou surgir em Niterói, o casal desceu. O marinheiro amigo já não estava mais – certamente seu horário havia acabado. Deixaram a embarcação e ele tirou uma única foto da proa de seu provisório ninho de amor. Foto que não mostra para ninguém. Em Niterói, foram a extinta padaria “Pão Quente”, tomaram café num copo só, juras de amor trocadas entre pequenos goles e fatias de queijo e presunto. Terminava assim mais uma viagem da “barca do sereno”. Uma de muitas, muitíssimas, cujo segredo o mar, mesmo poluído, consegue guardar até hoje. Meu amigo casou com a sua musa e tiveram filhos e comenta que adoraria reviver com ela a aventura, mas a barca do sereno não existe mais.


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