luiz antonio mello

Jornalismo, Cultura, Comportamento

Luiz Antonio Mello

Maravilha! Rock Brasil volta para a vida bandida

Ao contrário do que muita gente pensa, o novo rock brasileiro está engolindo as periferias, guetos, acostamento. Rock e blues nunca frequentaram o topo das paradas de sucesso e não vão disputar nada com os sertanejos (trilha sonora da era Collor) funk de coxinhas e similares. Porque boi é boi, piranha é piranha.


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Se eu fosse um músico de rock, e me convidassem para tocar no programa “Esquenta”, da Rede Globo, afundaria numa pesada crise existencial. Um dos dois teria errado a mão. Errado feio; ou eu, ou o programa. Afinal, “Esquenta”, “Caldeirão do Huck”, “Faustão”, “Altas Horas” (vida inteligente na madrugada?) e outros só escalam artistas que vendem milhões e milhões de discos. De uns anos para cá, os califas do hit parade tem sido os famigerados sertanejos universitários (paridos pela era Collor) embolados com funkeiros.

Um dia desses O Globo publicou uma matéria curiosa. Título: “Em carreira subsolo”. Conta que numa lista com as 100 músicas mais tocadas nas rádios em 2014, somente uma, do Skank, aparece em na 93ª. posição. Os campeões: Anitta, Gustavo Lima, Luan Santana, enfim, o cardápio do “Esquenta”, “Altas Horas”, blá blá blá. Em síntese, o jornal entrevistou algumas pessoas ligadas a música (e ao mercado) e concluiu que o rock voltou para o underground, como se fosse uma derrota, um tombo, uma derrocada.

A matéria deu o que falar (e o que tocar) nos últimos dias, quando celebrei efusivamente esse retorno do rock brasileiro para a vida marginal. Mas, vamos por partes. Para começar, Skank é uma banda simpática, Samuel Rosa parece ser ótima pessoa, bom compositor e músico, mas é absolutamente pop. E a meu ver, rock e pop são gêneros completamente diferentes, díspares, antagônicos, leite com manga. Portanto, vivas! ao rock por não estar representado no listão das 100 músicas mais tocadas no rádio brasileiro.

Porque celebro? 1 – Porque o rádio brasileiro poucas vezes esteve tão anêmico, ruim, lamentável, pobre e burro, com todo o respeito; 2 – Em todo o planeta, rock autêntico sempre viveu à margem, no acostamento, nos guetos e, ainda assim, vende muito disco; 3 - Porque em 2014 bandas como Titãs lançaram álbuns espetaculares como o demolidor “Nheengatu”, um marco na história do rock brasileiro. Do acostamento ouço ainda o som truculento, marginal e ótimo de bandas como Sanatore, Kapitu (CD “Utopia”) e o mais light Autoramas que estão por aí, nos guetos, nos bares, na periferia, lotando tudo e vendendo discos, sim.

Neste domingo, o mesmo Globo publica uma boa matéria de Leonardo Lichote sobre a explosão do novo rock no undergroud. Trechos: “As bandas (...) sob a hashtag se agrupam em cerca de cem - têm origens em diversos lugares do Rio: Olaria, Coelho Neto, Barra, Ipanema, Niterói, Lapa, Maré, Mendes, Tijuca, Botafogo... Suas histórias e trajetórias são independentes e se cruzaram sob a mesma "#" há cerca de três anos, quando o produtor Felipe Rodarte (dos estúdios Toca do Bandido e Soma) propôs as primeiras reuniões entre eles. “Hoje sua rede de palcos inclui eventos como Speed Rock, Subúrbio Alternativo, Toxic Fest, Live Animals, Folks Convida, Guadalastock, Rock no Porto, Rock na Feira, Odisseia Para Todos, Favela Rock Show, Matriz Live Sessions, Sunday Rock e Som da Cena. O espaço conquistado no Imperator Novo Rock - que numa de suas oito edições chegou a reunir mais de 700 pessoas - também é fruto dessa organização.”

Ou seja, o rock autêntico vai muito bem, obrigado, e detona milhares de decibéis nas periferias de TODAS as metrópoles brasileiras. Todas, sem exceção. Mas com certeza você não vai ver nenhuma banda ou artista solo em listinhas de mais tocados ou mais vendidos porque rock e blues nunca foram cabeças de paradas de sucesso em nenhum lugar do mundo. Rock e blues (seu pai, com DNA comprovado) sempre lideraram, sim, a parada segmentada, alternativa, o que não deixa de representar milhões de pessoas, milhões de discos vendidos e, claro, milhões de dólares.

Jimi Hendrix nunca esteve entre os 100 mais ouvidos (e vendidos) no Brasil. Nunca! Mesmo sem tocar no rádio (exceção para as emissoras de rock) vendeu (e vende) muito disco por aqui, num segmento musical (rock/blues) que considera venda expressiva 20 mil cópias no mercado de hoje. Mercado que mingua dia após dia. Led Zeppelin? Só teve uma música nos braços do povo, “Stairway To Heaven”, que mesmo assim foi sucesso no rádio no início dos anos 1970 com uma versão cortada, editada, dilacerada, capada. O pico de vendas do Led Zeppelin por aqui foi de 30 mil cópias, justamente do Led Zeppelin IV (de 1971) que trouxe “Stairway...”

Que eu saiba, nem os Beatles e os Rolling Stones venderam mais de 50 mil discos nesses trópicos movidos a esculacho sonoro. Bob Dylan? Cinco, 10 mil. The Who? Cinco, 10 mil. Fiasco no listão, no tal do top 100 da molambada, mas no segmento deles venderam e vendem muito bem. Sempre foi assim também com a música clássica. Você pega os números do magistral “West Side Story” com a regência do autor, Leonard Bernstein (1985), sucesso mundial, e estão lá 10, 15 mil discos vendidos no Brasil, o que é excelente em se tratando deste segmento.

O erro dessas listas, como a publicada pelo Globo, é que misturam boi com piranha. Imaginem um ranking de carros mais vendidos e, com base nele, achar que o pequeno jipe Suzuki Jimny (lidera o segmento do 4X4) deveria vender como o Palio, Gol, HB 20. O nome disso é erro de parâmetro, que estudei lá na casa do cacete da faculdade de Comunicação, na cadeira “Métodos e Técnicas de Pesquisa”. Se o Palio vende 100 mil unidades por ano o Jimny com seus 10 mil não tem nada com isso. O importante, estatisticamente falando, é que ele (o Jimny) se mantenha líder no seu segmento e não no segmento do Palio.

O rock brasileiro nunca vai encarar o sertanejo porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se a fictícia dupla que inventei, Adão e Ivo, vendem 200 mil discos, não significa que o Suzette Drinks (outra invenção) com seus 10 mil seja um fracasso. Cada macaca no seu galho. A propósito: quantos discos de platina Tom Jobim ganhou? Nenhum. Quantos discos de platina (eram vendas de 250 mil discos, mas por causa da crise caiu para 100 mil) Chico Buarque, João Gilberto, Maria Rita, Gilberto Gil, Milton Nascimento e a maioria da MPB ganharam: nenhum! Por isso são ruins? É lógico que não. Mas pela lógica do “não tocou no rádio” são todos um fiasco.

Quando quero, procuro e acho ótimos shows com nomes muito bons. Rádio? Só ouço pela internet porque nada no dial me atrai. Nada. Frequento o programa Ronca Ronca de Maurício Valladares (www.roncaronca.com.br) e sempre entro em www.radios.com.br onde escolho uma entre as dezenas de milhares de emissoras online que estão lá. As pessoas que gostam do autêntico rock, blues e afins, sabem que tem que correr atrás porque a mídia de massa só publica cultura de massa. E rock não é nem nunca foi cultura de massa no Brasil. Gostei da matéria porque trouxe à tona essa discussão. Um dia desses, no Facebook, bati essa bola com o grande João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso:

João Barone - Matéria no jornal de sábado se perdeu ao comparar alhos com bugalhos. O rock voltou para seu lugar, que bom! Perda de tempo compará-lo com os fenômenos musicais populescos.

Eu - É o que digo incansavelmente. Lugar do autêntico rock and roll é no acostamento, periferia, nunca no esquemão. Vou escrever sobre isso.

Joao Barone - Perder espaço nas rádios é sintoma da massificação musical, certo? Mas existem as rádios dedicadas ao rock, tem a tal da internet, tem as bandas e artistas do gênero fazendo shows, além de festivais que levam grande parte de quem aprecia o rock. Pode melhorar? Pode, é só melhorar a economia... Não se deve entender essa reportagem como um confronto entre o mais forte e o mais fraco, talvez sirva para lembrar que ainda tem uma massa considerável que consome este estilo musical.

Eu - Hendrix nunca foi sucesso de massa, o Zeppelin só foi popular com Stairway To Heaven e por aí vai. É outro parâmetro, outra história.

Joao Barone - Sim, e venderam e vendem milhões de discos.

Câmbio, final.


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