luiz antonio mello

Jornalismo, Cultura, Comportamento

Luiz Antonio Mello

Circo Voador, a Nave. Um grande livro a espera de um filmaço

Dizem que quem viveu os loucos anos 60 não lembra como foram. Com o Circo Voador rola mais ou menos isso. Mas a Maria Juçá foi fundo e reuniu em pouco mais de 700 paginas, embaladas pela capa de Luiz Zerbini e Vagner DoNasc, a hercúlea odisséia dessa “turma muito louca aprontando as maiores confusões”.


OBVIOUS CIRCO 1 CAPA DO LIVRO.jpg OBVIOUS CIRCO 2 ARPOADOR.jpg OBVIOUS CIRCO 3 LAPA.jpg OBVIOUS CIRCO 4 A NOITE.jpg OBVIOUS CIRCO 5 JUÇÁ.jpg

Estou devorando de novo, e com muito prazer, as 700 páginas do livro “Circo Voador – a Nave”, escrito com o coração por minha queridíssima amiga Maria Juçá, cujo filme está vindo aí.

É natural que o livro provoque saudade do futuro, já que o Circo está e estará sempre um passo a frente dos tempos. Todos os tempos em especial o nosso tempo.

Maria Juçá simboliza não só aquela lona que revolucionou (e revoluciona) o país a partir do Arpoador, em 1981, e depois na Lapa mas a alma de várias gerações que foram apresentados ao Brasil livre durante a abertura política. O Circo Voador tem praticamente a mesma idade da Rádio Fluminense FM e ambos só puderam existir porque a abertura política inundou a nação.

Juçá e eu estivemos juntos recentemente, lá mesmo no Circo. É minha irmã e, para não variar, rimos muito. Como esquecer das zilhões de noites que passei lá, assistindo a tudo o que é novo, tradicional, alternativo. Longos papos com o amigo de sempre, Jamari França, do lado de fora enquanto a Legião Urbana se preparava para tocar na antológica noite de 9 de outubro de 1985. A banda entrou no palco, plateia ensandecida, e Renato Russo foi ao microfone e gritou: “Hoje é dia de celebração. Vamos celebrar a morte de um carrasco chamado Emílio Garrastazu Médici, general-presidente que ajudou a jogar o país nos porões da tortura, morte, covardia”.

Depois do show fui a um puxadinho que havia no velho Circo que era tratado como camarim e vi a Maria Juçá conversando longamente com o Renato Russo, que estava numa noite especialmente nublada e brilhante. Fiquei do lado de fora lembrando que no final dos anos 1970, início dos 80, um amigo assistiu a sua ex-banda Aborto Elétrico num bar em Brasília, que acabou fechado pela polícia. O bar se chamava Adrenalina, ficava na Asa Norte e a polícia, boçal, achou que adrenalina era um tipo de droga.

Queria muito que um grande amigo meu, também jornalista Cezar Motta (foi subeditor na histórica Radio JB AM entre 1975 e 1980) tivesse assistido a esse show, impregnado de política saudável, porque foi ele (Cezar) um dos que acenderam o meu pavio para a necessidade de uma democracia, da luta por liberdades individuais e, sobretudo (principalmente) coletivas, etc, etc, etc. O Circo Voador é um patrimônio da anarquia inteligente. Anarquia que vai de Caetano Veloso, Jorge Mautner, Macalé, Egberto Gismonti e, lógico, as novas bandas. O Circo de Maria Juçá oxigena o Rio e o Brasil de inteligência, cultura, ousadia, enfim, tudo o que todos nós merecemos. Isso, há mais de 30 anos!

Por isso, se você mora no Rio vá ao Circo. Garanto que vai sair de lá pensando (e sentindo) a cultura do Brasil diferente. Se você não é do Rio, melhor ainda porque além do Corcovado, do Pão de Açucar, do Jardim Botânico e de todas as praias, existe um lugar que respira arte de qualidade. E esse lugar se chama Circo Voador, com a grife da genial (literalmente falando) Maria Juçá. Fundamental “ouvir” o texto de Maria Juçá. Crucial saber tudo, absolutamente tudo, sobre a vinda do Circo Voador ao mundo, essa nave delirante e genial que há mais de 30 anos nos faz mais felizes, atentos, lúcidos. Aqui, uma sinopse publicada no site da Livraria Travessa em www.travessa.com.br .

Dizem que quem viveu os loucos anos 60 não lembra como foram. Com o Circo rola mais ou menos isso. Mas Juçá foi fundo e reuniu em pouco mais de 700 paginas, embaladas pela capa de Luiz Zerbini e Vagner DoNasc, a hercúlea odisséia dessa “turma muito louca aprontando as maiores confusões”. Com a palavra, a própria: “Escrevi este livro na cidade do Rio e em Búzios entre junho de 2012 e novembro de 2013. Ri muito, me diverti quando lembrava das nossas bravatas para conseguir programar a agenda do Circo Voador ao longo desses 31 anos. São cerca de 15 mil eventos, entre festivais onde se apresentaram 50, 60 artistas em dias de maratonas sonoras, shows de artistas brasileiros consagrados e de artistas internacionais querendo conquistar o rico mercado musical brasileiro. Quantas fantasias, mentiras e verdades alimentaram nossos sonhos para recriar a vida. Sim, a nossa e a de todos que passaram por aqueles precários e generosos portões de bicões, duros e tesos de qualquer tostão para pagar um ingresso e ver seus shows preferidos.” Juçá conta que não agüentava mais ser assombrada por tanta memória e não dividir isso com esse respeitável público: “Esses fantasmas todos, ocupando minha turbulenta memória, me faziam carregar o peso e o compromisso de alimentá-los. Porque eram companheiros de estrada meus de Rolinha, de Jamari França, de Luiz Antonio Mello e de tantos artistas e produtores que deixaram no palco do Circo Voador sua singular marca. Esses fantasmas se expandiam especialmente quando alguém se dirigia a mim com aquela infame pergunta: ‘Por que você não escreve um livro sobre tudo isso que acontece no Circo? Como você começou nessa vida? Escreve.’ Até que os fantasmas começaram a fazer parte das conversas das tantas pessoas que encontrava pelos bares, jardins, backstage e camarins do Circo, extrapolaram para fora deles e começaram a invadir minha cama, meus sonhos, meus banhos e me deixar sem sossego para criar. Me diverti muito transformando tudo em memória escrita, e assim me livrei deles. Isso sem falar nas hilariantes histórias vividas, contadas nos textos, nos depoimentos dos próprios artistas como Frejat, Tom Zé, Lenine, Lobão, Gilberto Gil, Angela Ro Ro, Celso Blues Boy, Marcelo D2, Yuka entre outros e no caderno de imagens com fotos especiais.” No ano em que o Circo Voador completa uma década de seu vitorioso retorno, ganhamos esse registro, que junto com o documentário em produção sobre a trajetória única desse singular picadeiro, afirma um legado que não pertence a ninguém em especial, mas a todos que um dia tiveram um sonho maluco e foram ainda mais malucos por realizá-los. E nessa noite vamos viver, parafraseando Lobão, 30 anos a mil! Bem vindo a bordo dessa Nave louca chamada Circo Voador!


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