Maria Fernanda Lobão

Os Leões em uma reunião de cúpula chegaram a conclusão que daqui em diante só se poderia contar histórias que fossem verdadeiras, que de preferência fossem provadas e que passassem por uma comissão específica. Os lobos, contadores de histórias oficiais da selva, perderam sua essência e sua função, pois sabe-se que nesta área a verdade é um enfeite para grande mentira. Sou advogada. Não posso contar, mas posso escrever. Maria Fernanda LOBÃO, contadora de histórias.

Cassis, a parisiense

Cassis é uma Parisiense que reflete a contraditoriedade da mulher, pois ela sabe que tudo depende do contexto. Cassis é dessas que cada caso é um caso e cada dia é um dia. Quem é melhor conhecedora dela do que ela mesma? Cassis apresenta-se quase como uma rebelde aos 30, mas, mais que isso, ela representa a liberdade de comportamento em uma sociedade engessada por ter assimilado muitas críticas de alguém que nem se sabe quem. Só se ouviu dizer, só se ouviu falar.


Apresento Cassis, romântica, Parisiense, doce, autêntica, solteira, consultora de moda em Paris. Moradora do quartier do Marais, engraçada, mas no momento sem muita moral. Descrente do amor convencional, há mais de seis meses sem ninguém. Pensa em casar, mas no decorrer de suas aventuras vocês perceberão que ela, além disso, sonha em viver um grande amor, ela é contraditória. Cassis em seus sonhos é obstinada na vida, no trabalho e no amor. Situação real: cansada de ser social na vida, no trabalho e no amor. Ah, ela está na fase da virada, a dos 30.

DIA DE CHUVA, PARIS, DEZEMBRO DE 2012, NADA DE ANORMAL NA VIDA DA DOCE CASSIS. Consultora de moda na ELLE, dia de temperatura interna agradável, externa congelante, mas ainda assim convidativa para beber uma garrafa de vinho com alguém de papo solto, cabeça aberta, politizado, afrodisiacamente inteligente.

---Cassis, Cassis seu cliente das 14:00 está aguardando-a. Acorde (gritou Pierre, o diretor).

---ok, ok estou a caminho.

A partir deste momento iniciou-se sua jornada de trabalho, atendimento de clientes, papelada, fotos, pesquisas em arquivos da revista, telefonemas e mais telefonemas. Bom, em um dia de típico inverno parisiense, Cassis imaginava com quem sair para relaxar naquela noite. E, de certa forma, ela sempre via tal empenho como uma perda tempo (lembrem-se que sua fase agora é de antissocial), mas, naquele dia, ela estava disposta a não ficar sozinha. ` Encerrado o expediente, pegou o metro, comprou sua baguette favorita na padaria ao lado de sua casa, subiu três lances de escadas e chegou em casa. Tudo vazio, ninguém para rir de suas histórias.

Admirando o frio e a chuva da sua janela, degustando um bom vinho, chegou a conclusão que nenhum relacionamento seu dos últimos dois anos tinha sequer chegado próximo a algo saudável, nem mesmo Sebastien, médico, intelectualmente desenvolvido, atencioso, mas sem ambição sexual. Talvez fosse assexuado ou gostasse mais da companhia de livros e mais livros, mas mesmo Cassis tendo a literatura como hobbie não conseguiu administrar tal descaso, teve de jogar no lixo o marido tão sonhado pela sua mãe.

Em um dia como este, de muita imaginação no seu apartamento, resolveu testar o novo aplicativo "à la mode, le Tinder". Tinder, vinho, crises de contraditoriedade tendem a uma combinação fatal. Esbravejante e suspirante disse:

_ Que a brincadeira comece, que os risos sejam largos e os homens sejam homens.

Inscreveu-se, abriu o aplicativo e logo aprendeu que a brincadeira era como um cardápio, então, esquerda (gostei), direita (não gostei), esquerda, direita, esquerda, direita, horas de análise, uma garrafa de vinho, gargalhada, fotografias de pênis, Tinder tornando-se um grave comediante para noites solitárias e de repente:

- Olá, Cassis. (Era Alison)

Alison, americano morando em Paris, musculoso, super "american way of life". Somente para exemplificar, em uma das suas fotos o Macdonalds estava como fundo e em uma outra ele vestia uma polo da Tommy Hilfiger (très clichê), azul-marinho, mas como ele era atraente Cassis ainda não havia desistido até o momento em que ele a convida para almoçar no Burger King. É, alguns americanos são estranhos. Ao mesmo tempo, Cassis desenvolvia uma conversa com Mathieu, "chef de cuisine", francês, arrogante, morador do 16éme e em sua foto vestia um terno e falava ao celular, claramente, via-se nele um ar típico de blogueiro de moda. Cassis, sem pestanejar, enviou-lhe para a Ilha dos Isolados.

De repente, Paul, 26 anos, chama-a para trocar perguntas e descobrir o quão longe eles estariam. Foto do perfil: despojado, barba por fazer, via-se um ar minimalista naquele perfil, garçom em um bar e (bingo!!!) estavam a menos de 300m um do outro. Dia de sorte. Entre muitas perguntas e respostas ela resolveu encontrá-lo no seu local de trabalho e como medo de desistir achou melhor ir logo até lá. Cassis pergunta: - Até que horas você ficará no bar? - Acho que até uma da manhã, mas como o movimento está fraco se você quiser vir até aqui para continuarmos este papo não haverá problema algum.

- Ok, Chegarei em vinte minutos.

Como uma boa parisiense colocou seu casaco, uma calca jeans, modulou seu coque e caminhou até Chez Marine.

Quando entrou no bar, reparou a luz baixa, a cor das paredes vermelha, uma música indie ao fundo e Paul no balcão. Infelizmente seu coração não disparou. Em poucos minutos percebeu que ele era mais feio do que na foto, mais baixo, mas muito mais simpático do que ela poderia imaginar e, realmente, o bar estava às moscas.

Logo, sem ninguém para atender ele sentou-se a mesa com ela, serviu-lhe vinho. Entre taças e mais taças, discussão após discussão, risos e também desconfiança descobriram que tinham uma amiga em comum, Marie (professora de artes) e que quando foram adolescentes frequentavam o mesmo bar na Rue Maire. Perceberam que a vida os presenteou com uma coincidência, o que necessariamente, talvez, não signifique nada.

Cassis estava reluzente entre vinhos, cores e gargalhadas em uma noite cinzenta. Olhava-o, analisava-o, cogitava se além de tantas taças de vinho terminaria a noite em seus braços cantarolando "ne me quitte pas", por enquanto ela esperava só a próxima garrafa de vinho, admirando o relógio que marcava quase uma hora da manhã. O fato de tê-lo visto e nada sentido talvez fizesse com que ele fosse parar na Ilha dos Isolados.

(Continuamos no próximo post). 747.JPG747.JPG


Maria Fernanda Lobão

Os Leões em uma reunião de cúpula chegaram a conclusão que daqui em diante só se poderia contar histórias que fossem verdadeiras, que de preferência fossem provadas e que passassem por uma comissão específica. Os lobos, contadores de histórias oficiais da selva, perderam sua essência e sua função, pois sabe-se que nesta área a verdade é um enfeite para grande mentira. Sou advogada. Não posso contar, mas posso escrever. Maria Fernanda LOBÃO, contadora de histórias. .
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