maçã

Do gosto da maçã à grande metrópole, e todas as possibilidades entre um e outro.

Rafa(el) Baldam

Entre conversas de bar, cidade, arquitetura, arte, pessoas e textos, vou andando como sou, e vou sendo como posso.

Informação, arte e construção

A cidade, a tecnologia, a arte e cada um de nós somos parte de um jogo em incessante andamento: a construção e desconstrução de indivíduos.


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Andando pela rua nos sujeitamos à cidade e à sua cultura, cada vez mais global e menos particular. São incontáveis os anúncios em outdoors e telas de LCD, os carros perseguindo lugares, os smartphones saltando dos bolsos, os passos rápidos, os sons digitais que incessantemente atravessam nossos pensamentos. Estamos imersos em uma dinâmica implacável, e estamos acostumados a ela.

Esta situação gera uma sensação de liberdade latente onde imaginamos que todos estão ao nosso alcance e todas as informações estão disponíveis. Não seria estranho se fosse incrivelmente difícil assimilar todos os estímulos que encontramos no nosso dia a dia. E realmente é difícil. A partir disso, uma atitude se torna bastante comum, mesmo que imperceptivelmente. Trata-se da criação de um sistema de escolhas próprio, que nos faz deixar de lado a maioria dos estímulos e informações e captar a minoria deles; e como este é um sistema pessoal, as escolhas são guiadas pela personalidade de cada um. E por fim há a necessidade de organização dessas informações. Os gadgets ajudam bastante neste quesito (ou, pelo menos, tentam).

Tudo isso para que os estímulos do mundo consigam entrar na nossa memória de uma forma minimamente inteligível. E estamos falando aqui de um processo interno rápido que usa nossas preferências pessoais, nosso passado e nossas ambições para tomar decisões, como uma espécie de pré-programação. Após atravessarem este funil invisível, as informações coletadas na cidade estão dentro de nós e ali se misturam a tudo que já tínhamos, são interpretadas e reinventadas, nos transformam e nos constroem.

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Estamos, então, no meio de um ciclo. Recebemos os estímulos externos, sejam eles filmes, músicas, propagandas, conversas, abraços, trabalho, textos, sexo; estes passam por uma triagem pessoal e após entrarem na nossa mente são interpretados, mixados com a nossa personalidade existente até então e, por isso, constroem nosso perfil. E depois? Depois, mesmo que a gente não queira ou perceba, efetuamos o próximo passo, que é a devolução. Claro, pois da mesma forma que recebemos estímulos, nós os produzimos também, para que outras pessoas os recebam e as transformações aconteçam com outros indivíduos. Portanto, nunca estivemos sozinhos. Somos parte do que os outros nos transmitem, somos parte do que o mundo nos transmite, sejam coisas boas ou ruins.

Dessa forma, um simples caminhar pela cidade se torna um mar de possibilidades, onde aceitar uma informação ou recusar outra pode mudar completamente nossa construção pessoal.

A arte pode funcionar dessa forma também. Ao reconhecermos, por exemplo, uma pintura como uma obra de arte, estamos afirmando sua capacidade de criar possibilidades de interpretação. Quantas vezes já aconteceu de você interpretar uma música de uma forma completamente diferente de outras pessoas? Ou ler um poema e ver que só você o entendeu dessa forma?

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A arte funciona como uma explosão de estímulos, e por isso se torna tão importante. Se estamos embebidos em uma cultura da informação apressada, engolidas como uma pílula, a arte vem como um respiro, como um copo de água no meio da ressaca; nos banha com as possibilidades incontáveis que cria, e constrói em nós possibilidades igualmente incontáveis de devolução ao mundo.

Assim, o ciclo continua e se refaz.


Rafa(el) Baldam

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