maçã

Do gosto da maçã à grande metrópole, e todas as possibilidades entre um e outro.

Rafa(el) Baldam

Entre conversas de bar, cidade, arquitetura, arte, pessoas e textos, vou andando como sou, e vou sendo como posso.

Qual o tamanho da sua casa?

Imersos na cidade, somos peças de seu funcionamento, fazendo dela nossa aliada e inimiga todo dia.


mapa.jpg

Imaginemos que estamos voando, alto, bem alto, como um pássaro. Ao olharmos para baixo temos o plano onde as pessoas moram, trabalham, se divertem, dormem, vivem. Desçamos um pouco para ficarmos à altura dos grandes prédios. Agora vemos a trama das ruas e nos espaços entre elas, as edificações. Residências, praças, prédios, lojas, estacionamentos. Desçamos mais um pouco até pousarmos na calçada, em frente a uma casa. Observamos uma pessoa entrar pela porta da frente e fechá-la.

Esta pessoa somos todos nós. Imersos na trama da cidade, nossas casas se confundem entre edifícios mil, as pessoas são uma em uma multidão. Dentro desse quadro, nosso cotidiano se desenvolve e durante ele, construímos relações com tudo aquilo que entendemos como algo, ou alguém, de valor. Nossa família, amigos, aquela padaria que serve o melhor café da manhã, aquele jornaleiro que sempre dá bom dia, aquele parque que marcou um acontecimento, nossa casa.

Entendemos como casa, no sentido menor da palavra, aquela edificação onde moramos, a residência do nosso endereço, onde dormimos e guardamos nossas coisas pessoais. Contudo, poderíamos ampliar este conceito. A casa, como descrita anteriormente, seria débil se não fosse sua ligação com tudo que é externo a ela. As ruas da cidade, a escola do bairro, a loja da esquina, o shopping, a estação de tratamento de esgoto que fica do outro lado da cidade, a pracinha para levar os cachorros passearem; o conjunto destes lugares faz da casa um lugar maior do que as paredes podem delimitar, faz da cidade nossa morada.

village.jpg

Ao encararmos dessa forma, estamos deduzindo que nossas relações, afeições, simpatias e antipatias se dão, de certa forma, entre nós e toda a cidade. No momento em que criamos laços com algum lugar estamos incrementando a ideia de casa com a ideia de lar. É ali que nos sentimos seguros, que sabemos que estamos no lugar certo; que estamos cientes do nosso lugar dentro da imensidão que pode ser o urbano; é onde as paredes, feitas de tijolos e cimento, perdem a frieza do material de construção e ganham a qualidade de proteção, quase como aquele avô que gosta muito da gente e que vai sempre nos proteger. Ela está ali e sempre vai estar pronta para nos entender. A casa torna-se lar.

Contudo, existe um grande revés nessa história. De tão orgânica que a cidade pode ser, ela ganha vida própria, um metabolismo pulsante, e por ser maior do que nós, não tem conhecimento de quem somos. As forças da cidade puxam, esticam, encolhem e escolhem pontos da sua trama para suas influências. A economia, a infraestrutura, a política, o mercado imobiliário, os cidadãos, estes e outros vários fatores fazem parte da dinâmica urbana diária.

Quando o lar, como descrito anteriormente, entra em conflito com esta macroperspectiva da cidade, é quase como quando um gato brinca com um inseto antes de lhe dar um fim. As tais forças da cidade estão carregadas de intenções e de um planejamento não muito claro. Quando a intenção é, por exemplo, lucrar, aquele que se recusa a cooperar vê-se na posição do inseto, enquanto o gato se concentra para dar o bote. Ele aprisiona, corta as relações com o exterior, faz questão de mostrar que o inseto está encurralado e que o lar que ali existia já foi dilacerado pelas escavadeiras.

Não é preciso destruir as paredes da casa para matar o lar, basta torná-la uma ilha.

Wu Family House, Chongqing, China.jpg


Rafa(el) Baldam

Entre conversas de bar, cidade, arquitetura, arte, pessoas e textos, vou andando como sou, e vou sendo como posso. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/arquitetura// @destaque, @obvious //Rafa(el) Baldam