maçã

Do gosto da maçã à grande metrópole, e todas as possibilidades entre um e outro.

Rafa(el) Baldam

Entre conversas de bar, cidade, arquitetura, arte, pessoas e textos, vou andando como sou, e vou sendo como posso.

Justaposição

Por viver na cidade, estamos próximos de muitas pessoas. Elas cruzam nosso cotidiano como quem é figurante num filme. Mas apesar da proximidade, estamos vivendo juntos?


martin_stavars-nightscapes02.jpg Martin Stavars

Seguindo nossos caminhos, temos um cenário a nos contornar. Por vezes ele está longe, sob a neblina, apenas figurando como uma imagem qualquer. Já em outros momentos, ele toma um desvio e se faz presença pétrea à nossa frente; nos força a tomar decisões, nos faz refletir, nos faz esquecer, nos faz de cegos.

No fundo, as linhas verticais colocadas lado a lado não nos levam pra cima. Talvez por cansaço, nos fazem olhar para o chão e trombar com quem vem na direção contrária. Quem veio na direção contrária?

No cruzamento, atenção dobrada, sinônimo de perigo, hora do tomar uma decisão. Em uma janela do décimo quinto andar tem alguém, uma pessoa que não existe, que não passa de um holograma projetado pelo urbano. Assim como o motorista do ônibus, o cobrador, o garçon, o porteiro, o mendigo, o caixa de super-mercado, o empresário. Nenhum deles existe.

Afinal, anonimato é um dos slogans da cidade.

Em cada um reside o próprio caminho, e as personagens que fazem parte dele. O que é necessário para haver um encontro então? Um real encontro, com gente, não com um espectro, um holograma.

adam magyar.JPG Adam Magyar

Deveríamos estar próximos? Deveríamos estar juntos?

Há tempos que a distância se tornou uma palavra distorcida. Ela existe, é mascarada, então não existe mais. As leis da física se confundem ao passo que 20cm entre uma pessoa e outra se tornam 20km; não há fala que vença essa lacuna, não há gesto que estabeleça conexão. Por outro lado, as janelas agora são portáteis e a distância de 10km se resume em alguns pixels, e a voz, numa codificação digital.

Mesmo quem não mora, mora na cidade. Se o teto não é laje, o teto é ponte; se não há telhado, há marquises; o piso pode ser de azulejo ou asfalto; o travesseiro pode ser de algodão ou de sarjeta. Estamos justapostos, posicionados nesse cenário; uns encaixados, outros pendentes.

Minha casa fica a 60m do chão, e no chão, quem passa? Sobre a minha casa há outras, no topo, quem mora? Ergueu-se rápido, surgiu dos computadores para as mãos dos operários holográficos e daí para se tornar meu cenário. O edifício espremeu minhas necessidades numa área calculada, colocou ao meu redor várias pessoas, mas esqueceu das portas.

Nunca estivemos tão próximos, e tão distantes.

michael wolf a32.jpg Michael Wolf


Rafa(el) Baldam

Entre conversas de bar, cidade, arquitetura, arte, pessoas e textos, vou andando como sou, e vou sendo como posso. .
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