manifesto das artes

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Jeferson Corrêa

Jeferson Corrêa é escritor, autor do livro "Além do que os olhos podem ver". É também organizador de eventos, blogueiro e apaixonado por todas as formas de artes.


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MEDO DO ESCURO

Você tem medo de que? A pequena Gisela tem medo do escuro. Todos temos medo de algo. Somente quem enfrenta seu medo pode se considerar um verdadeiro vencedor.


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A luz tinha acabado em sua rua, e Gisela tateava como uma cega no escuro em busca do interruptor do banheiro, na falsa esperança de que a luz magicamente voltaria. Ela estava apertada, com muita vontade de fazer xixi; Tinha acordado na madrugada, e como estava ficando grandinha não queria mais molhar seu lençol de cama, nem incomodar seu pai, sua mãe e sua irmã que provavelmente estavam dormindo às 4 horas da madrugada. Ela queria desesperadamente acender a luz, e tentou inúmeras vezes em vão, pois a luz só voltaria às 6 da manhã, descobriria mais tarde. Tinha medo do escuro e de seus mistérios. Principalmente dos monstros que nele habitavam.

As trevas eram o lar de demônios, do Bicho Papão, do Monstro dos pesadelos e outros temíveis seres. E desde criança, sua mãe a amedrontara com historinhas de monstros que vivem na escuridão sempre que Gisela aprontava alguma peripécia, enquanto seu pai parecia ignorá-la passando mais tempo com sua irmã. A pequena Gisela, atualmente com oito anos, desenvolvera nictofobia. Só conseguia dormir quando havia um feixe de luz, mesmo que ínfimo em seu quarto, sala, ou onde quer que estivesse. Acreditava que a claridade espantava os monstros e maus espíritos quando revelados, pois a luz era algo bom. As fadas emitiam luz, assim como os anjos e as estrelas. E ela sabia que os monstros existiam mesmo que sua irmã mais velha, Lilian, de doze anos dissesse que não. A própria Gisela já ouvira tentativas de grito e choros abafados de sua irmã á noite, justamente quando as luzes estavam apagadas. O escuro era medonho, e ela sentia que sua irmã escondia algo sobre os monstros, pois ela fingia não ter medo, mas Gisela sabia que Lilian estava tão assustada quanto ela. entretanto, hoje, Gisela enfrentaria seu maior medo.

Tateando, após fazer suas necessidades fisiológicas, vai até o seu quarto e abre a gaveta de seu criado mudo, pegando sua lanterna rosa da Barbie — um presente de sua mãe que ganhara em seu aniversário do ano passado. Descobriria o que se escondia na temível escuridão. Então, vagarosamente esgueira-se até o porão de sua casa, onde acredita veementemente ser o esconderijo dos monstros, e munida com sua lanterna, guia-se com os raios de luz até a entrada do porão. Abre a porta bem devagar que range bem baixinho igual a um filme de terror, e lá embaixo, a pequenina avista a silhueta do monstro que estava atacando sua irmã.

Ele estava em cima dela, fazendo estranhos movimentos repetidos, como se introduzisse algo no corpo dela. Lilian estava nua, amordaçada em sua boca com um pano, acorrentada nas mãos e nos pés e chorando muito. O monstro também estava nu e tinha uma forma familiar e humana. E quando a luz da lanterna de Gisela iluminou o rosto dele, a corajosa menina descobriu a identidade do monstro. Era seu pai. E ele, ela viria a descobrir isso mais tarde, estava abusando sexualmente de sua irmã. Algo que já fazia há um bom tempo, mas fora descoberto pela inocente tentativa de Gisela de vencer seu próprio medo. Seu pai, então fora preso, e com o passar dos anos, a menina cresceu, tornou-se uma atraente mulher e perdeu seu infantil medo do escuro. Atualmente,Gisela possui outra fobia, a antítese da anterior: o medo da luz. Luz essa, que revela os monstros que não vivem no escuro, mas entre nós à claridade.

Autor: Jeferson Corrêa

Fonte


Jeferson Corrêa

Jeferson Corrêa é escritor, autor do livro "Além do que os olhos podem ver". É também organizador de eventos, blogueiro e apaixonado por todas as formas de artes. Contato: [email protected]
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