manifesto das artes

Sejam bem-vindos a um universo não tão óbvio!

Jeferson Corrêa

Jeferson Corrêa é escritor, autor do livro "Além do que os olhos podem ver". É também organizador de eventos, blogueiro e apaixonado por todas as formas de artes.


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Não somos pessoas boas

Podemos ser pessoas boas?


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Não consigo acreditar na total bondade imaculada e na generosidade altruísta humana a ponto da abnegação ser maior que suas próprias necessidades de sobrevivência e seu ego — na maioria dos casos. Não é questão de pessimismo, niilismo ou ceticismo, e sim de analisar os fatos e do significado de ser bom.

O bem incorruptível, idealizado, sacro e perfeito de Deus apresentado pela religião cristã, assim como qualquer religião que possua uma onipresente onisciente e onipotente divindade que emana amor e bondade é deveras utópico. O bem não está acima do mal, assim como o mal não se sobressai, e sim convivem juntos em duas facetas que são interpretadas por pessoas diferentes, de cultura, ética e moral distintas. Se a moral religiosa de bondade baseia-se no medo de algum sofrimento eterno e na recompensa das boas ações em outro lugar, em um paraíso de “felicidade eterna”, a bondade não é genuína. É uma troca de favores. Como já bem disse Einstein outrora: “ Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível”.

Se você está lendo esse texto ao invés de estar ajudando um mendigo na rua, ao invés de estar ajudando um familiar, um amigo, alguma instituição carente, ou que quer seja que possa contribuir significativamente para a mudança de outro ser, você não é tão altruísta quanto pensava. Se você usa seu tempo mais para você que os outros, você é egoísta. No sentido literal da palavra: Egoísmo (ego + ísmo) é o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona. Neste sentido, é o antônimo de altruísmo.Não devemos pensar na palavra de forma totalmente negativa, e sim no fator de escolher primeiro o que é melhor pra si, antes do que é melhor pros outros. Algo que é compreensível e justificável, quando admitido, sem tentar usar a máscara da falsa empatia.

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Fatos sociais cotidianos nos mostram que somos pessoas mais voltadas ao “eu” do que ao ” nós”, a começar pelo nosso sistema capitalista que gera desigualdades, as religiões que segregam mais do que unem e as escolas que ao invés de incentivar a criatividade dos alunos, separam-nos entre bons e maus, com altas e baixas notas, empregos cada vez mais concorridos, pessoas mais individualistas focadas em seus I-pods e vivendo em mundo digital onde é possível ter mais de cem amigos. Crescemos em um ambiente hostil que nos acostuma a deixar de lado a generosidade e o altruísmo. A pressão escolar e da faculdade junto a busca de empregos fazem com que pensemos cada vez mais em nós e nos tornemos egocêntricos, achando que os problemas do mundo giram ao nossos redor o que consequente reflete em nossa realidade e forma de agir. Sejamos francos, nossa vida é mais importante que qualquer outra, pois é com ela que vivemos e morreremos. Raras são as pessoas cujas próprias vidas estão em segundo plano. Pensemos no significado de ser bons perante a sociedade e nós mesmos para que possamos responder a essas perguntas:

Quantas pessoas que disputaram a vaga de um emprego com você e foram desclassificadas e você se preocupou?

Você se preocuparia se alguém precisasse mais que você de uma vaga de emprego por motivos pessoais e a vaga desta pessoa fosse tirada por sua causa?

A pessoa que está namorando, você se preocupa de estar com ela no lugar de outros que poderiam gostar mais dela e amá-la que você?

Você, por amor se afastaria de uma pessoa mesmo amando-a muito por saber que está fazendo mal a ela e ela não sabe disso?

O que faria para melhorar a vida das pessoas que ama? Sacrificaria-se como seus pais se sacrificaram por você?

Se ocorresse um acidente onde você e desconhecidos estivessem, você se preocuparia mais em sair vivo ou com os desconhecidos?

Você realmente se considera bom o bastante a ponto de vender todos os seus pertences agora, desistir dos seus sonhos e viajar para os países mais miseráveis do mundo para ajudá-los?

Abdicaria de sua cama quentinha, seu computador com internet para morar na rua com os desabrigados e saber o que eles passam?

Ou você acha que se preocupa com os outros porque doa alimentos e roupas para orfanatos esporadicamente? Porque compartilha fotos de pessoas e animais abandonados no Facebook?

Você acha que bondade é somente rezar pelo bem de alguém? OU não seria melhor ajudar com o que você tem ao invés de esperar algo milagroso ocorrer?

Você faz algo para receber reconhecimento publicando na internet? Gosta de receber elogios pelas boas ações que faz? De ser visto como um(a) ativista lutando pela causa que acredita? Gosta de ser um bom exemplo?De ser puro(a)?

Acredita que outros não se importam e que você está no caminho certo?

Acha que ser virgem te faz melhor que os outros?

Você é uma pessoa boa e correta só por ter bons argumentos? Você os vive?

Acredita que não tem preconceito por já sofrer ao ter nascido mulher, negro(a) ou homossexual?

Você realmente se preocupa com TODA minoria? Importa-se com os deficientes? Gostaria de ter um filho deficiente físico e/ou mental? Amaria-o(a) da mesma forma, ou só de pensar na ideia você já repudia imediatamente, pois sonha em ter um filho (a) perfeitamente saudável e normal?

Preocupa-se com o destino dos índios?

Faria algo para mudar as situações injustas de nosso país sacrificando a sua vida por pessoas desconhecidas e que não gosta?

Você luta só por privilégios ou por direitos? Foge das obrigações?

Você quer recompensas pelos seus atos? Sabe reconhecer seus erros e as contradições do que acredita a ponto de admitir seus eros publicamente?

Procura outras fontes e opiniões além daquilo que lhe é conveniente?

O que você além de escrever suas frustrações e desabafos pouco significantes faz nas redes sociais?

Você que reclama da educação, espalha cultura aos seus semelhantes ou prefere se alienar em páginas e vídeos de humor barato?

Você se importa realmente com outras pessoas além de familiares, namorado(a), amigos? Importa-se a ponto de fazer algo pra mudar alguma realidade?

Você mente para ajudar alguém ou a mentira é um ato condenável e sempre maléfico na sua opinião?

Quais são seus exemplos de bondade?

Você gosta de ser visto como uma pessoa boa pelos outros? Você se considera uma pessoa boa?

Parando para rever toda a sua vida nesse momento em que está lendo esse texto, desde a sua infância até agora, quem é você?

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O que é bondade pra você além da definição do dicionário?(Bondade Inclinação a fazer o bem, a ser benigno, indulgente: todos conhecem sua bondade.Qualidade do que é bom: a bondade do chefe.Amabilidade: tenha a bondade de responder-me.Benevolência, brandura.)

Essas perguntas são pra mexer com você. Socos na sua mente. Fazer-te abrir os olhos e mostrar que não somos tão honestos como pensamos e queremos passar a visão aos outros que somos para aumentar nosso ego, que sempre estamos certos, que os errados são sempre os outros, não nós, o mundo sempre é injusto conosco. O Inferno são os outros.

Ou acreditamos em nosso mundinho que possamos ser diferentes e especiais dos demais, colocando-nos num patamar elevado, tirando-nos a essência do que entendemos por bondade, que advém de outra virtude, a humildade, através do que nos foi ensinado. Mas não somos essencialmente bons, nem maus. Ninguém é. Somos atitudes, pensamentos e experiência.

Somos acima de tudo, pessoas com dúvidas, independente de posições religiosas ou políticas,orientação sexual, de raça, gênero, idades, tentando viver acima de tudo nossa vida com nossos paradigmas e preconceitos.

Estamos individuais em uma realidade plural. Onde nos identificamos quando somos vistos ou quando vemos alguém que nos toca de alguma forma. Algo que não ocorre com todos, pois enquanto ajudamos um, ignoramos milhões. Excluímos, ignoramos vários. Existir é fazer alguém sofrer.

A ideia de bondade sempre será válida e deve ser conservada e repassada. Mas a ilusão de ser bom é nociva. Nos segrega, ilude, nos torna soberbos e nos engole num buraco negro existencial. Ter atos de bondade esporádicos não faz um ser humano bom, pois para que fosse considerado bom em sua plenitude, a maior parte de sua vida deveria ser feita desses atos. O bem maior está acima de si mesmo, o que para maioria de nós não ocorre.

Se Rousseu estava certo, se somos bons e a sociedade nos corrompe, estamos (quase) todos corrompidos, pois como Hobbes também disse: O homem é o lobo do homem, contudo, neste momento em que escrevo estas palavras, ainda acredito que não estamos totalmente perdidos, há muitas pessoas que diariamente fazem atos maravilhosos e nunca chegaremos a conhecer. Pessoas que deixam legados para a posteridade. Que contribuem com algo significativo. Mudam vidas. Que fazem bondade sem precisarem ser reconhecidos por isso.

Li certa vez uma frase de autor que não me lembro que dizia: " A bondade deve ser anônima, do contrário não pode ser chamada de bondade.” Aqueles que tentam o tempo todo provar que são bons, certamente não o são. Não se tenta ser, se é.

Se acredita ser bom, não tente mostrar sua “crença de bondade”, apenas “seja bom” e os outros algum dia reconhecerão. Ou talvez nunca reconheçam, talvez nunca ganhe um Nobel da paz e morra esquecido, as pessoas sejam ingratas com você, mas o que importa é que você fez por que quis, não esperando recompensas e isso vale mais do que qualquer reconhecimento, pois é autêntico. Não somos pessoas boas, mas podemos tentar várias vezes ser.

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Jeferson Corrêa

Jeferson Corrêa é escritor, autor do livro "Além do que os olhos podem ver". É também organizador de eventos, blogueiro e apaixonado por todas as formas de artes. Contato: [email protected]
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