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Entenda a compreensão e compreenda o entendimento...

Victor Almeida Moreira

E quando tudo mais se der por acabado, eu lhe garanto: ainda restará uma análise, um pensamento, uma imaginação...

BRASIL: UMA BREVÍSSIMA HISTORINHA ECONÔMICA


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É até interessante ver como em época de eleição pipocam gurus e pensadores da história brasileira. Mas frente à história econômica do nosso país, curiosamente, tenho reparado que os "pensadores" de curto alcance não enxergam mais do que o panorama compreendido entre a década de 90 e os dias de hoje. E diante desse reduzido cenário econômico, criam todos os seus argumentos “racionais”. Dividem o país em antes e depois, santos e pecadores, anjos e demônios, monstros e heróis; e a partir dessa segregação (à sua escolha e julgamento) saem por aí culpando os Siths por todos os males do Brasil e Jedis por todas as coisas boas (termos fantasiosos para pensamentos fantasiosos).

Mas, nossa história econômica está longe de ter começado em 90. Na verdade, se querem mesmo associar um marco que dê uma referência histórica da economia para as suas reflexões políticas-econômicas acerca do nosso país, então sugiro que seja 1929. Sim, a crise de 29, quando, por incentivo das circunstâncias, o Brasil resolveu abandonar seu modelo agroexportador para dar sua cara à tapa em um modelo industrial. Claro que essa transição teve a ferrenha - e natural - disputa entre prós e contras, mas no final já sabemos o que aconteceu. O Brasil ousadamente substituiu as importações e aos poucos construímos uma indústria bem consolidada.

Nossa competitividade externa então se fez relevante frente ao mundo. Em contrapartida é verdade também que esse modelo desenvolvimentista deixou de lado muitas questões sociais, dentre elas um que acredito ser a pedra filosofal de um país, a educação (pesquisem os baixíssimos índices da época). O crescimento externo ia bem, mas faltava, internamente, uma sustentabilidade social mínima (o simples reconhecimento dessa necessidade por alguns intelectuais sempre assustou os direitistas fanáticos). Tanto que alguns analistas de direita se descabelaram ao ouvir o presidente Médici dizer “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. Simultaneamente os tigres asiáticos surgem na competição industrial e em menos de uma década se tornam exemplos de inovação. No cenário mundial que se criava, o modelo brasileiro parecia ter futuro, mas aí vieram as crises mundiais, e não foram poucas, crises que os esquerdistas apaixonados atribuem ao “imperialismo satânico” oculto do capitalismo, como a do petróleo em 70.

Diante desse panorama o modelo Brasileiro foi subitamente enfraquecido e foi na década de 80 – com a economia sendo corroída ao limite – que se instaurou a hiperinflação mundial (terrível!). Nossa moeda terminou de ser destruída, o consumo foi despedaçado e os investimentos praticamente deixaram de existir. E que nunca seja esquecido o número 2.477%, que era a inflação medida pelo IPCA às vésperas do plano real (imaginem só!).

Como neutralizar, então, uma hiperinflação diante de um cenário tão caótico e uma economia em frangalhos?... Exigiria uma ousada firmeza na aplicação de medidas econômicas modernas, uma medida de longo prazo, que recuperasse a moeda; uma medida que, infelizmente, exigiria certo período de sacrifícios de um povo que já havia sofrido tanto com a hiperinflação. As turbulências aumentavam no mercado mundial e a oposição da época investiu, como um pitbull, “mordidas” violentas contra o artifício econômico a ser implantado. A despeito de todos os contrapontos a hiperinflação foi contida (tudo isso está documentado, basta um pouco de vontade e mente aberta para pesquisar e entender).

Depois de toda uma era de convívio com a inflação (a erva daninha de uma economia), apenas por volta de 1995 foi que investimentos consistentes começaram a regressar ao território nacional. As pragas que no passado corroeram os alicerces da nossa estabilidade econômica haviam sido exterminadas, agora só faltava reforçar esses mesmos alicerces. Primeiro ano do século XXI. As condições para um crescimento robusto e duradouro foram, finalmente, alcançadas com o câmbio flutuante, o regime de metas de inflação e a responsabilidade fiscal. Todo esse enredo levou o Brasil aos inéditos acúmulos de 12 superávits primários desde 1947. (Os mais à esquerda dessa discussão dirão que o Brasil vendeu a alma ao FMI).

Brasil reestruturado economicamente. O mundo se recuperando da crise. Os juros baixos dos Estados Unidos. Etc. Entramos no século XXI tendo construído uma realidade afável após tantos anos de embates econômicos.

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Vou resumir a partir daqui, pois agora entra o período tão conhecido por todos. Sem que o Brasil deixasse de crescer, permitiu-se: recursos fartos; políticas sociais difundidas com abrangência sem igual; redistribuição de renda, índices de crescimento interno disparados como nunca antes vistos; máquina pública inchada como nunca; corrupção mantida; reformas fiscais, políticas e econômicas deixadas de lado. Crescimento social. Má gestão dos recursos. Desgaste e corrosão financeira do sistema. (Percebe como esse último modelo é um verdadeiro paradoxo? Realmente impossível de julgar de forma binária!)

Até chegarmos ao que estamos vendo, lendo e ouvindo hoje. Um Brasil que nunca foi tão desenvolvido socialmente a despeito de um sistema econômico sendo desmantelado - e se tornando disfuncional.

Diante disso, o que é exposto por ambos os lados dessa discussão têm sua razão de ser e as verdades expostas por eles coexistem (reservados à suas devidas proporções dos fatos, obviamente). Não é de se estranhar, portanto, que o país esteja tão dividido.

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Aos eleitores fanáticos:

Entenda apenas uma coisa: é feio, é deselegante, é "desinteligente" abraçar-se cegamente a uma doutrina ideológica pré-fabricada e adotá-la como verdade absoluta. Com essa postura, o que deveria ser um debate inteligente torna-se um duelo entre dois lados aficionados, que escolhem submeter-se, confortavelmente, aos chavões e clichês (que, diga-se, ninguém mais aguenta ler) transformando o debate em um "fetiche verbal" carregado de dramatizações e sentimentos psicóticos reprimidos.

Os menos... digamos... "soberbos"... hão de concordar comigo que tem sido cansativo essas discussões partidárias carregadas de fanatismo acerca do apoio a um determinado candidato. Enquanto se trava essa disputa meio imbecilizada, tenho visto pouca preocupação em se tentar entender a realidade do Brasil (aliás, “Brasil” é o que menos se lê).


Victor Almeida Moreira

E quando tudo mais se der por acabado, eu lhe garanto: ainda restará uma análise, um pensamento, uma imaginação....
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