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Entenda a compreensão e compreenda o entendimento...

Victor Almeida Moreira

E quando tudo mais se der por acabado, eu lhe garanto: ainda restará uma análise, um pensamento, uma imaginação...

A VERDADE SOBRE RECOMEÇAR

Prepare-se para entender de forma profunda sobre alcançar um recomeço verdadeiro


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Todo o final de ano gera grandes oportunidades para criação de analogias e metáforas a respeito de “recomeçar”, e diante desse oportuno momento originam-se lindas e abundantes reflexões, do tipo “veja como foi o ano que ficou pra trás e pense em como você quer que seja seu futuro tão próximo. Mude! Troque! Recomece!”.

Encantados por essa aura de esperança que paira no ar, aceitamos os discursos, aderimos aos belos clichés dos comerciais, choramos com a chance de novas possibilidades, enchemo-nos com promessas, a nós mesmos, de que modificaremos tantas coisas. E é assim, de “recomeço” em “recomeço”, que caminhamos até o momento que nos encontramos hoje. Se melhoramos ou pioramos? Cada um responda por si...

Mas fato é, que a busca intensa de uma “felicidade” modelo vendida pelo marketing social das mídias – e corroborada pelos seus inúmeros seguidores das redes sociais – tem levado, com cada vez mais intensidade, as pessoas a assumirem variados compromissos de mudanças e a demonstrarem desvairadamente que suas vidas estão cheias de momentos e acontecimentos novos, bonitos e surpreendentes. Mas, o problema é que em meio a essa vibração envolvente e esse incentivo impaciente de fazer renovar, trocar, fazer e acontecer, esquece-se completamente de tentar entender, no sentido mais profundo, o que de fato é preciso aperfeiçoar, reformular ou mudar em sua vida.

De “recomeço” em “recomeço”, temos criado uma ambição desenfreada de viver sempre uma nova história, de procurar por novas pessoas, de frequentar novos lugares. Sem notar, contudo, que viver todos esses anseios sem ter lucidez em nossas escolhas, não nos trará exatamente o ganho que se procura. Por isso, a pergunta que deveria caber a todos e a cada um antes de qualquer cogitação de recomeço é: o que, exatamente, você tem buscado?

Faço esse questionamento porque eu sei que quanto mais decifrarmos a resposta para essa pergunta, mais entranhados em nós mesmos ficaremos, e só assim poder-se-á encontrar um sentido no tumulto constante do mundo. Não sendo assim, tendemos a nos perder em nossos desejos mais supérfluos, a atrofiar nossos princípios mais enraizados e pormenorizar nosso “eu” para, só então, perceber que passamos a maior parte do ano gastando mais energia em busca da aprovação dos olhos alheios do que em ser, e ter, o que queríamos de verdade. Matamos, com isso, qualquer possibilidade real de transformação em nossas vidas. (Precisarei de bem mais anos de vida do que possuo pra poder compreender isso).

Fico constrangido ao notar como as pessoas estão sempre querendo mostrar o melhor de suas vidas, sem buscar de fato ser o melhor delas para si mesmas. Estanha-me ver como as pessoas estão sempre querendo mais, sem de fato mobilizar seus esforços em busca de mais! Todos parecem estar, a todo o momento, envolvidos numa disputa fatigante por espaço e por tempo, sem, no entanto, saber o que farão quando possuírem mais espaço e mais tempo.

Fico temeroso ao ver que, absortas nessa estranha busca de embelezar a vitrine de suas vidas, as pessoas têm se tornado extremamente carregadas de filosofias em seus discursos, eternamente prontas a mostrar a “realidade” dos acontecimentos sob sua ótica “verdadeira” e “incontestável”. Cada uma delas arma-se com seus argumentos politicamente “corretos” e se posiciona de forma que possa sempre estar preparado para altear, vaidosamente, sua razão sobre os demais.

E o mais curioso é que a despeito de toda essa vaidade – apesar de toda essa soberba – a maioria das pessoas costuma ser tão indiferente aos sentimentos e ao sofrimento humano (inclusive ao seu próprio). É a era dos que discursam demais e agem tão pouco! Reclamam de tudo e almejam mudar o mundo, torná-lo mais justo. Mas são incapazes de notar e agir sobre pequenas distorções à sua volta. Falam sobre ouro e vendem papelão. E ai de quem mostrar pra elas uma “verdade” que não a sua própria! Porque é impressionante como a pessoas têm feito questão de esconder as fragilidades do mundo atrás de suas belas e utópicas ideologias, debaixo de suas crenças, de seus conhecimentos específicos e de suas previsões individualistas do futuro, para que assim possam convencer os olhos aleios (e talvez sua própria consciência) de que nada vai abalar a sua ascendente perfeição moral e social (seja lá o significado que isso tenha para cada um).

A verdade mesmo é que as pessoas nunca estiveram tão confusas a respeito de si mesmas e do seu papel no mundo, mas, em contrassenso a qualquer sobriedade, andam altivas demais para admitir isso.

Assim, com o nariz apontado para o céu e os olhos fixos nas tendências das redes sociais, eclode na massa essa febre da busca por “recomeços”. Uma jornada que já se inicia fracassada quando, crendo que se está recomeçando, fazem-se apenas trocas inquietas e vazias de experiências.

Sei que ler tudo isso é um pouco impactante. Não me entendam mal, por favor. Eu não quero mudar, de forma alguma, o conceito de “recomeçar” (nem tenho a pretensão para tal). Recomeçar é sim um oportuno momento para exceder àquilo que fugiu do controle, aquilo que por uma infelicidade das ocasiões te deixou duvidoso, infeliz, devastado. É, sem dúvida, uma real oportunidade de mudança.

Todavia...

Recomeçar é mais do que somente superar o que deu errado. É, antes, modificar o jeito, os trejeitos, a fala, a forma, a maneira. É apostar na sua própria transformação como agente constante de renovação de um mundo que não encontra acerto. É assumir a carga por ações que fazem a diferença. É entender que mudar superficialmente não basta, antes, é necessário processar, internamente, um encadeamento de práticas capazes de alterar o tutano da sua própria personalidade.

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Recomeçar exige um convencimento de si mesmo a respeito dos aprendizados acumulados ao longo da sua jornada. Requer coragem para revisitar os caminhos que te levaram até onde você está e que te transformaram em que você é, para, então, reconhecer o que deu errado; buscando a elevada compreensão de que antes de alterar o caminho, é indispensável encarar os mesmos cenários de quantas perspectivas diferentes você puder. Nunca “que mude”, “que seja”, “que vá”, mas sempre “serei”, “mudarei”, “irei”. De outra forma não é recomeço, é troca de experiência.

De nada adianta trocar de empresa para recomeçar uma carreira se você não for honesto consigo mesmo sobre realmente estar fazendo o que quer, caso contrário qualquer lugar será ruim e estressante. Será em vão mudar de país, estado ou cidade para recomeçar uma vivência se você não deixar de ser uma pessoa de críticas amargas, ou então todos os lugares se tornarão demasiadamente imperfeitos para você. Não bastará trocar de parceiro para recomeçar um relacionamento se você não revir seu ciúme excessivo, sua falta de confiança, sua forma hostil de tratar, sua falta de atenção; do contrário todos os seus relacionamentos estarão fadados ao fracasso. De nada adianta trocar o mundo à sua volta se você não transformar sua forma de encará-lo, sua forma de tratá-lo, sua forma de ser.

Deixe pra trás o que te faz mal, mas, sobretudo, abandone o mal que você faz.

Neste novo ano... Recomece sim! ... Mas recomece diferente. Recomece a si mesmo. Partindo todos os dias do princípio de que você ainda nada conhece do mundo. Deixando de lado, aos poucos, o medo de assumir as cargas que lhe impõe a vida. Criando, dia a dia, a disposição para assumir a responsabilidade pelos principais acontecimentos gerados pelas mudanças constantes do mundo (a propósito, esteja atento a elas). Não temendo ser profundo nas suas atitudes mais simples. Aprendendo a não se envergonhar de reconhecer suas falhas para os outros, mas, especialmente, reconhecê-las para si mesmo. E o mais importante: deixando de projetar suas crenças nos outros.

Saiba: não há uma fórmula secreta para recomeçar. Altere-se, alterne-se, transforme-se! É um bom ponto de partida se você quiser recomeçar de verdade. E lembre-se do que deixou registrado Carlos Drummond de Andrade: "Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre".

Feliz ano novo!


Victor Almeida Moreira

E quando tudo mais se der por acabado, eu lhe garanto: ainda restará uma análise, um pensamento, uma imaginação....
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