marcelo vinicius

Literatura e outras expressões artísticas relacionadas, como cinema e música

Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS.

A polêmica arte conceitual II

Tomando como partida um ótimo texto publicado por um amigo daqui do portal Obvious, o Edivan Santos, sabemos que a arte conceitual define-se como o movimento artístico que defende a superioridade das idéias veiculadas pela obra de arte, mas até aonde isso é válido? Revendo a polêmica.


ob.jpgHoje escrevo sobre um ótimo texto publicado por um amigo daqui do portal Obvious, o Edivan Santos, o qual comentou sobre a polêmica da arte conceitual. Para quem não leu o seu texto, clique aqui.

Nesse texto são levantadas questões como “o que você diria se alguém perguntasse o que é arte?”, “E se alguém perguntasse se um cachorro morrendo de fome é arte? O que você pensaria?” A obra de arte está representando um caminho de difícil discussão. Se a discussão sobre possível definição não é recente, a solução (caso exista) não será encontrada aqui. Mas vale fazermos uma reflexão sobre os rumos da arte na sociedade.

Ao decorrer do texto, levanta-se abordagens de casos como o do Habacuc (Guillermo Vargas) , o qual se envolveu em uma grande polêmica ao usar um cachorro amarrado para ser sua obra de arte em uma exposição na Nicarágua no ano de 2008. Para Habacuc, deixar o cachorro morrer era a "obra de arte". A diretora da galeria informou aos órgãos de imprensa que o cão fugiu no dia seguinte ao evento.

Continuando com alguns pontos do texto, o artista Piero Manzoni teve um gesto que não foi gratuito, mas sintomático. Ou melhor, uma criação. Esse artista enlatou suas fezes e vendeu a preço de ouro. Cada grama de fezes correspondia ao valor do grama de ouro. Esse gesto foi sintomático para muitos, pois ele previu os rumos da obra de arte.

Como o objetivo aqui não é reproduzir o texto de Edivan Santos, mas fazer uma reflexão da Arte Conceitual a partir do seu texto, reconhecendo que essa discussão não será esgotada e a solução não será encontrada aqui e menos ainda terá algo profundo, então , poderemos iniciar com o entendimento de que, apesar das diferenças, pode-se dizer que a arte conceitual é uma tentativa de revisão de noção de obra de arte arraigada na cultura ocidental. A arte deixa de ser primordialmente visual, feita para ser olhada, e passa a ser considerada como ideia e pensamento.

O enigma, para mim, é que, devido à grande diversidade, muitas vezes com concepções contraditórias, não há um consenso que possa definir os limites do que pode ou não ser considerado como arte conceitual. Mas no geral, a Arte conceitual é formidável, até porque a arte é subversão.

Só que tem um problema. Estamos falando de pintura e outras exposições de artes, como mostra o texto acima, mas vamos usar a arte literária como exemplo aqui, só para melhor me expressar: para mim, a literatura às vezes incomoda, e sua função é incomodar. Ela não vai vender mesmo… Tem que incomodar, assim como a Arte Conceitual tem como função: chocar. O problema é esse tal de "incomodar" na literatura, porque você pode ler Paulo Coelho e se incomodar, por ser ruim ou por causa dos erros de ortografias exagerados e propositais em seu livro (isto é uma opinião e sem verdades absolutas), mas ler Kafka também incomoda, porém por outro motivo: por tocar na condição humana tal como é vivida e que se confronta com a ansiedade e com a escolha do futuro, reduzindo à culpabilidade existencial. A alma humana e os seus medos estão em Kafka, sem querer ser reducionista com este escritor.

Qual é a questão disso tudo então? É que se a idéia é também chocar e que não há um consenso que possa definir os limites do que pode ou não ser considerado como arte conceitual, corre-se o risco de virar a "casa da mãe Joana"; e se virar a “casa da mãe Joana”, vai se tornar em um perigo, porque inseriram a chamada cultura inútil nas massas para "vender arte". Qualquer um fará qualquer coisa para vender e virará arte.

Dessa forma, as artes assim podem ser resultados de um pós-modernismo capitalista. Onde a arte virou somente mercadoria. Houve mudanças na ordem de quantidade e de qualidade nos processos de produção artística, diminuindo a variação e autenticidade de diversos "produtos". O homem perde a sua condição de ser pensante e reflexivo e assume definitivamente o papel de consumidor: compra-se até fezes enlatadas, situação fatual esta comentada no texto citado de Edivan Santos.

Longe de querer engessar a arte, pois, como comentei anteriormente, a arte é também subversão, isso poderia também fortalecer o que os sociólogos e os filósofos da Escola de Frankfurt Adorno e Horkheimer chamariam de indústria cultural.

Num artigo escrito em 1973, Lucy Lippard lamentava a absorção dos impulsos radicais da arte conceitual: o modo como até mesmo folhas de papel datilografadas estavam sendo comercializadas no mercado de arte, e o modo como os conceitualistas de ponta haviam construído carreiras de sucesso no âmbito da já existente estrutura de mercado.

Mas não obstante, a própria arte conceitual procura “criticar” a idéia da política capitalista. Cildo Meireles apoderou-se de garrafas vazias de Coca-Cola, as quais seriam talvez o símbolo do capitalismo americano de consumo. Nessas garrafas então estampou as mensagens políticas, utilizando-se das mesmas tintas branca para escrita da sua crítica ao capitalismo. Outros exemplos podem ser encontrados no livro de Paul Wood, “Arte conceitual”.

Percebemos até aqui é que se de um lado temos idéias como “garrafas vazias de Coca-Cola” por outro lado temos “um cachorro morrendo de fome” e “fezes enlatadas”, mas a questão, repito, não são as bizarrices, e sim, já que não se tem um consenso que possa definir os limites do que pode ou não ser considerado como arte conceitual e somando as experiências em um radicalismo extremo, com uma extrema representação sem limites, o risco disso tudo virar a "casa da mãe Joana" é possível; e se virar a “casa da mãe Joana”, vai se tornar em um perigo, porque inseriram a chamada cultura inútil nas massas para "vender arte". Qualquer um fará qualquer coisa para vender e virará arte e aí bem-vindo a era do pós-modernismo novamente.

Outro ponto a se discutir é que um artista conceitual afirma que quem ainda leva em conta valores estético é ultrapassado, já que a nova arte não liga mais para isso. Mas pode haver arte sem valor estético? Arte sem arte? Estas são as perguntas de Ferreira Gullar sobre o assunto.

Descartando assim a expressão estética, como quer a arte conceitual, concluíram que se negar a realizar a obra é reencontrar as fontes genuínas da arte. E, se o que se chama de arte é o resultado de uma expressão surgida na linguagem da pintura, da gravura ou da escultura, buscar se expressar sem se valer dessa linguagem seria fazer arte sem arte ou, melhor dizendo, ir à origem mesma da expressão.

Só que isso nos leva, inevitavelmente, a perguntar se toda expressão é arte. Exemplo: se amasso uma folha de papel, o que daí resulta é uma forma expressiva; pode-se dizer que se trata de uma obra de arte? Se admito que sim, todo mundo é artista e tudo o que se faça é arte.

Assim surge a crítica, que parece vir a calhar, de Ferreira Gullar, que diz que, ”em resumo, o principal problema da arte contemporânea é que se confundiu expressão com arte. Perdeu-se a noção de que uma coisa pode ser expressiva sem ser arte. Por exemplo: se eu dou um grito, isso é expressão, mas não é arte. Para que esse grito se torne arte, é preciso que eu o transforme num poema, ou que um pintor como E. Münch faça um quadro como "O Grito", em que aquilo vira uma obra plástica. Se eu me sentar no chão em cima de terra, mesmo que seja no museu, não é obra de arte. Pode ser uma atitude, uma performance adotada como protesto, como manifestação, mas não é obra de arte.”

A obra de arte, ao contrário da expressão pura, necessita da elaboração de uma linguagem, é o que pensa Ferreira. Então a Arte Conceitual se implica como enquanto a arte ou enquanto ao capitalismo, mesmo que ela tente ir de contra a isso?

Nesse caso, onde todo mundo pode fazer arte, acaba se resumindo na questão de uma falsa liberalidade que não tem valor algum, porque é mentirosa. De fato, se você admite que qualquer um pode fazer arte, pode parecer que sua visão é igualitária. Mas as pessoas não são iguais, elas têm direitos iguais.

Por exemplo, Ferreira diz: nem todo mundo é Zico. Qualquer um pode jogar futebol como Zico? Isso é uma mentira, o que não quer dizer que o Zico seja superior a ninguém. Mas no futebol ele é melhor do que a maioria das pessoas, incluindo as que também jogam futebol.

Sem esgotar o assunto, a pergunta que fica é: vale tudo na arte? E arte conceitual é uma bela proposta? O que você acha?


Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS..
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