marcelo vinicius

Literatura e outras expressões artísticas relacionadas, como cinema e música

Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS.

Crônica: eu dormi como uma pedra

No quarto as paredes em silêncio me observam jogado pelos cantos como os livros que eu já li. Será que eu devo levantar e dirigir sem rumo? Será que o sono chega se eu fingir que não estou aqui? Dormir como uma pedra. Ter sonhos no chão — Alvin L.


capaq.jpgPô! Neste instante eu dormi como uma pedra. Mas, tem gente que pensa que dormir é perda de tempo e tempo é dinheiro. Se não precisasses dormir, como ocuparias o teu tempo? Nesse pós-modernismo ignoramos até o nosso próprio corpo em pró de qualquer produção. Ficar momentos ociosos é sinônimo de vagabundagem. Isso me fez lembrar certos artistas (sejam literários, plásticos, poetas, músicos...), dos mais subversivos, que dizem que o ocioso se tornou sinônimo de vagabundo, omitindo assim toda a nobreza etimológica da palavra herdada dos gregos. Estar ocioso é estar aberto ao conhecimento. Existe uma diferença entre “não estar fazendo nada” e “estar fazendo nada”. Quando “estou fazendo nada” estou lidando com um absoluto, o Nada (esta palavra divina!). Quando “não estou fazendo nada”, estou fazendo qualquer coisa, sou um ser útil para uma sociedade que privilegia justamente qualquer coisa. Depois de toda essa elucubração anterior cheguei então a uma frase que poderia ser meu epitáfio: “Passei minha Vida fabricando Nada para aprender a Morrer” (Guimarães).

Perdemos a nossa essência, deixamos de sermos homens para tornarmos objetos fabricados em série, moldados por uma educação padronizada, sacudidos pelas notícias da mídia; exploração do homem pelo homem: mercantização da vida humana; e tempo é dinheiro. Quanto mais o mercado aumenta a sua infiltração nas esferas não econômicas da vida humana, mais ele se envolve em questões tipicamentes morais. Desumanização. Coisificaram o ser humano. Só as coisas não dormem, mas não passam de coisas. Isso é o preço do dinheiro. Por isso, eu disse: eu dormi sim e como uma pedra. Ao dizer "o homem dormiu como uma pedra" é conceber que essa pedra também dorme, então não há uma coisificação do homem aí, mas uma humanização da pedra? Será? Pós-modernismo, Pós-modernismo, o que queres tu de mim? Valores invertidos?

Heidegger tentou demonstrar a grande inversão de valores do mundo moderno no que se refere ao conceito de sujeito e objeto, pois o homem passou a ser produto de seu próprio produto... Então é claro que sabemos que ao dizer "dormir como uma pedra" é dormir profundamente, quase inerte, como uma pedra, mas a pedra também é uma coisa... É, realmente, coisificaram o ser humano... Coisificaram o ser humano a ponto de usá-lo no meu discurso sem me dar conta disso. O quanto o tal do “coisificar” está condicionado em nós socialmente sem percebermos, a ponto de expressarmos isso no velho ditado: “dormir como uma pedra”, sem ao menos questionarmos o próprio ditado, que muda o seu sentido ao passar das épocas? Qual significado desse ditado atualmente? As pedras não dormem, pois só as coisas é que não precisam dormir, mas não passam de coisas, e assim vamos dormindo perante a coisificação humana. Pedra é coisa. Homem é o que? Psiu! Silêncio! Não acordem o povo, deixem dormir como uma pedra e não como homens...

— Cao Guimarães, em Correspondências com Marilá Dardot - com adaptações


Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS..
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