marcelo vinicius

Literatura e outras expressões artísticas relacionadas, como cinema e música

Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS.

O mundo vê florescer uma geração de autores de fato marcantes?

"Como no século 21 criar algo de novo, se o século 20 tudo inventou? Ou ainda: como fazer algo distinto da modernidade sem romper com ela? Se rompo com a modernidade, permaneço moderno ou modernista, pois a sua grande linhagem, desde pelo menos os românticos se fundou em gestos de ruptura [...] como criar sem romper nem se alinhar? A única solução talvez seja simplesmente diferir" (Evando Nascimento).


jm_coetzee1.jpgO desejo de muitos autores de escrever um livro pensando na hipótese de se tornar um filme, isto é, procurando já ser um roteiro, antes de ser um bom livro, é um sintoma da sociedade atual.

Na contramão desta tendência, há uma “literatura exigente” que é herdeira das vanguardas, recusa linearidade narrativa e se mistura com ficção, diário, ensaio, crônica e poesia, desafiando demarcações de gênero. A Folha publicou no Ilustríssima um ensaio de Leyla Perrone-Moisés (crítica de arte, professora emérita da USP, ex-professora na Sorbonne e na Maison des Sciences de l'Homme de Paris), sobre essa geração de escritores.

Em “A literatura exigente – Os livros que não dão moleza ao leitor”, a crítica de arte e professora emérita da USP, destaca uma corrente da prosa brasileira atual, responsável por obras de gênero “inclassificável”. Entre os autores, estão Nuno Ramos, Evando Nascimento, André Queiroz e Carlos de Brito e Mello.

Segundo Leyla Perrone-Moisés, “A literatura exigente” seria um registro pós “literatura de entretenimento”, reivindicada pelo poeta-crítico José de Paulo Paes, e destaca as contribuições desses “escritores exigentes” para o enriquecimento da literatura brasileira.

São livros que não dão moleza ao leitor; exigem leitura atenta, releitura, reflexão e uma bagagem razoável de cultura, alta e pop, para partilhar as referências explícitas e implícitas. A linhagem literária reivindicada por esses autores é constituída dos mais complexos escritores da alta modernidade: Joyce, Kafka, Dostoiévski, Beckett, Blanchot, Borges, Thomas Bernhard, Clarice Lispector, Pessoa...

Mas isso não é só uma realidade brasileira. Nasceu na África do Sul, em 1940, um dos mais respeitados escritores sul-africanos contemporâneos, autor de ficção, ensaios de crítica literária e memórias, publicou mais de uma dezena de livros, entre os quais “Cenas de uma vida”, “No coração do país” e “Terras de sombras”. Em 2003, recebeu o Prêmio Nobel de literatura. Também ganhou duas vezes com o Booker Prize, o mais importante da Grã-Bretanha e um dos principais da cena literária internacional. De quem eu estou comentando? Do escritor John Maxwell Coetzee ou J. M. Coetzee.

J. M. Coetzee demonstra ter as principais características citadas pela crítica literária Leyla Perrone-Moisés, ao conceituar sobre “A literatura exigente”. Isso, por exemplo, pode ser percebido na obra de Coetzee “Diário de um ano ruim”, que foi publicada em 2007. Ao lê-la você se pergunta: afinal, a que gênero pertence esta obra? É um romance ou um livro de ensaios? E, mais importante, ou pelo menos mais urgente: como ler esse livro, com sua estrutura tão fora do comum? Lucia Bettencourt argumenta no jornal literário “Rascunho”, ligado ao jornal “Gazeta do Povo”, que não existe em “Diário de um ano ruim” nenhuma proposta ou sugestão de leitura oferecida pelo autor. Os leitores recebem o inusitado livro e se vêem obrigados a desenvolver suas próprias estratégias de leitura.

Para não ter a necessidade de fazer uma resenha sobre esse livro, já que Bettencourt a fez muito bem, e para não fugir do nosso foco, que é nos questionarmos sobre a nova forma de fazer literatura que parece se acender não só no Brasil, como também no mundo, consideremos essa pequena descrição sobre a obra do autor Coetzee e as suas características que envolvem a “Literatura exigente”:

O livro começa com a indicação: Opiniões fortes, datadas de 12 de setembro de 2005 a 31 de maio de 2006. Essa primeira parte, por sua vez, compõe-se de 31 opiniões que versam desde reflexões sobre a origem do Estado até a questão do pós-vida. Pode-se pensar que se trata, aqui, de um comentário sobre questões filosóficas que dizem respeito ao nosso “mal-estar da modernidade”. Segue-se a esses pensamentos um “segundo diário”, sem data, que começará com “um sonho” e terminará com as emoções suscitadas pela leitura de um trecho de Dostoiévski — o famoso episódio em que Ivan resolve devolver ao criador seu ingresso para o mundo.

Essa técnica complexa na obra se apresenta para descrever uma história onde, por encomenda de seu editor, um renomado escritor sul-africano radicado em Sydney, Austrália, escreve um livro com suas opiniões a respeito dos temas mais quentes dos nossos dias: conflitos étnicos, terrorismo, economia globalizada, desastres ecológicos, experiências genéticas. Como já não é capaz de digitar seus próprios textos, o velho escritor contrata uma vizinha de apartamento, a jovem e sedutora filipina Anya, para transcrever as fitas onde grava suas polêmicas reflexões.

“Diário de um ano ruim” entrelaça esse "livro dentro do livro" com os relatos íntimos, em primeira pessoa, de Anya e do próprio escritor. O pessoal e o universal se iluminam reciprocamente, colocando em evidência a dificuldade de comunicação entre a tradicional cultura humanista do velho autor e a energia quase amoral da jovem digitadora.

Leyla Perrone-Moisés questiona sobre esse tipo de escrita: para quem escrevem esses escritores exigentes? E ela mesma responde: certamente para um número restrito de leitores, tão inteligentes e refinados quanto eles, leitores que só podem aparecer numa parcela educada da população. Eles sabem que não entrarão nas listas dos mais vendidos, como aqueles que satisfazem os anseios de entretenimento dos leitores de romances, esses mesmos tão poucos num país iletrado como o nosso.

Mas sabem que encontrarão aqueles poucos que lhes interessam, que merecerão alguma resenha (o espaço jornalístico é pouco), algum artigo em revista especializada e até mesmo algum prêmio, já que os júris dos prêmios são compostos por leitores qualificados.

Qual o futuro desse tipo de literatura? Acredito que, aos poucos, encontrará mais leitores que a apreciem, porque leitura é questão de treino. Os leitores que hoje ainda gostam de romances que contam histórias com peripécias e surpresas, vividas por personagens "de carne e osso", foram treinados há muito tempo por escritores que, em sua época, inovavam no modo de narrar: Cervantes, Sterne, Diderot, Edgar Poe, Dickens, Balzac e outros. As convenções por eles introduzidas foram aos poucos naturalizadas. Sabemos também que muitos escritores não populares de uma época, como Kafka, foram os que marcaram a literatura de seu tempo.

Assim, mesmo estando numa fase agitada e que dizem não haver um perfil marcante que possibilite dizer em que direção está indo a nossa literatura, ao percebermos Dostoiévski influenciando Coetzee, a escrita deste que não é passiva de classificação, já que envolve um misto de ficção, diário, ensaio, crônica etc. e que não dá moleza ao leitor; ao percebemos também escritores nacionais, citados por Leyla Perrone-Moisés, seguindo essa mesma linha de escrita, poderemos nos perguntar se já é possível ver florescer uma geração de autores de fato marcantes? Aqueles que poderão caracterizar uma geração, assim como foi Clarice Lispector e Guimarães Rosa nos anos 60, os quais se tornaram referências?

Herdeira das vanguardas do século 20, com a prosa marcada pelo ensaísmo, pelas artes plásticas e pela recusa da linearidade narrativa, já pode dizer então que após ter consolidado uma literatura vendável, de entretenimento, o Brasil (e o mundo) vê florescer uma geração de autores que praticam uma "literatura exigente", "de proposta" e que são os possíveis que descreveram a nossa geração literária no futuro?

Sem querer comparar o presente com o passado, o que você pensa a respeito disso tudo? Quais seriam as suas respostas para as perguntas feitas aqui?

Segundo Leyla Perrone-Moisés, “A literatura exigente” seria um registro pós “literatura de entretenimento” e destaca as contribuições desses “escritores exigentes” para o enriquecimento da literatura.


Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS..
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