marcelo vinicius

Literatura e outras expressões artísticas relacionadas, como cinema e música

Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS.

O filme "Asas do Desejo" e a contradição de ser anjo

Um dos filmes que mais adorei e ao mesmo tempo foi nostálgico, "Asas do Desejo" é um filme contemplativo, que observa e comenta sobre a vida, a passagem do tempo, a consciência a respeito de si e a descoberta da própria identidade. Em vários momentos, Wim Wenders faz as perguntas que motivam a reflexão provocada pelo filme: “por que eu sou eu e não você? Por que estou aqui e não ali? Onde termina o tempo e onde começa o espaço?”. O filme trabalha com uma linguagem puramente metafísica e tem uma face espiritual evidente, embora trate fundamentalmente da experiência urbana social e existencial (e, portanto, humana). Quem se envolve na sua poesia, jamais irá esquecê-lo.


vlcsnap2010062211h41m02.pngO filme “Asas do Desejo”, do alemão Wim Wenders, foi premiado em Cannes, e considerado pela crítica internacional um dos melhores da década de 80. Também não é para menos, o filme se assume como poesia, antes de qualquer coisa, e como se sabe, nada é menos parafraseável do que o conteúdo de um poema. Investindo fundamentalmente na liricidade, o filme cria a sua força e beleza da fragmentação de imagens e falas que redundam e confluem para instaurar uma atmosfera encantadora de mistério absoluto.

Toda a trama se passa na Berlim Ocidental antes da queda do muro de Berlim, onde nos são apresentadas duas visões sobre o mesmo tema: a dos anjos (em preto e branco) e a dos seres humanos (colorida). É uma época dividida não apenas pelo muro literal, mas também por ideologias, pela guerra fria, saudade, dor, economia, política e insegurança. Um cenário de devastação, marcado por pessoas solitárias e oprimidas, será a base para entendermos a função dos anjos Damiel e Cassiel na história, que passam o tempo todo consolando essas pessoas o máximo possível, talvez nem sempre com sucesso.

No filme, os anjos, analistas, têm apenas essas atividades: além de ouvir os homens e, sobretudo, em seu silêncio, eles observam os acontecimentos e intervêm em algumas ocasiões.

Assim, “Asas do Desejo” é um filme contemplativo, que observa e comenta sobre a vida, a passagem do tempo, a consciência a respeito de si e a descoberta da própria identidade. Em vários momentos, o diretor Wim Wenders faz as perguntas que motivam a reflexão provocada pelo filme: “por que eu sou eu e não você? Por que estou aqui e não ali? Onde termina o tempo e onde começa o espaço?”. O longa-metragem trabalha com uma linguagem puramente metafísica e tem uma face espiritual evidente, embora trate de uma questão existencialista. É um filme carregado de poesia, encanto, dor e angústia. i021490.jpgO que podemos perceber de imediato é uma curiosa inversão no filme: não são somente os homens os infelizes, como seria de se esperar, mas também os anjos. Estes possuem uma permanência tediosa sobre a face da Terra, um mundo em preto e branco, um eterno flutuar por sobre coisas e homens, uma desencarnação assexuada, uma ahistoricidade e tudo isso está muito mais próximo do sofrimento da loucura do que da disponibilidade dos terapeutas. Pois há na loucura um sofrimento que é da ordem da desencarnação, da atemporalidade, de uma eternidade vazia, de uma ahistoricidade, de uma existência sem concretude (ou com um excesso de concretude), sem começo nem fim, com aquela dor terrível de não ter dor, a dor maior de ter expurgado o devir e estar condenado a testemunhar com inveja silenciosa a encarnação alheia.

Por isso o anjo Damiel resolve se encarnar para viver um amor como humano, com uma moça trapezista. Prefere a finitude colorida a eternidade sem cor.

Mas na sociedade racionalista em que vivemos nós não acreditamos mais em anjos. Os anjos não existem. Se existem, são infelizes. Se são infelizes, mereceriam ser salvos. Em linguagem moderna diríamos: se sofrem, merecem ser curados. O que significa: merecem ser reconduzidos à condição de mortais, para aí sim poderem constituir um devir-anjo.

A filosofia, o amor, a literatura, o cinema, tudo isso oferece asas para um devir-anjo. Mas há uma condição: é preciso ser um mortal. Apenas os mortais têm acesso ao devir-anjo. Os anjos mesmo estão condenados ao tédio eterno, a menos que eles encarnem.

Dessa forma, metaforicamente, o filme nos diz sobre o anjo sendo o louco do nosso mundo que seria um modo de resistir e existir diante do que se apresenta como camisa-de-força que expurga o devir-anjo? Em sua busca pela imanência, os loucos convocam um olhar sobre a vida, sobre as políticas de subjetividade domesticadoras, normalizantes, assépticas, tediosas e entediantes como a vida dos anjos em “Asas do Desejo”.

O filme começa e termina com o anjo Damiel escrevendo, em sua caderneta de anotações, a experiência de sua encarnação. É como se, para registrar seu devir-humano, as palavras não lhe bastassem: por isso, entre o começo e o fim do texto há o filme.

Apesar do “Asas do Desejo” apresentar uma pequena falha que é soar como um tratado filosófico em certas falas dos personagens, perdendo a naturalidade das cenas, o filme passa a impressão de que só o cinema é capaz de funcionar como atalho que encurta a distância entre homem e anjo. Magia do cinema: encarnar esse espírito que, como diz Damiel, está cansado de viver sem a carne. Espírito cansado de ficar fora do mundo.

Para finalizar, a inversão do filme que foi dita aqui, demonstra que os anjos não são necessariamente os salvadores, como ocorrem em outros filmes. Aqui eles são tão necessitados quanto os homens. Assim, os anjos desencarnados do desejo passam para outra espécie de mundo (o mundo humano), onde as asas dos anjos encarnados nos homens tornam-se asas do desejo, animadas pelos efeitos da exposição à carne.

Agora, homens-quase-anjos ou anjos-quase-homens que somos, descobrimos o invisível devir dos corpos em seus cruzamentos, o invisível voo dos afetos buscando o beijo, os invisíveis movimentos de expansão e retração da vida.

O corpo humano desejante é um interminável bater de asas, um longo voo.

Trailer do filme "Asas do Desejo" - ative a legenda no Youtube, caso não a veja:


Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS..
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