marcelo vinicius

Literatura e outras expressões artísticas relacionadas, como cinema e música

Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS.

Resenha sobre o filme 'Foucault por ele mesmo'

Este documentário, se é que pode ser chamado assim, é uma apresentação sobre a vida e o trabalho de Michel Foucault, pensador francês de grande influência até hoje. Uma definição interessante de seu trabalho foi dada por ele mesmo ao dizer que realiza uma “história das problematizações, de como as coisas e acontecimentos produzem problemas”.


ok1.jpgO que se pôde perceber no documentário de Michel Foucault, "Michel Foucault Por Ele Mesmo", é que ele rompeu brutalmente com os conceitos ou teorias sobre o saber, como o poder e a identidade, já que são as concepções clássicas destes que foram revistas na literatura foucaultiana a todo tempo. O poder e a identidade são à base da sua filosofia, a qual se nota que se bebe de fontes como Nietzsche, Kant, Freud, Descartes e entre outros, porém se enganam quem refletem que Foucault os tinha como os seus “mestres”, pois todos esses pensadores citados, os quais ele absorveu, são “regurgitados” posteriormente em formas de críticas. Para exemplificarmos, ele reconheceu o papel interessante da Psicanálise freudiana, quando esta procura esclarecer que o “louco” tem a sua linguagem própria, contudo, ao mesmo tempo, Foucault criticou à própria Psicanálise (que outrora tinha elogiado) quando a mesma resolve levar o “louco” para as áreas médicas ou para clínica.

Já que no exemplo acima foi citado à loucura e para esclarecer essa visão ora a favor e ora contra a Psicanálise, a Psicologia em geral ou a Psiquiatria no pensamento de Foucault, o documentário procurou comentar sobre a insanidade foucaultiano, que é um dos temas abordados no filme junto com o poder e a identidade.

Antes é bom salientar que muito das características que serão descritas aqui sobre a Psiquiatria e a loucura já foram modificadas. Michel Foucault foi essencial para reescrever a história da loucura, da psiquiatria e as formas da sociedade moderna lidar não só com a loucura, mas com todos os tipos de divergência, desvio e diferença cultural e social. Foucault foi também um representante significativo no debate da Reforma Psiquiátrica.

Para Foucault não existe loucura como é vista principalmente desde o surgimento da Psiquiatria e Psicologia, para ele a “loucura” não é nada mais que uma razão própria e que ninguém entende. É uma linguagem particular e que finda em si mesma. Para exemplificarmos, é a mesma coisa de que um estrangeiro que visita o Brasil e não entende o idioma português; obviamente que tanto o estrangeiro quanto os brasileiros, estes não conhecendo o tal idioma que não seja o português, não irão se entender. Mas esse estrangeiro será tachado de louco, só porque o seu idioma não é compreendido no Brasil? É claro que não, pois o seu idioma, apesar de não ser entendível no Brasil, não quer dizer que não tenha uma linguagem, não tenha sintaxe ou não tenha estruturas e razões. Contudo, mesmo assim, por não entenderem o louco, o tacharam de um sujeito sem razão, deste modo, impondo uma razão ao louco. Seria lógico também impor o idioma português ao estrangeiro com intuito de trazê-lo a “normalidade?” Acredito que não, mas foi isso o que fizeram com os “loucos”.

O louco simplesmente não é entendível, assim como o idioma de tal estrangeiro não entendível no Brasil, segundo nosso exemplo. Então não se pode haver uma acusação de que o louco não tem as suas razões ou não tem linguagem . O que se pode dizer, no máximo, é que o louco tem a sua elocução própria e impor a nossa linguagem nele é um ato errôneo e que, mesmo assim, por sua vez, fez surgir a Psicologia e a Psiquiatria. Estas surgiram de um fato: a imposição de uma verdade ao louco, isso só porque não o entende. É aí que está à falha da ciência, visto que ela tenta trazer o louco para “normalidade”, mas o que é ser normal? Nem a própria ciência tem uma resposta exata e definitiva para isso. O que é ser realmente sã, para que a insanidade tenha paramentos? Isso é um erro, a subjetividade é muito mais complexa do que a própria ciência imagina.

Antes a loucura teve a existência relacionada com os deuses e outros significados mais. As significações da loucura mudaram ao longo da história. Na visão de Homero, os homens não passariam de bonecos à mercê dos deuses. Para Sócrates, este fato geraria alguns tipos de loucuras, como: “a profética”, em que os deuses se comunicariam com os homens possuindo o corpo de um deles, o oráculo. “A ritual”, em que o louco se via conduzido ao êxtase através de danças e rituais, ao fim dos quais seria possuído por uma força exterior.

Já Philippe Pinel alterou significativamente a noção de loucura ao anexá-la à razão. Ao separar o louco do criminoso, afastou o aspecto de julgamento moral que constituía até então o principal parâmetro da definição da loucura. Hegel também teve a sua participação no conceito sobre a loucura ao afirmar que a loucura não seria a perda abstrata da razão: "A loucura é um simples desarranjo, uma simples contradição no interior da razão, que continua presente". A loucura de cada um seria possuidora de uma lógica própria. Hegel tornou possível pensar a loucura como pertinente e necessária à dimensão humana, e afirmou que só seria humano quem tivesse a virtualidade da loucura, pois a razão humana só se realizaria através dela.

foucault08.jpgMas, segundo Foucault, foi então com a razão contemporânea que a loucura passou a ser “entendida”. Apesar de serem contraditórias, uma fundamenta a outra. É na razão que a loucura passa a ter um sentido. Foi essa visão que mudou o homem contemporâneo, afastando a razão da loucura. Sendo assim, o homem da contemporaneidade deixou de se “comunicar” com o louco e foi por isso que também a ciência o transformou numa patologia. Como foi dito antes: a Psicologia nasceu de uma imposição, pois ela quer impor a sua verdade a outro.

Para a Psicologia de outrora o louco era desprovido de atributos. Considerando também à Psiquiatria e os seus internamentos com intuito de “recuperar” aquele sujeito tido como louco ou de excluí-lo da sociedade. Salientando que já existia isolamento de loucos antes da Psiquiatria propriamente dita, o louco é libertado das correntes e preso a um novo ordenamento de saber: a loucura se torna doença mental. A Psicologia é tida como a ciência do moralismo, detentora da verdade. Por causa desse acontecimento é que Foucault vai teorizar sobre uma invenção e não sobre uma evolução da sociedade. Nada, de fato, evoluiu. Para finalizar esse contexto, exponho uma frase de Foucault que diz: ‎"A Psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da Psicologia".

Lembrando novamente que esses atributos discutidos no pensamento foucaultiando datam no século XIX ou até anterior a este século. Atualmente a Psicologia e a Psiquiatria têm mudado a sua forma de encarar a loucura (apesar de muitas falhas ainda presentes). Como foi dito, as influências das ideias de Michel Foucault – sua caixa de ferramentas conceituais – na reforma psiquiátrica foram bastante intensas, com o intuito de esclarecer as condições de possibilidade de noções como as de loucura, doença mental e desrazão.

Outro ponto abordado por Foucault, além da loucura, é o poder. Para ele, o poder não pode ser localizado, não pode ser centralizado numa instituição ou Estado. Sendo assim, ele criticava o marxismo por isso, já que não é mais possível uma tomada de poder. O poder não é considerado como algo que o sujeito tem, mas sim uma relação de forças. E por ser uma relação, o poder é onipresente, ou seja, está em todas as partes. O sujeito está emaranhado nesse poder e jamais poderá sair dele, não poderá ser independente do mesmo. Além do mais, o poder está relacionado à produção de uma verdade e de um saber, constituindo verdades e práticas, como é o caso da Medicina, e como é o caso do jurídico, da política e da educação.

Um exemplo disso pode ser a própria educação, ela na sua modalidade escolarizada passou a ser considerada maquinaria destinada a disciplinar corpos em ação. Numa educação padronizada só querem criar homens dóceis como peças úteis para o sistema social vigente, pois não respeitam a singularidade do indivíduo.

A escola disciplinar não distingue o ser humano, praticando a moralização em que seu objetivo é a produção do sujeito sujeitado ou produções de subjetivadas ou criações de corpos. A partir do século XVII a escola constituiu-se como a mais eficiente maquinaria encarregada de fabricar as subjetividades humanas. Como disse o escritor Ernesto Sabato, "coisificaram" o ser humano e o fabricaram em série.

Assim, as disciplinas escolares (assim como o saber científico) são formas da representação de uma tentativa de por ordem, no que tange os saberes escolares, estando envolvidas com os mecanismos de poder. Esta representação foi instituída pelos governos (sob a forma de leis educacionais), como um saber necessário para assegurar um estereótipo de cidadão ideal, mas ideal para quem?

foucault.jpgMais uma questão abordada por Foucault é a identidade. A identidade já foi questionada por Kant, mas Foucault a remete com um olhar específico. A identidade se constitui na esfera pública, quando não, num condicionamento psicológico, que mesmo num campo privado, o sujeito procura uma identidade para ser reconhecido, mas é na sociedade que procuramos conquistar a identidade, é no espaço público que se revela “quem somos”; pelo menos idealizam isso e vamos à busca dessa ilusão. Então, é com a identidade que o sujeito pode ou não fazer parte de um determinado segmento. Enfim, resumidamente, o que é identidade? Para que serve? A identidade nada mais é que um produto do poder, uma utopia que as pessoas precisam conquistar, o lema “ser gente na vida”, e serve para “controlar” as mesmas. Fora dessa identidade, as pessoas são consideradas marginais ou desinteressantes por não levar o crachá de Doutor ou coisa similar.

Enfim, Foucault trabalha a questão do conceito, da crítica da racionalidade, e da tentativa de compreender o saber. Nisso, está muito próximo da epistemologia, pois sabemos que a epistemologia é um trabalho muito restrito que investiga a ciência em sua atualidade. Foucault tinha, contudo, interesses muito além da ciência, quais sejam as ciências humanas.

É importante salientar que Foucault não condenava a ciência, o Direito, a educação em si, até porque não é a cientificidade que é a questão primeira da medicina: há questões políticas e ideológicas por trás. O Direito e as formas jurídicas também não são apenas uma questão de ciência, mas uma trama política. Foucault se ocupava muito mais disso, que compõe a famosa relação de poder.

E a transformação do poder é atingir, cada vez mais, a alma, e não o corpo. Isso está no começo de “Vigiar e punir” de Foucault, quando o suplício deixa de ser um espetáculo público de castigo e é introjetado na subjetividade do condenado; assim a educação introjeta algo moral absoluto na subjetividade humana, desde criança, a psiquiatria rotula a subjetividade humana dizendo o que é ou não normal, a psicologia procura colocar o sujeito no mundo tido como normal, ou seja: fazê-lo funcionar e ser útil para o sistema social novamente. Enquanto era o sistema que deveria mudar, aceitando a singularidade de cada um, é o sujeito que muda e é obrigado a seguir um padrão social.

Daí também o surgimento de muitas questões emocionais, como angústia, depressão e estresse, e isso mostra o quanto a sociedade do consumo, da ciência e da moral, com o intuito de dominar o homem, padronizou a subjetividade humana, lhe ensinando como ser feliz, ao invés do próprio sujeito aprender a lidar com a sua singularidade e ser feliz ao seu modo.


Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 5/s/cinema// @destaque, @obvious //Marcelo Vinicius