marcelo vinicius

Literatura e outras expressões artísticas relacionadas, como cinema e música

Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS.

O que é arte?

Arte geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada a partir da percepção, das emoções e das ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias da consciência e dando um significado único e diferente para cada obra. Mas, até aonde isso pode ou não ser um problema?


skrik680_0.jpg "O Grito", de Edvard Munch, é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da "Mona Lisa" de Leonardo da Vinci.

Definir a Arte é uma das questões mais complicadas para a Filosofia. Uma definição absoluta ou de caráter universal da Arte é o que os pensadores da Estética e da Filosofia da Arte vêm tentando desenvolver, porque isso implica, também, numa possível essência da Arte, a qual foi questionada bastante pelo filósofo Kant.

A falta dessa definição pode inviabilizar o que pode ser Arte ou não e o que pode ser uma boa Arte ou não. Implicará também quais métodos seguir para ser um artista de fato. É a tentativa de formalizar os trabalhos artísticos.

E se já possui como “costume intelectual” um pensamento que, ao passar do tempo, com a experiência de gerações e mais gerações, uma definição sobre um determinado objeto de estudo vai se tornando mais sólido e mais claro, como um axioma à lá cartesiano, no sentido de que seria um instrumento que bem manejado levaria o homem à verdade ou, pelo menos, à aceitação de um conceito universal; parece que na Arte essas coisas se invertem, porque uma teoria realmente aceitável sobre ela sugestiona está cada vez mais longe se comparando no tempo de Platão. A cada momento, a cada movimento artístico, novas teorias são criadas e se distanciam do que se esperava ser a Arte.

Seguindo essa lógica, não é fácil encontrar uma teoria correta da Arte, como se fosse encontrar uma teoria correta da Física, como a Relatividade de Albert Einstein. Não que a Relatividade seja fácil de ser encontrada, mas que ao passar do tempo ela se solidifica, se complementa com novos estudos ou persiste por muito tempo antes de ser derrubada por outra conjectura, o que não acontece normalmente no mundo artístico, pois sempre há insuficiência das teorias neste mundo.

Porém, essa toda dificuldade de definir a arte é devido ao uso de uma lógica predominantemente ocidental. Weitz (1956, p.2) diz que “a arte, tal como a lógica do conceito mostra, não tem nenhum conjunto de propriedades necessárias e suficientes; logo, uma teoria acerca dela é logicamente impossível e não apenas factualmente impossível”. Ou seja, a lógica predominante, a razão ocidental, não pode criticar a arte diretamente, pois a sua linguagem é conceitual e a linguagem artística não é conceitual. A experiência artística é transgressiva com a linguagem conceitual, onde esta linguagem é característica da lógica formal ou da razão dominante ocidental.

Weitz (1956, p.2) diz que “a teoria estética -- toda ela -- está errada em princípio ao pensar que uma teoria correta é possível uma vez que adultera radicalmente a lógica do conceito de arte. É falsa a sua principal contenda de que a 'arte' é susceptível de uma definição real ou de outro tipo de definição verdadeira”.

A arte, tal como a lógica do conceito mostra, não tem nenhum conjunto de propriedades necessárias e suficientes; logo, uma teoria acerca dela é logicamente impossível e não apenas factualmente impossível. Mona_Lisa,_by_Leonardo_da_Vinci,_from_C2RMF_retouched.jpg"Mona Lisa", de Leonardo da Vinci: uma das pinturas mais conhecidas.

Agora examinemos brevemente algumas das mais famosas teorias estéticas existentes, de modo a ver se elas de fato incorporam afirmações corretas e adequadas acerca da natureza da arte.

Segundo Weitz (1956), para começar, considere uma versão famosa da teoria formalista, a qual foi proposta por Bell e Fry. É verdade que eles falam, sobretudo, da pintura nos seus escritos, mas ambos afirmam que aquilo que eles encontram nessa forma de arte pode ser generalizado para aquilo que é "arte" nas outras formas de arte. A essência da pintura, defendem eles, é a relação entre os elementos plásticos. A sua propriedade definidora é a forma significante, isto é, certas combinações entre as linhas, as cores, as formas e os volumes -- tudo aquilo que se encontra na tela excepto os elementos representacionais -- que evocam uma reação peculiar a tais combinações. A pintura é definível como organização plástica. A natureza da arte, aquilo que ela realmente é, afirma esta teoria, é uma combinação única de certos elementos (os elementos plásticos especificados) e das suas relações. Tudo aquilo que é arte é uma instância de forma significante; e tudo aquilo que não é arte não possui tal forma.

Mas as suas dificuldades também são enormes: o problema é conseguir explicar de maneira convincente em que consiste a tal propriedade comum a todas as obras de arte, a tal “forma significante”, responsável pelas emoções estéticas que experimentamos. Clive Bell refere, pensando também no caso da pintura, que a forma significante reside numa certa combinação de linhas e cores. Mas que combinação é essa e que cores são essas exatamente? E em que consiste a forma significante na música, na literatura, no teatro etc.? A ideia que fica é que a forma significante não serve para identificar nada.

Já os emocionalistas dizem que a verdadeira propriedade essencial da arte foi deixada de lado. Tolstoy, Ducasse ou qualquer outro dos defensores desta teoria, acham que a propriedade definidora requerida não é a forma significante, dita pelos formalista, mas antes a expressão das emoções num qualquer meio público sensual. Sem a projeção das emoções num qualquer pedaço de pedra ou num qualquer pedaço de madeira ou em certos sons, etc., não pode haver arte.

Mas, podemos mostrar que algumas pessoas não sentem qualquer tipo de emoção perante certas obras que são consideradas arte. Quer dizer que essas obras podem ser arte para uns e não o ser para outros? Nesse caso o critério para diferenciar as obras de arte das outras de que serviria? Teríamos, então, obras de arte que não são obras de arte, o que não faz sentido. Também não é grande ideia responder que quem não sente emoções estéticas em relação a determinadas obras não é uma pessoa sensível, como sugere Bell, o que parece uma inaceitável fuga às dificuldades.

Todas as teorias apresentadas aqui e mais outras que não deram para ser citadas são inadequadas em diferentes aspectos. Todas elas pretendem fornecer uma descrição completa das características definidoras das obras de arte e, contudo, cada uma delas deixa de lado algo que as outras tomavam como central.

Segundo Weitz, existe, além disso, um tipo diferente de dificuldade. Como definições reais este tipo de teorias deviam fornecer informações factuais sobre a arte. E se isto for verdade, podemos perguntar se serão elas teorias empíricas e abertas à verificação ou falsificação. Por exemplo, o que é que confirmaria ou infirmaria a teoria de que a arte é forma significante ou a personificação das emoções ou a síntese criativa de imagens? Parece nem sequer haver a mais pequena sugestão sobre que tipo de dados poderia testar estas teorias; e de fato, perguntamo-nos se elas não serão talvez definições honrosa de "arte", isto é, propostas de redefinição do conceito de arte de modo a aplicá-lo em função de certas condições escolhidas, e não informações verdadeiras ou falsas acerca das propriedades essenciais da arte.

Weitz (1956, p.6) defende também que um conceito de arte é aberto:

Assim, aquilo que estou a defender é que o próprio caráter expansivo e empreendedor da arte, as suas sempre presentes mudanças e novas criações, torna logicamente impossível garantir um qualquer conjunto de propriedades definidoras.

No entanto, Weitz não nega o conceito fechado de arte, é só compararmos a idéia de “tragédia” com “tragédia grega”. A partir do momento que a palavra “tragédia” vem acompanhada do adjetivo “grega”, a “tragédia grega” se torna em um conceito fechado por ter todas as características que a definem como tal. Ser “tragédia grega” é ser “X” forma; ou para ser mais concreto, uma escultura da antiguidade ou pinturas renascentistas devem possuir a proporção áurea ou uma imitação da natureza, por exemplo. Querer conceituar a Arte do Renascimento sem mencionar a inspiração nos antigos gregos e romanos, a concepção de imitar a natureza, além do racional e da matemática na sua criação artística, não é conceituar a Arte do Renascimento. Só a conceitua se envolver essas características, assim temos um conceito fechado. Já se falarmos em Arte de modo geral, nós teremos um conceito aberto, pois não há nada absoluto e definido nesta, ela está sempre em metamorfose.

Assim, quando se fala em conceito fechado, se fala mais em uma arte de maneira especifica e restrita, já quando se fala em conceito aberto, se fala em uma arte de modo geral e que não pode atribuí-la uma verdadeira definição.

Então, o trabalho mais importante do crítico de arte, se ele não se deixar confundir, é o de clarificar completamente o modo como concebe os seus conceitos; caso contrário, ele poderá passar do problema de tentar definir "tragédia", etc., para a tentativa de fechar o conceito com base em certas condições ou características que ele prefere, as quais resume numa recomendação linguística que erradamente julga tratar-se de uma verdadeira definição de um conceito aberto de arte. É claro que podemos escolher fechar o conceito. Mas fazer isso com "arte" ou "tragédia" ou "retrato", etc., é ridículo, uma vez que exclui as próprias condições de criatividade na arte. Untitled-1.jpgGrafite de Rua, em Amsterdam

A arte, tal como a lógica do conceito mostra, não tem nenhum conjunto de propriedades necessárias e suficientes; logo, uma teoria acerca dela é logicamente impossível e não apenas factualmente impossível. A teoria estética tenta definir o que não pode ser definido no sentido requerido.

O que antes era tida como uma aberração, hoje pode ser um clássico das artes.

Sendo assim, a Estética não precisa necessariamente entrar nessa problemática de procurar uma teoria para a Arte, mas esclarecer em que condições se pode empregar corretamente um determinado conceito de Arte. E mesmo assim não há condições absolutas, mas condições semelhantes ou plausíveis, pois nada é o suficiente na Arte.

Outro ponto importante colocado por Weitz (1956, p.8) é que a Arte aceita a contradição:

Nenhum dos critérios de reconhecimento é um critério definidor, nenhum deles é necessário ou suficiente, uma vez que podemos afirmar que algo é uma obra de arte negando ao mesmo tempo qualquer uma dessas condições, podemos mesmo negar aquela que tradicionalmente se tomou como básica, nomeadamente, a condição de ser um artefacto.

Ou seja, repito: a experiência artística é transgressiva com a linguagem ou com a lógica convencional ocidental, a qual não aceita contradição (ou é verdadeiro ou é falso, não se pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo, por exemplo), no entanto digo mais: a Arte é vizinha da loucura; vizinha porque não se deve atribuir a Arte o sentido de um parentesco racional, lógico-ocidental-convencional. A arte propõe uma forma de pensamento que a Filosofia convencional jamais propôs. Além de que, como já sabemos, um dos meios de transgredir a racionalidade moderna, que está totalmente implantada na mentalidade do homem ocidental, é a loucura, pois ela não se encontra enquadrada dentro da racionalidade que a determinou. Assim, ao dizer que a experiência artística é transgressiva, ela também é vizinha da loucura.

Dessa forma, quando algo foge da razão, esta sendo objeto da filosofia e da ciência, o que nos “salva” é a Arte, pois simplesmente a Arte se protege por ter o direito de se libertar das exigências da lógica e da razão e ir além da consciência cotidiana. Não cabe a Ciência definir a Arte. Não cabe a Filosofia definir a Arte, porque o artístico vai por outro viés. dostoievski_capa-thumb-600x400-46147.jpgArte plástica retratando o rosto do escritor russo Dostoiévski, 1927. Xilogravura sobre papel. Lasar Segall

E mesmo que haja a Filosofia, a Psicologia na arte, como vistas em obras literárias como as do escritor Dostoiévski, esses elementos são dados na literatura pela literatura, pela eficácia da linguagem literária e não uma metodologia filosófica em si, no termo mais restrito, já que a filosofia está em tudo. Dostoievsky Ilustrado.jpgA obra "Noites Brancas", do escritor russo Dostoiévsky Ilustrado é uma exposição no Museu Lasar Segall que reúne desenhos, gravuras e livros de diversos pintores que retrataram personagens dos livros do escritor russo. Logo na entrada da exposição, um texto explica a importância e influência do escritor russo na pintura expressionista alemã.

Antes de concluir coloco o pensamento de Weitz (1956, p.10): Compreender o papel da teoria estética não é concebê-la como uma definição, logicamente condenada ao fracasso, mas lê-la como sumários de recomendações feitas com seriedade atender de determinadas maneiras a certas características da arte.

Hoje, se me perguntarem qual Escola ou Movimento artístico que estão mais certos ao definir a Arte, respondo: estão todos certos ou estão todos errados, dependendo do que se trata: de conceito aberto ou conceito fechado. Particularmente, é preciso abandonar o modo como a questão havia sido colocada e, portanto, para mim, uma definição da arte não é necessária, no mais, só recomendações a ela.

Referências:

WEITZ, M. O papel na teoria da Estética. The Journal of Aesthetics and Art Criticism, XV (1956), 27-35.

WEITZ, Morris. O papel da teoria na estética. Tradução de Célia Teixeira. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/estetica.htm Acesso em: 12 jan. 2005.


Marcelo Vinicius

Marcelo Vinicius está sempre aprendendo, mas é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto, apaixonado pelo novo e inconformado com o senso comum. É amante da arte, seja a fotografia, o cinema ou a literatura. Participou do conceituado jornal da região, o Jornal Grande Bahia; fez parte do projeto "Sala de Cinema" e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na qual faz graduação em Psicologia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea na UEFS..
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