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Crônicas de um dia após o outro.

Marcio Sarge

Escritor, produtor, diretor e co-autor da própria vida. Como disse o poeta de mim : "Tenho em mim todos os sonhos do mundo."

André Dahmer: O malvado.

O dono dos famosos Malvados, André Dahmer, nos brinda com sua arte que vai muito além das tirinhas ácidas, inteligentes e critica, seu gênio parece não encontrar medidas nem mesmo em nos constranger com tantas verdades.


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É interessante como a genialidade pode ficar, às vezes, escondida pelo véu do anonimato, sem despertar suspeitas por longo tempo. Mas é inútil tentar esconde-la. Inquieta, ela se mexe, dá sinais, que aos menos doutos passa despercebido, mas que aos mais atentos incomoda. Quando menos se espera (a genialidade nunca é esperada, temos sempre expectativas menores em relação ao outro) ela desponta é já é um iceberg que teima em aparecer cada vez mais e mais. Me parece essa a sina de André Dhamer.

"E um dia, quando esse cara me mandou fazer de novo, chutei o cavalete e mandei tomar no cu, o filho da puta, reacionário. E fui embora. Ainda bem que fui embora, porque senão acho que não teria feito quadrinhos". -André Dahmer

Carioca (Rio de janeiro, Brasil) sua trajetória teve inicio na infância quando remediava sua peraltice com desenhos, encontrou abrigo até os dezesseis anos na Escola de Artes Maria Teresa Vieira que fica ali próximo a sua casa. Mais tarde frequentou o curso de desenho industrial da PUC-RJ e ali notou o que muitos profissionais do ensino teimam em não ver, que as escolas não ensinam a pensar, mas a ser uma peça numa indústria qualquer, dinheiro é importante pensar não. Assim percebeu como ele mesmo disse, que do jeito que a carruagem andava "ia passar a vida desenhando embalagem de sabonete". O curso pareceu uma tremenda falta de tempo não fosse um professor que destoava do resto, tal de Urian. Segundo Dahmer esse cara o ensinou que era preciso acabar com o culto do faixa preta, que era preciso abandonar o mestre e que professor de pintura é tudo picareta porque a pintura, tal qual o desenho, é que nem uma digital, a sua assinatura. Ta aí um professor que ensinava a pensar.

“Quem não quiser assistir, ganha 10. Me dá o nome e pode sair”- professor Urian

Foi com os "malvados", tirinha onde duas flores (?) destilavam sarcasmo, maldade, cinismo, autodepreciação e humor negro numa clara representação do mundo real que sua genialidade foi notada. Fazia ai critica de uma forma muito inteligente e bem humorada e rir sempre foi a melhor forma de apontar o seu e o meu problema. Eles ficavam num dos porões da internet chamado blog e dali correram para a luz. Surgiram pela necessidade de escrever e unir desenho e escrita que ajudava a pensar. Isso foi nos ano da 2001 e ja não existem mais, mas ainda fazem um eco danado. Seus fãs não o perdoam, acusando Dahmer de abandono, mas sobre isso ele diz: “Eles dizem: ‘Ah você abandonou a gente...’, mas não tem importância nenhuma, porque saudade também é bom, faz coisas boas. Eu precisava de mais coisa, não fiz de sacanagem. Também corri riscos, porque tem que correr, abandonar certas coisas. Se tiver que largar amanhã os quadrinhos para fazer o que descobri que gosto de fazer de verdade, não tem problema nenhum pra mim”

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tirinha784.gif Podemos sentir falta dos malvados mas não de sua arte. Prolifero, André deixa sua marca inteligente em outros personagens como Emir Saad mandatário sádico do fictício Ziniguistão e Ulisses o apaixonado preso em um mar congelado com 10000 garrafas de vinho entre outros. Também aparece por outros meios como um livro de poesia com capa pintada a mão (Amor como audácia), pinturas, gravuras e fotografias e em tudo se nota o gênio de André Dahmer, sempre disposto a disparar contra o senso comum e a apatia de um mundo onde o comum é não pensar. Para aqueles que ficaram curiosos com o trabalho plural de malvado André Dahmer pode encontra-lo nessas publicações: A cabeça é a ilha, lançado pela Desiderata em 2009, assim como seus outros dois livros, O livro negro de André Dahmer (2007) e Malvados (2008), Rei Amir Saad, o monstro de Zazanov (2011) Na internet aqui, aqui e aqui.

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"Então, na verdade, não é ganhar dinheiro, isso é mole. É como você ganha dinheiro. Você quer abrir um puteiro? Eu não quero. É uma distância enorme entender isso. Esses garotos que estão saindo da faculdade são reféns: “Ah, você não vai sobreviver, vai fracassar, não vai ter emprego”. Isso é uma mentira, um pensamento hegemônico, uma ameaça que a gente está mais distante que imagina, principalmente quem chegou à universidade. Se bem que hoje em dia não mais, porque tem tanta faculdade ruim. Você é capaz de construir sua casa, plantar para comer, de criar animais. Isso é um fetiche, a questão da grana. Você vê gente com muita grana, que continua acordando e trabalhando é um fetiche, você nem tem mais como gastar. Se você morrer, teu neto ainda vai ter, e você tendo dor de cabeça com dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais dor de cabeça. Quem cuida do meu trabalho todinho é minha mulher, ela nunca chegou e falou: “Falta dinheiro”. Ela controla tudo, passa as notas, faz tudo. Mas o dia que faltar, tenho saúde, tenho cabeça, não quero perder a saúde, porque o dia que faltar, quero trabalhar em outra coisa." - André Dahmer


Marcio Sarge

Escritor, produtor, diretor e co-autor da própria vida. Como disse o poeta de mim : "Tenho em mim todos os sonhos do mundo.".
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