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Márwio Câmara

Escritor, jornalista e um apaixonado pelas artes. Escreve porque sua voz está na escrita.

A dicotomia poeticamente sombria de Maurício de Almeida

O premiado Beijando dentes inaugura a prosa do jovem escritor Maurício de Almeida experimentando novas formas narrativas


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De primeira, facilmente, o leitor pode vir a sentir um leve desconforto ao se deparar com o conto que abre o primeiro, e já premiado, livro do escritor paulista Maurício de Almeida, intitulado Beijando Dentes, finalista do Prêmio Sesc de Literatura, de 2007. Este incômodo intencional não é diminuído pós a tensão destilada à atmosfera anêmica inserida no primeiro conto. Todo o conjunto, constituído por treze pequenas narrativas assinadas por Maurício de Almeida, é fruto de um perspicaz domínio narrativo segmentado por uma cadência experimental em trabalhar novas formas de significação através da linguagem. O autor tenta buscar neste trabalho sua própria voz narrativa experimentando diferentes estilos e formatos textuais, quebrando as estruturas clássicas do gênero, personificado nas vozes de suas personagens, que a todo tempo revelam conflitos, angústias, lamentos e insanidades, que mesclam com a unidade poética e surrealista do livro. A grande força de Beijando Dentes, talvez, não esteja exatamente no ilustrativo de suas histórias, mas pela forma de como as vozes narrativas são ditas e, sobretudo, exploradas. Ou seja, a (re) formatação dicotômica do discurso pluralizado entre o nivelamento do poético ao prosaico, do bizarro ao sombrio. O exótico título, na verdade, agrega como signo alusivo à conjuntura das treze histórias, de modo que define a estranha nomenclatura do livro. Em Beijando dentes, Maurício de Almeida desempenhou uma prosa que poderia ter dado tudo errado, se o jovem autor não tivesse domínio e talento suficiente para escrever um livro singular e libertário, onde tudo parece estar fora do lugar, como numa oficina de corpos desmembrados e palavras soltas. Sua qualidade está justamente em ser um dos poucos da safra contemporânea que faz justo o papel sumo da Literatura — a de causar vertiginosos desconfortos.


Márwio Câmara

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