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Escrevo, logo existo!

Márwio Câmara

Escritor, jornalista e um apaixonado pelas artes. Escreve porque sua voz está na escrita.

A ironia controversa em Anti-Nelson Rodrigues

Sexualidade nivelada e drama exacerbado encerra mostra que homenageou Nelson Rodrigues no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana


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Tudo parecia lastimável, após uma longa viagem, da zona oeste à zona sul do Rio de Janeiro, e, infelizmente, chegar com meia hora de atraso ao Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, e não conseguir pegar a senha para conferir a peça que tanto eu esperava assistir: Vestido de noiva, obra-prima que inaugura o chamado teatro moderno brasileiro, assinado pelo nosso grande Nelson Rodrigues, que naquela semana, foi o homenageado da mostra realizada pelo projeto Novas cenas, que entre os dias 3 e 7 de abril, reuniu doze companhias de teatro amadoras dos munícipios do Estado do Rio, para encenar a obra do dramaturgo no palco, com entrada franca.

Frustrado com o episódio, o que me restava era assistir a última peça que ainda estava por vir, marcado para às vinte horas, e que encerraria a mostra, já que aquele primeiro domingo de abril era o último do homenageado, no Teatro Gláucio Gil. A peça chamava-se Anti-Nelson Rodrigues, título um tanto quanto curioso, e que me deixou a mercê de dúvidas, já que diferente de outros títulos como o mesmo já citado, Vestido de Noiva, A serpente, Valsa Nº 6, Bonitinha mais ordinária, Álbum de família e Boca de ouro, não era de meu conhecimento. Na fila, a única informação que me foi passada por duas senhoras que, assim como eu, esperavam pela distribuição das senhas, era de que seria avesso ao universo rodriguidiano de ser. É, fazia todo sentido, afinal, intitulava-se: Anti-Nelson Rodrigues. Mas confesso que, por um momento, se minha decepção por não ter assistido uma das mais importantes obras do dramaturgo era enfadonha, saber que a última que me restava assistir era avessa a tudo que se espera em matéria de Nelson Rodrigues, me foi menos estimulante ainda. E por uma fração de segundo bem que pensei em desistir. Mas por se tratar de Nelson resolvi seguir à risca e, felizmente, do contrário previsto, talvez tenha sido um dos melhores momentos da mostra no palco.

Em primeiro lugar, não há nada de Anti-Nelson Rodrigues na peça que se titula com o mesmo nome. Do contrário, o universo rodriguidiano continua ali presente e é facilmente identificado, com os seus personagens típicos e estereotipados, ancorados pelo clima de pré-tragédia e erotismo familiar. Porém, realmente, há menos apelo sexual, embora ele permeie em doses comedidas, sem perder o humor sarcástico e irreverente de seus textos.

Escrita em 1973, após inúmeros pedidos da atriz Neila Tavares, durante um longo período de negação do autor em escrever para os palcos, em virtude do hostil tratamento dado pelo público e pela imprensa às suas últimas peças, o mesmo atendeu aos pedidos da atriz, e Anti-Nelson Rodrigues estreou no ano seguinte, em 1974, com sexualidade nivelada e clima de drama exacerbado, que gira em torno de uma família, cuja mãe é obcecada pelo seu filho, Oswaldinho, um projeto de mulherengo e vagabundo que não tem um bom relacionamento com o pai, que por sua vez é alvo das armações do filho que envia correspondências anônimas dando a atender que a esposa mantém um caso extraconjungal. A mãe do rapaz, dona Joana, compactua ocultamente com as armações do filho contra o pai. E a relação entre ambos exibe um quê em estranheza, principalmente relacionado à mãe, que, por vezes, dá a entender que nutre uma certa paixão de natureza incestuosa para com o filho, embora não seja confirmada na peça.

Entre uma das conversas que a mãe tem com o marido a respeito do Oswaldinho, ela consegue convence-lo a deixar o filho dirigir uma de suas indústrias. E é na direção da empresa que o rapaz conhece Joice, uma bela jovem recém-contratada, aparentemente pudica, que vive no bairro de Quintino, zona norte do Rio, junto de seu pai, um viúvo aposentado do tipo moralista. Oswaldinho tenta seduzi-la oferecendo-lhe bom cargo e salário, porém sem sucesso. E as dificuldades para conseguir a moça, que mostra não se vender por dinheiro, faz com que aos poucos ele descubra estar apaixonado por ela.

A peça foi encenada pelo elenco do grupo LÁTEX-Laboratório de Artes e Teatro Experimental, de Cachoeiras de Macacu, que fez uma brilhante atuação, que contou ainda com uma homenagem ao dramaturgo, conhecido também por escrever crônicas futebolísticas. O cenário da peça fazia alusão a um campo de futebol, com bandeiras de alguns times cariocas, representados por cada um dos personagens, que se revezavam, mantendo-se no palco, sentados numa espécie de banco de reserva, ao fundo, como o dos jogadores. E quando chegava a vez de cada ator entrar em cena, o mesmo se aquecia como se preparando para ir a campo.

Logo após o término da peça, representantes do projeto Novas Cenas agradeceram ao público por terem comparecido durante os cinco dias da mostra, às companhias amadoras que participaram do evento, ao Teatro Gláucio Gil, por conceder o espaço, e a Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro por apoiar ao projeto, que completou seu terceiro ano consecutivo este ano.

Programação completa da Mostra Nelson Rodrigues de Teatro Amador: QUARTA-FEIRA, 3/04 14h - A Serpente, pelo Grupo Cultural Arte Brasileira (Rio de Janeiro) 17h - A Mulher Sem Pecados, pela Trupe do Descoco (Angra dos Reis) 20h - O Beijo No Asfalto, pela Comunidade Teatral de Irajá.

QUINTA-FEIRA, 4/04 14h - Perdoa-me Por Me Traíres, pela Cia Teatral Casa dos Azulejos (São Pedro da Aldeia) 17h - Valsa nº 6, pela Companhia Círculo Teatral (São João de Meriti) 20h - Dorotéia, pela Interferência Companhia Teatral (Silva Jardim)

SEXTA-FEIRA, 5/04 14h - Viúva, Porém Honesta, pelo Alfabeto em Cena (Nova Friburgo) 17h - Boca de Ouro, pela A Cúpula (Itaboraí) 20h - Álbum de Família, pelo Somu Di Riba (Rio Bonito)

SÁBADO, 6/04 14h - Os Sete Gatinhos, pela Cia. Pigmentus (Rio das Ostras) 17h - A Senhora dos Afogados, pela OPÇÃO Cia. de Artes (Iguaba Grande) 20h - Bonitinha, Mas Ordinária, pela Cia. de Teatro Asa-Delta (Rio de Janeiro)

DOMINGO, 7/04 14h - Toda Nudez Será Castigada, pela Confraria Teatral Nau dos Loucos (Nova Iguaçu) 17h - Vestido de Noiva, pela Cia. Grutta Teatral (Rio de Janeiro) 20h - Anti-Nelson Rodrigues, pelo LATEX - Laboratório de Artes e Teatro Experimental (Cachoeiras de Macacu)


Márwio Câmara

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