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Márwio Câmara

Escritor, jornalista e um apaixonado pelas artes. Escreve porque sua voz está na escrita.

Felicidade Clandestina: uma autobiografia não revelada

Contos de Felicidade Clandestina reúne memórias da infância de Clarice Lispector


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Lançado e capturado por um mundo de elevação estética e contemplativa, o leitor tem uma base forte e contundente do trabalho literário da escritora ucraniana naturalizada brasileira, Clarice Lispector, ante aos doze contos que compõe a antologia Felicidade Clandestina, que traz um apanhado de textos da escritora, entre o final da década de 60 e início da década de 70, onde grande parte deles foi publicada no Jornal do Brasil. A princípio Clarice havia sido convidada para escrever crônicas, embora nem sempre tais produções, destinadas ao jornal, concordassem com as características do gênero. Muitos destes textos cabiam mais a contos do que a crônicas propriamente ditas. E foi a própria escritora que assim disse: “Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gêneros. Gêneros não me interessam”.

Conto ou crônica, pouco importa, e sim a qualidade literária, notoriamente, exibida em suas narrativas que falam sobre a condição humana com sensibilidade e meticulosa observação, usando de eventos aparentemente comuns de nosso cotidiano, um vigor figurado em estranheza de aparente descoberta. Como se a vida humana fosse vista com uma lupa, e assim pudéssemos esmiuçar esses sentimentos, por vezes, incomunicáveis, desconexos e difusos de serem depurados. Costumo dizer que os livros de Clarice são como vagalhões de mudez preciosos de palavras. Seu exercício criativo exala quase num gesto de meditação.

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Felicidade Clandestina um dos mais brilhantes livros de contos de Clarice Lispector, ao lado do notório e premiado Laços de Família, mistura ficção e autobiografia, retratando a infância e maturidade da escritora, as descobertas e redescobertas da vida e do amor — da perversidade infantil, do conto que dá título ao livro, ao descaso à velhice, em O grande passeio, escrito ainda quando a precoce Clarice tinha catorze anos de idade; memórias volvidas de confete e serpentina de um nostálgico carnaval em Recife, em Restos do carnaval; à incógnita indagação sobre quem vem primeiro: o ovo ou a galinha?, um dos grandes marcos do livro; a relação íntima e silenciosa entre uma menina e um cachorro, em Tentação; o que fazer quando se descobre muito menor que o mundo e, por isso, não poder ser mãe de todo ele, diante do medo das coisas e das próprias diferenças criadas pelo Criador? Só mesmo Perdoando Deus, outro grande marco do livro, e um dos meus contos preferidos; um professor e sua inquieta e perspicaz aluna, vivenciando uma relação conflituosa de amor e ódio segregada pela surpresa, em Os desastres de Sofia, talvez um dos momentos mais densos e dificultosos de todo o livro. A epifania está o tempo todo presente em Felicidade clandestina, e é uma das características marcantes em grande parte da obra da autora.

“Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo que levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.”

Clarice Lispector, Felicidade Clandestina Pág. 12.

Felicidade clandestina é um livro sobre o amor e, sobretudo, a vida. Seus contos são, na verdade, experiências que Clarice tece confidenciando com o olhar de menina, adolescente, mulher, mãe, esposa, dona de casa e minuciosa observadora das relações humanas. Uma autobiografia não revelada, onde a mesma se expõe em lembranças do passado e do presente que a cerca, fazendo-nos parte de seu universo mágico e introspectivo, nutrido de alegrias e tristezas, peripécias e conflitos. Um “isto” de abrangência psicológica e, sobretudo, literária de altíssima qualidade. Felicidade é ter Clarice Lispector nas prateleiras de nossas vidas.


Márwio Câmara

Escritor, jornalista e um apaixonado pelas artes. Escreve porque sua voz está na escrita..
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