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Escrevo, logo existo!

Márwio Câmara

Escritor, jornalista e um apaixonado pelas artes. Escreve porque sua voz está na escrita.

Entre os cômodos mentais de Clarice Lispector

“Se eu fosse eu”, dirigida por Delson Antunes, adapta o universo clariciano para o teatro com ótimas atuações e diversidade de cenários.


945302_126527184216000_402224015_n.jpg Elenco da peça Se eu fosse eu, em foto de divulgação.

Eis que me veio à informação de que uma peça inspirada nas crônicas da escritora Clarice Lispector encontrava-se em cartaz num lugar chamado Casa de Leitura da Fundação Biblioteca Nacional, localizada no bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro; e como um profundo admirador da escritora de A paixão segundo G.H., é claro que eu tive que conferir de perto, com curiosidade entusiasmada, a adaptação feita pelo diretor e dramaturgo Delson Antunes. Só não esperava me deparar com uma peça intimista de “altíssimo nível”, levando em consideração que a mesma tem entrada franca. Ou seja, não paguei um centavo para ir conferi-la.

Sim, Se eu fosse eu é uma peça mais do que contemplativa, porém diferente, intensa e elegante, que se passa por todos os cômodos do casarão onde a peça foi instalada. Começando pela varanda da casa, com a recepção de um mestre de cerimônias (Iuri Saraiva), seguindo para o corredor, onde nos deparamos como uma senhora (Andrea Couto), prosseguindo, respectivamente, para o hall do aposento. Os cenários e figurinos nos elevam a uma atmosfera retrô em que pairam personagens vibrantes e pungentes extremados pela introspecção característica dos textos da escritora então homenageada.

001.JPG Início da peça Se eu fosse eu.

007.JPG A atriz Brigida Megnegatti em uma das cenas da peça. O mesmo ator que introduz a peça é o mesmo que nos conduz aos demais cômodos do aposento, que me parece representar cada cômodo da mente e da alma da escritora, onde nos é apresentado personagens entregues ao drama íntimo da existência, do universo clariciano.

Logo somos levados para o segundo andar da casa, o que poderia se intitular perto do coração selvagem de Clarice. De primeira, nos deparamos com um telão onde são exibidas fotografias e fragmentos de textos assinados pela escritora, assim como um sinestésico vídeo de um mar de fundo, e ainda trechos da emblemática entrevista de Clarice Lispector, concedida para a TV Cultura, em 1977, dez meses antes de falecer.

014.JPG Uma das imagens da escritora exibidas no telão durante a peça.

015.JPG Outra das imagens da escritora no telão durante a peça.

009.JPG A atriz Larissa Sarmento sobre a banheira em um dos momentos da peça.

O público é dividido em grupos, e cada qual é levado para um cômodo do segundo andar do casarão: um banheiro, um escritório e uma espécie de sala (não vou contar o que acontece em cada um dos cômodos, faz parte da surpresa). E em seguida, o público novamente é reunido e levado para um ambiente obscuro, onde a atriz Joana Medeiros entrega-se totalmente à loucura da personagem, sendo a mesma, possivelmente, a própria Clarice, dialogando sobre o mistério do Ovo e a galinha, título de uma de suas crônicas.

184520_124073447794707_1529284543_n.jpg A atriz Joana Medeiros em uma das cenas da peça "Se eu fosse eu". Em seguida, somos levados para uma sala mais iluminada, espelhada por vidros, onde a atriz Miriam Virna interpreta uma alma feminina que sente o desejo de acarinhar o todo poderoso Deus, com carinho diferente, maternal, porém, de súbito, a personagem é estilhaçada pelo alarde do horror ao se deparar com um rato morto na rua; e o sentimento maternal para com Deus, sobre esta mulher, acaba se transformando em afronta, ódio e desejo de vingança. Uma quase fiel adaptação à primorosa crônica intitulada Perdoando Deus.

“Se eu fosse eu” não economiza na produção, ao projetar na Casa de Leitura de Laranjeiras uma perturbadora e contundente experiência visual ao adaptar um conjunto de textos da escritora para a cena teatral. A peça não é apenas uma edificante homenagem a um de nossos maiores nomes da Literatura Brasileira, mas um presente para o público carioca, que tem a possibilidade de conferir algo de extrema beleza e qualidade sem pagar nada por isso.

Dirigida por Delson Antunes, a peça traz um elenco afiado de nove atores: Miriam Virna, Mariana Arôxa, Andrea Couto, Thiago Chagas, Iuri Saraiva, Adriana Bonfatti, Mariana Cortines, Joana Medeiros e Brigida Megnegatti, e uma ficha técnica extensa, resultado de um trabalho comovente e de altíssima qualidade, que está em cartaz de sexta a sábado, às 20h, na Casa de Leitura de Laranjeiras, até o dia 27 de julho. É bom que chegue com uma ou duas horas de antecedência, já que o número de senhas é limitado (um pouco mais de trinta).


Márwio Câmara

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