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" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

Jackie Wilson - O Elvis Negro

Conheça a carreira e o legado deste marco na história do Rock N' Roll que, muitas vezes, passa em branco para alguns. Conhecido como o Elvis Negro, este homem não só influenciou grandes artistas, como também deixou cravado no coração dos homens que a música pode ir muito além de pacificadora interna pessoal. Nascido pobre e em período conturbado, talvez ele se encaixe nas histórias pioneiras que dos guetos tiraram talento em letras de música. Jackie Wilson talvez seja importunado pelo mundo, mas para aqueles que de fato apreciam música, ele só prova que no fundo sempre haverá mais espaço e reconhecimento para aqueles que já se foram e merecem ser lembrados.


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Dentre todas as sementes que se espalharam pelo campo fértil da música, talvez uma das maiores responsáveis pelo surgimento dos grandes clássicos e ícones do século XX, seja sem dúvida, aquela que hoje chamamos de Soul Music. Um gênero que surgiu em meados da década de 50, e que com suas raízes plantadas nas antigas tradições folclóricas e músicas gospel trazidas pela cultura afro-americana , se uniu a outras vertentes do jazz e da música country, formando nada mais nada menos do que aquilo que tão logo se tornaria o mais aclamado Rock N' Roll.

Com suas nuances típicas em um belo coro de fundo, o gênero era marcado pelo acompanhamento de palmas e menções a passagens bíblicas em suas letras, onde no meio de tudo aquilo que os artistas cantavam, surgiam inclusive, improvisos de última hora. Havia também grandes concertos musicais, onde além de modificarem a tonalidade da música, aos poucos, cada uma à sua maneira, as bandas iam se focando no uso de uma técnica conhecida como doo-woop, provando assim, que a Soul Music, nascera de uma única junção fronteiriça de mitos e culturas, crenças e etnias dos mais variados povos que habitavam os guetos no oeste dos Estados Unidos.

A música negra, assim chamada pelos críticos, se estendeu por uma longa década repleta de influências, e por fim acabou se subdividindo em outros ramos. Mas foi exatamente assim, criando novos gêneros e unindo os povos que, separados pelo racismo, lutavam por seus direitos, que a música Soul tornou palpável a mesma paz que ela tanto pregava.

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Ela havia se tornado uma ilustre motivadora de artistas, e mais ainda, além de tudo isso, também havia acabado de dar os primeiros passos como o novo berço de grandes representantes da música, isso, em toda a história do Rock N' Roll.

Foi exatamente neste cenário, que uma figura conhecida como The Black Elvis, ou se preferirem , The Mr. Excitement entrou em cena, quebrando os tabus e estabelecendo seus novos paradigmas para toda uma geração que cresceria ouvindo música. Àquela altura, quem olhasse para Jackie Leroy Wilson no início de sua carreira, um jovem rapaz nascido em Detroit, no estado de Michingan, nos EUA, não diria que era ele o mesmo que se tornararia um dos mais venerados símbolos da música pelas bandas de hoje em dia.

Visto muitas vezes como um dos mais influentes do mundo, apesar de pouco conhecido atualmente, Jackie serviu como fonte de inspiração para ninguém mais ninguém menos do que pessoas como Elvis Presley e Michael Jackson, dois dos ícones que não só fazem parte da música, mas também de toda a Cultura Pop que hoje em dia nos cerca. Ele nasceu em 1934, filho de Jack e Eliza Wilson. Sua infância, seguida pela adolescência, foram os períodos mais turbulentos de sua vida. Seu pai se envolvia constantemente nas peripécias do alcoolismo, e foi por este tipo de comportamento, que acabava passando grande parte de seu tempo metido em problemas, ausente na família e longe de casa, sempre se envolvendo em brigas de rua ou coisas piores. Eliza, agindo como contraponto do marido, sempre fora uma mãe muito religiosa. Com medo de que o filho seguisse os exemplos do pai, costumava levá-lo com frequência às pequenas Igrejas do lugar onde moravam para assistir às missas e cultos aos domingos.

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Ela era muito rigorosa”, dizia Jackie, “principalmente no que dizia respeito às tradições religiosa”. Sempre fora uma mãe muito exigente, em todos os aspectos, e foi ela quem o introduziu à música, fazendo-o participar, inclusive, de corais dos quais ela mesma fazia parte. Apresentava-o à instrumentos e acordes musicais na Igreja, e foi mesmo ela, que pelo simples fato de ser sua mãe, quem se tornou o estopim para a chama do talento de seu filho, fazendo-o brilhar logo em seguida, com toda aquela carreira que ele logo escolheria.

Sempre fascinado, Jackie Wilson, aos nove anos, formou seu primeiro grupo musical, composto por ele e mais três amigos. O Ever Ready Gospel Singers, como o próprio nome sugere, era uma pequena banda de garagem especializada em música gospel, e que tocava sempre nas Igrejas locais além de fazer pequenos concertos, cobrando caro por seu serviço até mesmo dos pastores.

Por incrível que pareça, apesar das influências e do próprio som que faziam, Wilson e seus amigos não era rapazes muito religiosos, diferente da mãe, e talvez até mesmo o contrário do que ela queria que ele se tornasse. Chegaram inclusive a afirmar diversas vezes, que só tocavam pelo dinheiro e pela música, pois eram estes, que acima de tudo, pagavam pela bebida que consumiam nos bares mais próximos de cada esquina.Além de tudo isso, beber não era a única infração cometida pelo jovem Jackie, que contra todos os gostos da mãe, fazia parte de uma gangue local conhecida como os Shakers. Acabou largando a escola aos quinze anos para se dedicar somente ao trabalho sujo que estava acostumado a fazer.

Foi sentenciado duas vezes à pagar penas de prisão, e até mesmo a fazer serviços comunitários para as delegacias locais, e foi nesta mesma época, que seus pais, cansados de todo o sofrimento, optaram pelo divórcio. Em um de seus castigos, nas prisões, Leroy nos conta que chegou a aprender a lutar boxe com uns amigos, e que o pensamento de seguir a carreira dos esportes era muito comum em sua cabeça nesta época. Quando deixou a prisão, aos dezessete anos, ele foi forçado a sair de casa por sua mãe, e após longos períodos aproveitando tudo o que havia "de bom e do melhor" quando o assunto era sexo, teve de se casar com Freeda Hood, uma garota que havia engravidado, e cujo pai agora o obrigava à todo custo ao matrimônio. Foi esse casamento, no fim das contas, que acabou se tornando o motivo pelo qual ele abandonou o mundo dos esportes, e como já havia desistido dos crimes, finalmente pôde se focar somente naquilo que realmente gostava de fazer: Cantar.

Neste período, participou de pequenas bandas, tais como os Falcons e os The Contours. Sempre atuava nelas como o vocalista, e foi em uma de suas apresentações que acabou sendo notado por um reconhecido agente musical, um verdadeiro caça talentos da King Records: Johnny Ortis, o homem que alavancou sua carreira. Foi ele quem o convidou para participar de uma banda de outro escalão, cuja qual já havia adquirido algum reconhecimento na região onde moravam: The Royals, como era chamada, e a banda era no mínimo, aquilo que ele de fato precisava.

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Atuaram durante meses na região, e acabaram por se tornar um dos grupos pioneiros de R&B (sigla em inglês para Rythm and Blues) em todo os EUA. Trocaram o nome para The Midnighters, assinando assim, um acordo com o dono de outras duas gravadoras locais. Foi em 1954 que publicaram uma versão de Danny Boy, cantada por Jackie Wilson, e essa sua performance, transformando-se rapidamente em um hit de sucesso, incitou até mesmo que outros grupos também fizessem lá os seus remakes dos clássicos da música inglesa.

Mas foi ainda no The Midnighters, que para Jackie, surgiu uma das maiores oportunidades de sua vida. Cantando para o grupo, não demorou muito para que seu talento fosse reconhecido por outras personalidades, tais como Billy Ward, que o convidou para fazer parte de sua famosíssima banda, The Dominoes, e mais rápido do que nunca, todo o jogo estava feito: de um simples cantor, de repente tornou-se um talento nacional. De repente, a carreira de um jovem Wilson que mal arriscava palavras em público, era agora, uma das mais brilhantes da música norteamericana, e foi quando entrou no The Dominoes, que indiferente, e ainda desacostumado, soltou em rede nacional diversas críticas contra Clyde McPhatter, o ex-membro do grupo, afirmando com muita certeza e até mesmo certa arrogância, de que faria muito melhor do que ele.

A estadia no The Dominoes , foi de todas, a mais passageira, e foi no final de 1957, devido às desavenças dentro do grupo, que Jackie deixou a banda anunciando sua carreira solo. Sempre muito dinâmico, e com toda a influência que adquirira anteriormente, Wilson fazia de tudo no palco,e aproveitava ao máximo aquilo que ele mais gostava de fazer: cantar.

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Suas músicas eram cheias de emoção, e as letras, sempre eram carregadas de alegorias de sua vida pessoal, que apesar de ter sido amenizada após a fama, sempre fora cheia de problemas. Um cantor peculiar, de fato. Ele gostava de fazer malabarismos e expressar da maneira que podia, às vezes ao extremo, todas as sensações e as intensidades que trazia em suas canções. Sempre bem vestido, ele era dono de um dos mais famosos penteados de cabelo, um topete, ao melhor estilo Elvis Presley.

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Na verdade, até mesmo na aparência, foi Jackie quem influenciou o grande cantor, tanto em sua ginga quanto nas músicas, desde as roupas até aos jeitos de falar. Eram muito mais do que bons amigos. Os dois trocavam ideias sempre que podiam. Passavam horas jogando conversa fora, e justamente por isso, foi que o jovem Wilson, que na época não entendia muito bem, recebeu o apelido de “The Black Elvis” – O Elvis Negro. Um era praticamente a transposição do talento de outro, para o mundo distinto e completamente diferente e segregado de ambos os lados. Wilson mesmo costumava dizer: “Um monte de pessoas acusam o Elvis de roubar o estilo do homem negro, quando na verdade, quase todos os cantores copiaram os maneirismos dele”. Para ele, funcionava mais como uma troca de influências.

O ápice de sua carreira chegou meses antes de sua última apresentação. Foi em 1975, durante um show que realizava em Nova Jersey, que os fãs que a princípio não se assustaram ao ver que Jackie se desfalecera por completo em cima do palco, pensavam que tudo aquilo fosse parte de mais uma de suas artimanhas musicais, comuns, durante os shows, quando de repente foram surpreendidos por paramédicos que chegaram a atendê-lo ainda ali, e que, ao notarem que Jackie sofrera de um ataque cardíaco, foram capazes apenas de mantê-lo em vegetativo. Algo que durou muitos anos que ainda estavam por vir.

Tempos se passaram, e alguns anos depois, ele mostrou que talvez ainda houvesse alguma esperança. Acordou, e chegou inclusive, a dar alguns passos, mas não. Ele voltou ao coma logo em seguida, e foi em 1984, aos 49 anos, sete anos após a morte do Outro Elvis, que sua vida chegou ao fim, partindo desta para a melhor. Ele havia deixado uma legião de fãs e influências, e além de tudo, ainda por cima, havia deixado um dos maiores legados na história da música.0.jpg

Imortalizou-se de imediato. Dezenas de artistas cantaram versos em sua homenagem, em músicas póstumas que de fato, entraram para a história. Agora Jackie, já não existia mais. Seus maiores sucessos foram "Reet Petite", “To be Loved” e a grandiosa "Lonely Teardrops", uma perfeita descrição de sua infância, distante de seu pai, e que em poucas palavras conseguiu dizer mais do que qualquer outra música sobre ele mesmo. "I'm Wanderin'", "Higher and Higher", "We Have Love", "That's Why (I Love You So)", "I'll Be Satisfied" , "Baby Workout" e "Alone At Last" foram outras que também entraram para o hall da fama, e lucraram milhões, não só para a Chess Records, mas também para toda a sua família.

Em suma, podemos dizer que Jackie Wilson não só entrou para a história, mas também entrou para a música. Integrando-se e fazendo parte dela. Foi como uma prova de que qualquer preconceito, guerra ou crime, pode ser superado com o simples ato de se dedicar naquilo em que se acredita, em uma época de descrenças.

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O Elvis Negro , sem dúvida deixou cravado em todos o seu ônus de sucessos e influências, além de seu carisma, talento e personalidade. Todos eles foram vitais para que se provasse ao mundo, que não é pela situação ou pela época em que se encontra tal país, muito menos pela maneira como se educa um homem que se medirá o seu caráter ou influência, mas sim pelo que ele ouve, pelo que ele cria e pelo que ele faz, desde que trilha, sozinho, o seu próprio caminho, naquela encruzilhada turbulenta que hoje e sempre é chamada de vida.


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
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