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" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

Deuses: Um estudo sobre a Arte e a Razão

Apaixonado pelo fato do viver, o ser humano cria meios de gravar a sua existência. A posteridade talvez não conheça os primeiros dos artistas, mas com certeza, seu legado, deixou gravado em nossas mentes em sentido literal que o que existe lá em cima é como o que há aqui embaixo. Fascinantes ou não, os deuses para nós nunca foram suficientes. A arte primitiva é prova que o homem facilmente se deslumbra com o que vê e por consequência, também com o que cria.


william_blake_newton.jpg Deuses, nereidas, titãs, anjos e demônios. A história humana está repleta de repetições. Todas elas, no primeiro de seus mitos, descrevem a epopéia magnífica que a criação tem a mostrar: os deuses, com o seu sopro, dão a vida aos moldes de sua imagem e semelhança. O paraíso: magnum opus do deus dos deuses. A natureza era o lar das mil belezas, o sonho eterno do homem em carne. Era ele o nosso lar, berço de toda a revelação. O fado de artistas nos foi dado como algo que precede a história humana. Mito, lenda, verdade – o gênese é só a prova de que seja lá quando os primeiros artistas nasceram todos eles compartilhavam de um mesmo sonho: o alcance das estrelas – o lar dos deuses. Nele provamos que explicação alguma é necessária quando a arte entra em campo: as mãos do criador moldam e destroem, incendeiam, culpam, e cativam a criação de outrem.

wet.jpgAdamAndEveInTheGardenOfEden.jpgAdam-and-Eve.jpgAdamAndEve.jpgtumblr_m5hofhfsrL1qbhp9xo1_1280.jpg Orfeu, filho de Apolo, nos lembra a imagem de Jubal, filho de Ada e de Lameque, precursores da lira O primeiro dos artistas, músico e poeta – a natureza se curvava aos seus encantos. Sereias, ninfas, seres da natureza, bradavam forte ao ouvir os seus sonetos.Caronte, a barca da morte, levou-o vivo ao submundo, atravessou os terrores do inferno. Lá a beleza de seu canto enfeitiçou Perséfone, mulher de Hades, que implorou que lhe devolvesse a sua amada – Eurídice. Ela foi entregue, mas com uma condição: Que seus olhos não se voltassem para ela até que a luz do sol inflamasse a imagem de seu rosto; e foi assim. Cantando e tocando as suas músicas, a personificação da arte em si entregou-se aos prantos de seu amor: Subiu à terra e lá virou-se, para trás, mas viu apenas o fantasma de sua amada – ela não cruzara os portões do reino abaixo. Morreu infeliz, pelo encanto de seus olhos e artifício de seu amor.

rubens orpheus eurydice underworld.jpgorpheus-and-eurydice-b-george-frederick-watts.jpgEurydiceOrpheusRussell.jpg Narciso é outro, apaixonado por si mesmo – a sua imagem e semelhança, refletida no lago das ninfas. “Todos são deuses”, ou “conhece-te a ti mesmo”, são ecos longínquos de um passado que pregava a apoteose pessoal. Que maneira há de tornar-se um deus, se não sentindo-o e observando a divindade como a si mesmo? Dentro de si? O Oráculo de Delfos talvez estivesse certo, mas sua lição, vale até hoje. Seu mito conta que Nêmesis, a deusa grega da vingança, amaldiçoou-o pela paixão de sua própria imagem após recusar a ter relações afetuosas com Eco. Ele morreu afogado no lago o qual ficava observando o seu reflexo, como se enfeitiçado pela própria beleza.

narciso.jpgNicolas_Poussin_040.jpg Os versículos bíblicos que narram o episódio onde Moisés deixa a Aarão a missão de resguardar o povo de Israel enquanto sobe ao Monte Sinai, são além da exegese, uma demonstração alegórica: O homem almeja a apreciação da divindade ainda em vida - e isto é fato, todos buscam. Alguns encontram e outros não. Talvez o povo merecesse ser punido por seus olhos ou talvez não, e isto em si, também é arte. A ousadia de pintar e de criar. A história bíblica além de tudo prova também que a sociedade molda a criação: Em opressão, Aarão fez o que o povo precisava, um bezerro de ouro, e seu deus o perdoou – é o que ocorre em tempos de guerra: A arte expressa o que pela boca, nós não falamos. Deus está do lado dos artistas? O criador sempre foi parte do criar, e a criação, é agora a responsável pela arte de criar. The-Adoration-of-the-Golden-Calf.jpg2642412816_9f2852f42a1.jpg A Apoteose de Washington, no Capitólio, dos EUA, é clara em sua função: Ele é o ungido do país. O personagem principal do sonho americano é um dos grandes fundadores da América – George Washington; era maçom. O edifício onde se encontra, lembra o antiqüíssimo romano, pai da democracia e do direito universal. Ele contém a obra de Constantino Brumidi, um artista italiano que trabalhou também no Vaticano em vários quadros à Basílica de São Pedro. Sugestivo ou não, a divindade é a assimilação do valor humano através da arte – é nela que expressamos o que há de Deus dentro de nós. A unidade de nossos seres

brumidi-yorktown-full.jpgapoth_center.jpgtelegraph-full.jpg Há milênios, as estrelas eram os buracos do firmamento. Nossos ancestrais, seres pequenos com braços longos e um cérebro bem grande para a espécie, caminhavam nas planícies desta terra alimentando o que havia em seu coração: nosso pensar. Ele evoluiu seguindo instintos. Se sentíamos a dor, afastávamos a causa, se sentíamos prazer, reproduzíamos a espécie. Felicidade e aconchego, calor, carinho e afeição. Nós buscávamos o melhor e o melhor nos encontrou. Com mãos simiescas, carregávamos a água até as nossas faces e olhávamos a imagem refletida: Nascia algo estranho. “Quem és tu?”, éramos nós. Nós mostrávamos as presas, e a imagem nos mostrava o mesmo outra vez. De tempo em tempo, o mostrar das presas transformou-se no sorriso. O sorriso – imagem retratada em tantos quadros. Em alguns momentos, são irônicos, em outros, já não mais são, mas em sua maioria são felizes. O sorriso é a expressão da complexidade humana, nós o usávamos, ele era a ferramenta – e até o dia de hoje ele é. Com nossas mãos, pintávamos. O fervor criava a bases do pensar, e o instinto do criar, criou os impulsos do viver, pois lá estava a arte e o raciocínio: O questionar. Nós perguntamos, e a resposta veio a nós. A dama de branco, encontrada na África do Sul no ano de 1918, é um afresco homérico que sobreviveu à história para nos contar um pouco sobre a vida do passado. Nela observamos um rebanho de antílopes, caçadores, o cotidiano da família nas cavernas.

800px-White_Maiden_of_Brandberg.jpg27-AAK-0407-web61.jpgPRÉ-HISTÓRIA.jpg Como filhos das estrelas, deuses, anjos e outros mais, a condição foi nos tornarmos capazes de pintá-los e criá-los, grafá-los e alterá-los. Tornar o nosso mundo bem mais próximo dos deles. Os que veem a arte como crítica, meio de vida subsistente e o ganha pão de cada dia, “mantêm a tradição”, soam como se pregassem a existência de um padrão de expressionismo, algo que todo homem deveria ter em si. Estes se esquecem, pois, que toda a arte humana, ciência, música e matemática, o Cinema e tantos outros derivados, são expressões tão pessoais quanto aquelas que habitavam nas cavernas. Nós somos homens, e arte é arte: Arte é ser homem. A cúpula da Capela Sistina não se difere em suma do interior de uma caverna onde há milênios, a natureza foi memorizada. Búfalos e homens, a caça, o dia a dia. A natureza – deuses e outros animais, convicções – a própria vida. Arte é convicção apropriada a cada um, não há padrão se não aquele que nos difere um dos outros.

capela.jpgLascaux_2.jpg Alguns dizem que no ato de criar está contido o sentido do viver, mas outros acreditam que viver da própria arte não passa de um sonho matutino que acaba em alguns minutos. Mas sonhos, o que são sonhos? Sonhos somos nós, e sonho é arte. O mundo é a grande tela da qual sonhamos fazer parte. Howard Phillips Lovecraft, um celebrado escritor norte-americano nascido no ano de 1890, descreveu em um de seus contos algo inconcebível à mente humana: Uma cor que não pode ser observada no espectro. Eu lhes pergunto, que aspecto ela tem? O que é que ela é? Não é esta a aflição que sente agora o mesmo que tentar imaginar a busca pelo que precisa ter resposta? Talvez a Ciência nos leve a ela, mas talvez ela também seja a pergunta – o homem vive nisto, e é justo neste mar que está imerso. Um mar de dúvidas.

blake2.jpgDrawn_wallpapers_Paintings_Jesus_Painting_023167_.jpg set.jpgisaac-newton (1).jpg

Deuses e arte são sinônimos. Panteões, deuses e anjos, jamais passarão de alegoria para o artista – ele vive deles e é neles que eles vivem. O que importa é o que há dentro de cada um de nós, apenas homens, observadores, adoradores da ciência e da razão. A abóboda celeste guarda o segredo dos artistas; criar estrelas com as mãos nunca foi menos do que brilhar como uma delas. Pintar é recriar o universo, e através dele, deixamos pistas daquilo que tentamos descobrir. História e arte são irmãs, filhas dos deuses com a razão – elas provam e elas criam, elas destroem. Somos breves como o vento, mas eternos como a pedra que ele molda. Somos sinais, marcas, pequenas partes de uma pintura bem maior que o concebível. Criar é arte. O que está em cima é como o que está embaixo.


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
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