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" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

O Tesouro dos Assírios

Sumérios e Caldeus, Babilônios e Hititas. O que estes povos têm em comum com os dias de hoje? Não, não é a espera da chegada de um messias, muito menos a de um grande salvador, profeta ou enviado do Dilmun, terra sagrada, mas sim, algo bem distante disto: A ascensão de um inimigo. Sim, a quebra das fronteiras invisíveis entre as nações só ocorreu através da história quando uma ameaça bem maior do que eles mesmos violou os seus terrenos. No combate e nos Jihads, aquilo que o Ocidente chama de preparação e prevenção, é o que os antigos e mais ferozes habitantes da região entre o Tigre e o Eufrates adoravam como deus: A guerra. “Você não pode prevenir e preparar-se para a guerra ao mesmo”, já dizia Albert Einstein, mas é nas palavras de Sun Tzu que se mantém descrito o tesouro dos Assírios: “O principal objetivo da guerra é a paz”. Descubra o legado do primeiro grande império dos homens, e neste mesmo, mergulhe em um mar de história, mitos, sangue e ganância para entender a mente do homem atual - Qual será a nossa ligação com este povo?


crown_n.jpg Filhos de deuses ou nações, seja o que for, nada, aparentemente desde o tempo das pirâmides foi capaz de unificar o arcano idealista que se esconde nas terras onde os homens deram seus primeiros passos em direção ao que se tornaram hoje. Não só naquela região, o ser humano, como um todo, parece acreditar que a guerra é um estado natural de seu espírito, assim como o seriam o roubo e a calúnia. Políticos, ao defender doutrinações, utilizam-se de ousadias tais quais as afirmações de que jamais houve ou haverá sociedade em que estas coisas não ocorram. O fato é, que civilizados ou não, eles têm em suas batalhas, resumido vez por vez a natureza dualista de seus povos; onde tudo aquilo que os une e desconstrói, é então capaz de se expressar no disparar de uma arma ou afiar de uma lâmina – a guerra mantém-se a mesma desde os tempos mais primordiais. Mesmo a derrota, quando posta em fé diante do deus ao qual eles servem, pode se tornar bem mais prodigiosa do que a vitória. Ao destruir os templos e as cidades em que as gerações cresceram, a derrota acende o fogo das paixões, todas terrenas, que dentro do mais antigo templo já criado por mãos desconhecidas, entra em contato com forças ocultas que revigoram a fé e o homem ao uno. 15-Lachish-battering-ram.jpg O coração, o lar misterioso da razão dos velhos gregos, é também aquele que fala em línguas estranhas e incompreensíveis, porém, é sendo nele que se comporta o segredo mais antigo da unificação, que o homem, ao instigar-se com dor tremenda, se torna um deus tão poderoso quanto seria por inteiro um panteão. A guerra, desta forma, tinha um papel particular no cotidiano dos Assírios. O poder do demagogo fazia jus ao verbo que por si fazia carne de seus mitos, ligava e desligava a fúria e o temor de seus soldados, cidadãos, amigos e inimigos com o simples ressoar de uma trombeta, e assim como aqueles que se uniram para destronar o impiedoso rei sanguinolento de sua época, hoje, a mesma história se repete com o ponto que há em comum entre os Sumérios e os Caldeus, os Babilônios e os Hititas – O inimigo em comum. O fervor de um objetivo. O medo e as armas, a união da garra popular em prol daquilo em que acreditam. Os Estados Unidos da América, o atual império em ascensão, é ao mesmo tempo em que um inimigo, um pacificador – ele traz guerra, que os une e desconstrói, mas que ao mesmo tempo tira o poder das ditaduras e coloca em seu lugar um ideal honesto e democrático – ou assim era pra ser. “Ordo Ab Chao”? Alguns dizem que sim, mas há aqueles que acreditam no contrário. Seja o que for, os inimigos amaldiçoados do Pentateuco e da Torá que dominaram desde a Suméria até o Antigo Egito, têm de proporção em proporção, traçado um paralelo atemporal do tempo em que ao invés do dólar, trocavam-se escravos, mantimentos, utensílios e moedas de cunho em barro. O Império Assírio, o portador das mil riquezas, tão voraz quanto a águia esfomeada do Ocidente, é ao mesmo tempo em que união, a depravação do povo antigo. A descendência de seu trono tem ganância, raízes de uma arte milenar que hoje garante a existência dos mais ricos Estados e Nações. É na guerra e no dinheiro, tesouros, sangue e fé, e na própria religião que uma mescla de valores sobrevive aos dias de hoje. O ideal secular está tão distante, quanto aquilo que chamam de paz está do que nos deram mascarada desta mesma. Os Assírios são as águias do passado.cdq109_9135384_01.jpg Brutos, rudes, bravos e guerreiros, fortes como as garras e mordazes como os dentes de um leão. A odisséia bíblica que narra os ataques dos Assírios a terra de Judá nos faz pensar que além de audaciosos, o povo descendente do filho de Adad (primeiro grande rei tribal da antiga Assur – capital das tribos) é tão violento e sanguinário, que se comparados à história que percorre os vastos anos em que foram exterminados, a diferença entre eles e os seus carrascos seria quase que infinitesimal. O povo Assírio teve a sua origem nos povos bárbaros que surgiram do norte da Mesopotâmia depois de um longo período de imigração. Eles constituem um dos maiores impérios que já reinaram sobre a Terra. Assur (Ashur – Qal’at Sherqat), sua primeira capital, era também a principal e mais habitada cidadela de um sincretismo popular que ocorreu logo após a chegada dos povos nômades do oeste do Rio Tigre; a cidade era marcada por canais de irrigação, templos, mercados e parentes próximos de casas feitos de barro, água, betume e outros materiais facilmente encontrados na região. Sendo hoje considerada patrimônio mundial, em sua época, ela foi uma das maiores cidades estado da Anatólia (atual Turquia). Seu nome deriva do termo que hoje é mais bem definido como sendo “Graciosa”, e ele também está diretamente ligado com um dos descendentes de Noé, que no Pentateuco, é identificado como sendo um dos filhos de Sem; o nome “Assur” também estava vinculado a uma antiga divindade protetora das tribos, um deus do sol, que ao ascender do grande império, tomou o lugar de outros ídolos como Anshar e Kishar, Enlil, e até mesmo Marduk, do panteão dos babilônios. Shamshi Adad I, em relevo - British Museum Thumbnail image for shamshi-adad5_01.jpg Ruínas de Assur224ASR.jpgashur2.jpg No princípio, o povo assírio era sucintamente subjugado por Hamurabi, o famoso Imperador da Babilônia, autor da “lei do Talião” (olho por olho, dente por dente), que os escravizava e assassinava como vermes e invasores. Sabe-se que no período dos massacres, as cidades tribais passavam por grandes revoltas contra seus líderes, fracos, que culminariam posteriormente, na unificação do idealismo que tomaria o trono da Babilônia, mas hoje, toda a gloria da história antiga repousa sobre o trono de Assur-Ubalit, o primeiro rei da linhagem imperial da Antiga Assíria, e também fundador do Império Médio, que de um pequeno povoado de escravos e povos explorados, transformou-nos se não no maior receio das civilizações da antiguidade, seu principal temor. A filha de Ubalit era uma princesa de tez tão bela quanto o brilho do luar, casou-se com o faraó Amenhotep III, e ao estabelecer uma aliança entre seus povos, o Império de Assur tornou-se o mais próspero e bem equipado das grandes forças que combatiam na Ásia Ocidental. As descrições, encontram-se nas batizadas “Cartas de Amarna”, pedaços de tabuinhas de barro que descrevem na língua Acadiana os processos diplomáticos pelos quais a Assíria obteve a sua ascensão . Nelas, também estão expostos o fim da etnia hurrita, um povo que emigrara junto aos assírios e que, destruído após a queda de Mitanni pela força da aliança entre com os hititas, teve a sua cultura assimilada por ambas as nações.

Tesouro de Nimrud - National Geographicharran02.jpgThumbnail image for jewel6.jpg640x392_11436_152288.jpgCivilização-0009---www.templodeapolo.net---Peça-do-tesouro-encontrado-de-Nimrud.jpgCivilização-0010---www.templodeapolo.net---Peça-do-tesouro-encontrado-de-Nimrud.jpg A ocupação da Babilônia, dá-se por volta de 1244-1208 a.C, quando Tukulti Ninurta, um feroz imperador que apostava mais na guerra do que em amigos, realizou o fatídico e primeiro saque da prostituta apocalíptica. A Babilônia, que passara por diversos conflitos desde a morte de Hamurabi, tornara-se um Estado fraco que fora usurpado por todos os povos menores da região; impassível, como a fora com os outros, suas ruínas eram maiores do que as edificações. Tukulti a reconstruiu, tornando-a capital por um breve período de tempo, no qual, embora os assírios já fossem uma grande potência, seus olhos já se voltavam para outras regiões. E foi assim, com Tiglat Falasar I dominando as cidades portuárias dos Fenícios e suas capitais, que o então Império tornara-se o maior já visto desde então, e também um dos mais ricos devido à alta taxa de impostos e cobranças realizadas pelo exército . Já a até então duradoura diplomacia com o Egito foi derrubada pelo impávido Sargão II, que sobrepujando as grandes regiões que se estendiam desde a Arábia Saudita até o oeste do Rio Nilo, fez algo que nem mesmo as potências faraônicas de sua época foram capazes de impedir. O terror fora instaurado. Sargão II é até hoje o mais famoso rei da Assíria. Deu origem também a mais conhecida linhagem desde os tempos de Adad, e é justamente a ela a que pertence Senaqueribe e as lendas bíblicas em que Judá cabia ao trono de Ezequias. A lenda, conhecida pelos cristãos mais fervorosos e judeus, conta que o Rei Senaqueribe teve as suas forças esmagadas pelos anjos do senhor, e que a fé do rei hebreu o libertou das artimanhas dos demônios do trono imperial. Esta lenda, que se utiliza de linguagem simbólica e alegorias, está bem longe de ser mito; ficou assinalada pelo tempo no lendário Prisma de Senaqueribe, encontrado no século XVIII,e hoje mantido no museu do Louvre em Paris.

Prisma de Senaqueribe - Museu do Louvre, Paris. Sennacherib Annals 01.jpg Tesouro de Nimrud - Restos de uma estátua da deusa Ishtar - National Geographic 91.jpg Há também Nínive, a mitológica e fatídica cidade para a qual Jonas, o profeta, recebe a missão de enviar uma mensagem de seu deus para os pagãos. Ela é também a cidade para a qual o próprio Senaqueribe levantou fundos e fez questão entre seus súditos de fazer grande. Nela, construiu novas estradas e templos, irrigou terras e fez palácios, muralhas, sob as quais, futuramente, inaugurariam uma nova capital. A cidade tem uma história impressionante, e de acordo com os relatos encontrados no antigo testamento, teria sido sob as ruínas de Nimrud que teria sido levantada. Foi nela também que Assurbanipal II, rei da Assíria, construiu sob seu chão durante o seu império, a biblioteca na qual por muito tempo perduraram sob a guarda das muralhas os escritos dos caldeus, que antes deles, habitaram a Suméria. Já por outro lado, sabe-se que por trás dos mitos, a história na qual Jonas é engolido por um peixe gigantesco é questionada de sua veracidade. O fato, é que nela podemos observar um predecessor de profecia messiânica, sob a qual se mantêm ocultos sob a pele de outra lenda, alguns dizeres sobre a vinda de Jesus. Jonas, e seus três dias na barriga da baleia, são postos lado a lado à história de Jesus Cristo e os três dias no ventre desta Terra, pelo qual, depois de um tempo, voltaria a ver a luz do dia, ressuscitado. Historicamente, Sargão II também fora um dos últimos grandes reis da linhagem que reinou durante o Império Neo-Assírio, e que veio a sobrepor também as insurgências contra o trono. E assim se segue; Sinsharishkun, filho de Assurbanipal, foi o último a exercer poder sobre outros povos. Sabe-se que Nabopolassar, rei amorrita que habitava nas cidadelas rebeldes que tramavam seus planos contra a Assíria há muito tempo, foi quem com ataques coordenados, utilizou-se da ajuda dos egípcios e dos medos, sumérios e até mesmo de soldados desertores para a tão esperada Queda do Império diabólico.

nineveh_walls.jpg A Cidade de Nimrud, capital durante o trono de Shalmaneser I, foi uma das que além de grandes tesouros, deram origem ao mais temido exército que hoje comparamos ao do Ocidente. Eles eram o ápice da tecnologia de sua época – Idade do Bronze -, eram grandes criadores de cavalos, e preferiam não matá-los em suas batalhas e raptavam-nos em saques aos campos do inimigo. Como resultado, os assírios foram donos da primeira e maior frente de batalha já observada em toda a história. Dominavam a forja de armas em bronze e aproveitavam-se dos maneirismos do terreno, além de possuir, é claro, ornamentos de batalha que elevavam a moral de seus soldados, como os Lamassu. A arte da Guerra era pouco se comparada à idolatria que este povo sádico reservava à violência e à morte como um todo. Eles eram conhecidos por pilhar os crânios dos inimigos em pirâmides após as batalhas, e quanto mais sanguinolentos, mais riquezas a deusa Ishtar, símbolo da guerra e do amor, os daria em plena paz. Eram conhecidos por também se utilizar de armas de cerco e barcos de batalha enquanto seus inimigos mantinham uma linha de defesa bem precária. Para lá de sanguinários, há de se saber que da antiguidade, nós dos dias de hoje, derivamos mil costumes dos antigos. Talvez não em seu sentido literal, como visitantes permanentes de um museu em exposição, mas sim, através do fruto do passado, ao qual colhendo, poderemos saciar a sede por conquistas e novas descobertas. Os Calendários e a astrologia, a ciência e a própria religião – a guerra. Relevos de cenas de guerra dos Assírios - British Museum, Nineveh Market3209620_com_800px_assurbanipal_op_jacht.jpgWarChariot-1.jpgbigstock_Relief_of_ancient_assyrian_war_26564393.jpg Todas são circunstâncias derivadas destes povos. Os Assírios são a prova de que o poder e a deificação de seus valores estão onde o homem acredita que estão, e que quando decidido a fazer arte, a guerra não se torna nem o pincel do artista e nem a tinta, mas apenas o cenário pelo qual a tela deste mundo expressa as razões e os sentimentos mais ocultos no ego de toda a humanidade. A resposta da irônica união, não está na guerra, mas sim, no ardor da chama que ela ascende nas profundezas mais humanas de nossa psique. “Os homens anseiam mais pela glória do que pela virtude. A armadura de um inimigo, seu capacete quebrado, a bandeira arrancada de um navio conquistado são tesouros mais valorizados do que todas as riquezas humanas. É para obter estes símbolos de glória que generais, sejam eles romanos, gregos ou bárbaros, enfrentam milhares de perigos e suportam inúmeras provações”, disse Juvenal, poeta romano do século II.

Relevo de Leão no Portão de Ishtar, Museu de Pergamon em Berlim. 20110206_9991.jpg A Guerra não é condição humana, e está bem longe disto – se a fosse, a dádiva da vida nem sequer teria nos poupado os longos anos em que, selvagens, nos mantínhamos unidos em prol da vida e da união. A chama eterna do templo das sibilas tem a cor que o homem dá a elas: Rubro negro, como o sangue, ou pacífica, branca e cor de lírios, como as penas de uma pomba. A paz e a guerra, são para o homem, o que o próprio homem é para os deuses – um estado de espírito.

Imagens : National Geographic, British Museum, Nineveh Market, Museu de Pergamon em Berlim, Museu do Louvre.


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
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