matchbox

" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

Greg Dunn e as Sinapses Artísticas

A vida copia a arte, a arte copia a vida, ou ambos copiam o universo?
Seja o que for, desfrutar das belezas no interior das galáxias e explorar os mistérios da neurociência são duas coisas de grandezas tão equiparáveis que nunca antes estiveram tão próximas do discernimento científico como agora.
Enquanto os cálculos da álgebra e os números da astrofísica formulam hipóteses grandiosas para o funcionamento de ambos, em algum lugar no meio das estrelas, um neurocientista um tanto quanto inovador decide por em cores através da arte aquilo que nosso cérebro percebe como a simples diferença das frequências vibratórias das ondas eletromagnéticas: Sinapses cerebrais. Pensamento. Arte e emoção. Onde é que estas coisas são formadas? Por que motivo unificá-las?
O cérebro, por mais complexo que ele seja, parece às vezes ignorar que ele é tão poeira das estrelas quanto aquilo que à milhares de anos luz o torna similar às nebulosas mais belas desde o fim do Big-Bang - o começo do Universo.
Conheça o trabalho de Greg Dunn,o neurocientista que decidiu transformar em arte uma das profissões mais complexas que existem. Através das formas e dos traços da vida como um todo, por meio da arte, ele transformou num misto o resultado da união entre a Ciência e da expressão única de nosso Cérebro. Tinta e Percepção. A compreensão de nossas mentes jamais foi tão simples assim.


brain3.jpg Ao tentarmos conceber as origens da vida e do universo, o sentido e razão da existência, nosso cérebro, formulador de tais perguntas, gira em torno das questões como um planeta de órbita excêntrica. Equidistante da pergunta, tal qual uma asteroide em plano e rota de colisão, a resposta parece estar a anos luz de ser descoberta, contudo, nossa mente funciona como se fosse um buraco negro no centro de uma galáxia, sugando o sentido das coisas e repelindo a própria luz de ultrapassar a escuridão. É como uma nebulosa, constituída de questões perniciosas, que da à luz planetas, astros, e mundos inteiros repletos de definições multifacetadas de uma mesma resposta.O que há além das estrelas? O que há dentro de nós? O que há, no fundo de nossa mente, que nos instiga a questionar? O que há? O que há? O que há?

A resposta para isto talvez não esteja tão distante quanto pensamos. Há muito tempo os antigos acreditavam que para compreender o macrocosmo era preciso primeiro entender o funcionamento das coisas menores. Não estavam tão errados, afinal, aglomerados de estrelas, quasares e pulsares, soam tão fenomenais e enigmáticos quanto às sinapses neuronais de nosso cérebro. A ordem do cosmo, tal como a nossa mente, também depende das partículas, que por sua vez, são tão instáveis quanto ela. O que forma o universo da maneira que o conhecemos? Do que ele é constituído? O que transforma a nossa mente em um lamaçal de perguntas sem respostas? Entoadas a esmo no espaço sideral, estas indagações são tão brilhantes quanto à constelação de Andrômeda, que no épico grego, foi acorrentada a uma corrente de aço para servir-se como sacrifício a um monstro marinho enviado por Poseidon como punição à rainha Cassiopeia, que era deveras arrogante. Mas, por este lado, arrogantes, talvez sejamos nós, ao querer desvendar os mistérios do Universo. Aqui, de águas turvas e profundas mitológicas, temos à sua semelhança, as nossas teorias complicadas, sob as quais o único monstro a engolir-nos parece ser o da razão. Neste mundo, onde não há Perseu ou herói algum para salvar-nos, impedir a criatura de engolir a filha virgem de Nereu é uma linguagem pela qual observamos o quão salvos das amarras nós estamos. A quem recorrer? Que resposta é esta que buscamos? Onde encontrá-la? O que há no centro da galáxia? O que é a alma? São tais perguntas que nos definem como humanos. Pensando nisto, e sobretudo no misterioso funcionamento do maquinário cerebral,Greg Dunn, um neurocientista da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, resolveu deixar de lado os diagramas e cálculos da pseudo-fluidez dos bulbos cerebrais para voltar-se unicamente a uma nova técnica de compreensão e análise pessoal que inspira não só uma nova geração de cientistas do seu ramo, mas também, a ele mesmo. Baseadas em uma forma de arte praticada no Período Edo, do Japão, as pinturas de Greg têm sempre um aspecto de caligrafia semelhante aos quadros feitos ante a influência da técnica milenar do Sumi-e, um estilo nipônico que se enquadra exatamente na pintura à tinta que visa o objeto nos seus mínimos detalhes. Através dela, o artista e o objeto precisa deixar entalhado na sua melhor perspectiva, as únicas essências sob as quais quem olha de longe, não é capaz de observar. O Hipocampo - Parte do cérebro responsável pela memória hippocampus-alternate.jpg Cerebelo - Um dos locais responsáveis pelo equilíbrio e controle dos movimentos muscularesslide_227866_1004243_free-1024x758.jpg O neurocientista, que durante muito tempo frequentou a universidade não só como estudante, mas também como professor, diz que foi influenciado pela Era Edo em contraposição à arte renascentista, que deixava de lado o minimalismo e os detalhismo de uma estética que na maioria das vezes passam quase que imperceptíveis. Entrementes, o pintor, que afirma estudar não só a biologia da mente mas também o próprio cérebro através das técnicas de meditação orientais, diz que artistas como Ito Jakushu, um grande representante da arte Sumi-e no século XVIII, eram além de pintores, grandes meditadores, assim como seus ídolos monásticos espalhados pela Ásia. Ele afirma que para transmitir as sutilezas da neurociência, assim como os próprios neurônios, é preciso trabalhar em busca de uma mente calma, que atravessa os lugares procurando o mínimo de barreiras e inquietação. “É necessário”, segundo Dunn, através da psicologia “tentar evitar a tendência dos padrões que são impostos pela natureza humana”. Canais do Líquido cefaloraquidiano - Responsável pela transmissão dos estímulos nervososarticle-2041137-0E0D7AF000000578-858_634x689.jpg Bulbos olfactórios - Sede dos transmissores do olfato olfactory_bulb_medium.jpg

A espontaneidade das pinturas é assim como nos receptores cerebrais e neurotransmissores, similar aos raios e trovões de um dia chuvoso. A grandiosidade da Arte Zen no período Edo, para Greg, era o fato de que os artistas tentavam refletir em suas pinturas uma arte natural, de tamanha magnitude, que aos nossos olhos, seria tão imperceptível quanto às respostas hoje buscamos através da aritmética. Para ele, a arte é e deve ser como na Renascença: uma espécie de Ciência que caminha lado a lado às maiores questões da vida e do universo. De fato. Equações matemáticas que formulam os fractais de uma galáxia, são como o nosso cérebro. Para nós uma estrela binária a vinte unidades astronômicas de distância pode parecer tão inacessível quanto uma Teoria-M, mas através da arte, como dois olhos flamejantes, estas estrelas poderiam refletir o brilho e a clareza que à percepção seriam necessários para refletir sobre as perguntas de maior importância.

Sinapses Cerebrais - Estímulos elétricos que conduzem a informação e reúnem os neurônioscerebro-pintura-2.jpgdunn5.jpg A arte, como um bebê que engatinha e logo cria forças para andar, dá à Ciência as cores e os pincéis para que pinte o quadro da existência. Nuances, formas geométricas e sinfonias radiofônicas de galáxias a anos luz do redshift. São como a mente humana: um enorme aglomerado de possibilidades estancadas numa teoria de espaço atemporal. A grandiosidade das mentes, talvez, fique melhor expressa em quadros e pinturas do que em um universo sem cores. Enquanto estes mistérios microscópicos estejam distantes da grandiosidade que nos seria a menor das explicações, o trabalho de se tornar claro e natural como um neurônio, é o que dita a inspiração àquilo que chamamos de Conhecer o Universo.

Hipocampo IIUCSD_hippocam_us_closeup-1006x1024.jpg Neurônios - Células do sistema nervoso responsáveis pelos impulsos elétricos CMU_cortex_closeup.jpg Greg-Dunn.jpg6_NG2+-Flare.jpg-1.jpg Greg Dunn faz aquilo que há tanto tempo já está quase criando matéria através de um paradoxo: Unindo a Arte, a Ciência, e o Espírito aquilo que chamamos de Mente. Seus trabalhos são sensacionais, autênticos, excêntricos. São como cada um de nós, seres que habitam este ínfimo ponto da existência, e que ainda assim, ousam sonhar. Paradoxalmente, pouco a pouco, a arte vai ganhando novas cores. A mente humana é o berço do saber. Crédito das Imagens a Gregg Dunn.


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/Arte// //Lucas de Siqueira