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" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

Efêmeros Viajantes

Até hoje os únicos invasores que cruzaram a abóboda celeste foram também os que mais deslumbraram a humanidade. Vindos de confins desconhecidos, eles são como mensageiros, que nos lembram da insiginificância da existência. Quando paramos para pensar no tempo em que os cometas levam para orbitar a maior estrela das proximidades, temos uma vaga lembrança do quão passageiros somos neste mundo. Talvez como eles, um dia voltemos a brilhar, exibindo a majestade em meio ao cosmo intermitente. Quantas destas esferas, muitas vezes de formas variadas, já passaram por aqui? E quem? Quem foram os primeiros a observá-las?


Perseidas Copyright ©2011 Jon Nazca, Reutersperseid-meteor-shower-hits-earth-2011-watcher_38899_600x450.jpg De tempos em tempos o céu é repartido por uma cauda de labaredas solares. O vento que sopra da estrela mãe é o responsável por identificar a composição destes corpos andarilhos, que de vez em quando gostam de dar as caras. Muitas vezes, a força repulsiva do Sol acaba por desfarelar estes astros viajantes, em migalhas,e dá a impressão de que uma chuva de asteróides está prestes a entrecortar na atmosfera. Mas isso não acontece com frequência, embora alguns cometas não sobrevivam mais do que a sua primeira aparição. Existem três tipos de cometas. O primeiro é astutamente reto, como uma régua, ou linha do tempo que vai se desfazendo lentamente conforme vai se afastando. O segundo, possui a cauda um pouco curva, como uma dobra espacial. E o terceiro, e talvez o mais espetacular de todos, é também o mais turvo. O cometa de tipo III é o que está mais sujeito à pressão molecular exercida pelo Sol, e que mais vezes acaba sendo destruído. Estes astros de anatomia difusa exercem a sua presença magnânima quando a coma - o brilho ao redor do núcleo - começa a brilhar em contraste com o sol. A grande maioria deles não possui mais do que alguns quilômetros de comprimento. São fragmentos rochosos que viajam de sabe-se lá que lugar da galáxia e acabam sendo atraídos pela massa dos corpos no Sistema Solar.

Apelidados de "estrelas cabeludas"-em latim-, geralmente aparecem nos contos de fada como realizadores de desejo. Apesar de não estarem de fato indo em direção ao chão, a cadência é um dos fenômenos mais fascinantes que podem ser observados pelos astronônomos. Amadores ou profissionais, do mundo inteiro, eles reúnem informações sobre estes corpos.

Cometa HolmesCopyright © 2007 Vicent Peandis e José Luis LamaVicent-Peris-and-José-Luis-Lamadrid1.jpgCometa Holmes Copyright © 2007 Conrad PopeCONRAD-POPE1.jpg

O mais famoso de todos sem dúvida é o que leva o nome do astrônomo britânico do final do século XVII, Edmond Halley. Aplicando os cálculos de Newton, ele foi o primeiro a conjecturar que tais corpos teriam órbitas semelhantes às de planetas, e chegou a nomear, inclusive, cerca de outros 24 além daquele que aparece de 76 em 76 anos. O Cometa Halley. Antigamente, aldeões e camponeses, vassalos e senhores feudais acreditavam que quando um cometa aparecia ele era uma mensagem divina, geralmente ligada à morte do rei ou de algum monarca, homem de extrema importância. Hoje, estimasse que existam mais de quinhentas referências a tais corpos em textos antigos, incluindo os antigos livros sagrados de judeus e babilônios. Este ano, particularmente, seremos presenteados com um fenômeno que promete não se igualar pelo menos nos próximos dois mil ou três mil anos. É extremamente raro. Astrônomos russos descobriram em setembro do ano passado o astro que recentemente foi catalogado no Centro de Planetas Menores da União Astronômica Internacional de Cambridge, em Massachussets, nos EUA. Apelidado de ISON, ele deve cruzar a atmosfera e ser observado a olho nu em novembro e dezembro deste ano, passando em uma região muito próxima do Sol. O astro deverá, inclusive, se nada acontecer, ser mais brilhante do que a Lua, e poderá ser visto à luz do dia. Contudo, pouco ou nada poderá acontecer. Além de ter um cálculo de rota mutável, o cometa pertence ao tipo III e poderá se desfazer antes mesmo que chegue à tal proximidade.

Cometa Halley Copyright © 1986 NASA Halleeey.jpgCometa Halley Copyright © 1910 Enciclopédia BritânicaHAlleeeeeeeeeeey.png Como disse Aristóteles certa vez, "no fundo de um buraco ou de um poço poderá descobrir-se as estrelas", e de fato é assim. Muito do que hoje sabemos sobre os efêmeros viajantes que nos deixam deslumbrados, nunca foi concebido. Neil Gaiman costuma pôr em suas obras devaneios semelhantes, como quando afirmou que "acredita que o nosso futuro está nas estrelas".

Cometa Hale-Bopp © 1997 John Gleasonhalebopp_jerry lodriguss.jpg Cometa Hayakutake Copyright © 1996 Doug Zubenelhyakutake_zubenel_big.jpg O Universo é tão próximo de nós, que somos parte dele. Desconhecemos o que há além das estrelas, porque nos recusamos ao ver além de aparências. Um dia todos nós já sonhamos estar no meio delas. Qual o poder contido em uma estrela cadente? Você sabe? Dizem que Edmond, o astrônomo, nunca viu o astro que carrega seu nome. Em 1705 ele calculou sua trajetória com base nos dados coletados por seu amigo John Flamsteed, que havia o visto em 1682. Depois ele previu que o cometa retornaria em 1758, mas não viveu para ver acontecer. Quando o objeto brilhante, ostentoso, finalmente voltou, na data em que havia predito, já não era mais ele. Era Halley. O cometa. Como o mundo passou a chamá-lo a partir de então. O poder de uma estrela cadente é o de jamais saber quando ela vem. Tal qual nossos sonhos, que vêm sendo realizados. Eles só estão à deriva do universo, e por lá eles cintilam, na escuridão do existir. Todos nós somos como estrelas viajantes. Efêmeros - como os cometas. De vida curta e passageiros. Apenas poeira. Se os nossos sonhos só existem quando podemos observá-los, que prova maior existe do que olhar para o céu durante a noite? É lá que eles estão.Como mitos e sonhos, constelações. O ser humano está no engatinhar da Era Espacial, e as estrelas são os reflexos do espaço. Em 2013 o Cometa ISON vem aí. Que tal preparar-se para o espetáculo?


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
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