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" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

A Igreja e o Modernismo - o Deus do Século XXI

A recente abdicação do Papa Bento XVI fez renascer discussões acaloradas sobre o que acontece por trás do Vaticano. Neste instante, seculares e fiéis de todo o mundo invadem a Cúria Romana com especulações diversas sobre as convicções do pontífice. A Igreja Católica passa por sua mais recente crise. Ela atravessa uma lacuna política, eclesiástica e ministerial, onde líderes e presidentes ainda se ajoelham perante o trono de São Pedro - mas será esta a base e o vínculo de todo o seu significado ou apenas mais uma demonstração de poder? O papel do Bispo de Roma tem sido modificado ao longo dos anos. Conheça o trabalho de Natalia Tsarkova, a retratista oficial do Papa.


Thumbnail image for opere_imager (6).jpg Collezione dell'artista - © Natalia Tsarkova Para lá de ser a velha águia europeia que destronou imperadores romanos e se instalou no ninho alheio, o Vaticano, ainda exerce a aura mística que canonizou mártires e promulgou bulas papais que dividiram o mundo e Oriente Médio durante anos. A busca pela Terra Santa, a salvação, o enriquecimento próprio, os segredos ou os mistérios de Deus, e até mesmo status, levou fiéis a participarem de guerras e forjarem documentos falsos em nome da Santa Mãe Igreja ao longo do tempo. Mas o sangue derramado e os pecados cometidos em prol de um bem maior foram perdoados e esquecidos, e as feridas ainda abertas pela lâmina da injustiça, foram costuradas às pressas por atos veneráveis de alguns poucos homens bons. Outros ainda hoje enfrentam a dura obrigação de carregar um fardo pesado. O que temos é a missão de olhar a história de uma fé questionada, almejada como o alvo da razão e das revoluções sociais, onde homens e mulheres que indignados com a corrupção e os absurdos tão distantes do amor pregado por Cristo, procuram por uma centelha de esperança pregada sob a sombra da cruz. Terá o poder desta instituição milenar e sua influência diminuído ao longo dos anos? Que papel resta ao ministério petrino em um mundo tão diferente do que em um dia foi fundado? Se os homens têm ideia de que existe um paraíso, em primeiro lugar, deve-se a eles. Há momentos em que grandes responsabilidades começam a ser questionadas, momentos em que valores colocados em cargos de importância começam a ser postos em cheque – e estes são momentos como o nosso, exatamente o em que vivemos. Nestas horas, começo a me perguntar o que seria do homem sem utopias. O que seria de cada um de nós se um único homem capaz de saber da existência de um mundo melhor decidisse se calar a respeito. Não falar, e não dizer nada a ninguém. Há momentos em que “um mundo sem religião”, como pregava a música de John Lennon, começa a fazer sentido quando olhamos para o que chamamos de realidade. Quantos conflitos e guerras poderiam ser evitados, ou melhor, quantas almas poderiam ser salvas se o homem não se preocupasse em se salvar –buscar um deus do exterior, que vive lá fora e distante de todos e cada um de nós. O que seria do homem? Será que enxergaríamos Deus no próximo? Ou estaríamos mais próximos dos antigos povos celtas do que somos capazes de imaginar? Deus está na natureza? Onde é está Deus? Deus está morto? Não. Deus habita nos mistérios do Cosmo. Diferente do caos, onde vivemos. Deus habita na perfeição. Na Ordem. Na cítara tocando e os alaúdes reverberando a sua música pelas harpas e gotas de tinta. Deus vive no artista. Na natureza estética, naquilo que é mutável e belo ao mesmo tempo – Deus se esconde atrás de nossos olhos. A Igreja Católica tem um papel interessante no que confere à divindade ao Messias. Longos anos de domínio sob a Europa também trouxeram o domínio sobre as Belas Artes, e por consequência, o poder de ditar as maravilhas do ethos sobre a filosofia e os dogmas da fé. Homens como Leonardo da Vinci, Bernini, Rafael, Michelangelo e Caravaggio implantaram no nosso subconsciente a imagem de um firmamento repleto de feições angelicais e semblantes majestosos. O homem acostumou-se a procurar na simetria, no número de ouro, a presença de uma geometria sagrada que desdenhe de seu poder miraculoso para delinear a senda da salvação.

Observamos na beleza refinada de quadros como “A Transfiguração” de Rafael Sanzio e em “A Ressurreição de Cristo”, tendências de gesticular com a alma do espectador em uma mistura de glória com simplicidade, enaltecendo a figura humana de Jesus enquanto detém as capacidades sobrehumanas deste mesmo.

"Transfiguração", Rafael Sanzio (1483-1520)- Museu do Vaticano. 509px-Transfiguration_Raphael.jpg

"A Ressurreição de Cristo", Rafael Sanzio (1483-1520)- Museu de Arte de São Paulo. Thumbnail image for 491px-Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo.jpg Já na obra de Michelangelo, os fortes indícios de uma criatura comparável ao criador, desatam a proporcionalidade objetiva de demonstrar o quão vivo está o verbo em meio aos homens. A boa nova é a estrela de seus afrescos, sempre ornados com um quê de sobrenaturalidade no plural. Coloridos, eles exaltam o realismo do que há no surreal.

"Martírio de São Pedro", Michelangelo Buonarroti (1475-1574)-Cappella Paolina, Palácio do Vaticano, Cidade do Vaticano. MartirioDeSaoPedro_Michelangelo.jpg

"A Conversão de São Pedro", Michelangelo Buonarroti (1475-1574)- Cappella Paolina, Palácio do Vaticano, Cidade do Vaticano. 4paul1conversão de saulo miguelangrlo bouonarroti cap.paolina 1542-45 vatican.jpg Em Bernini, no homem, residem duas possibilidades completamente distintas, mas entrelaçadas. Embora tenha sido um grande pintor e arquiteto, suas esculturas estão submersas naquilo que reata a promessa característica das deidades – o labor, se feito com fé, recompensa; e a fé, se fixada com labor, redime o sonho. Estátuas concebidas com um sentimentalismo profundo troca os papéis fazendo valer a lei das duas medidas. De um lado, homens e mulheres com feições rigorosas de liberdade, eles estão a caminho do paraíso, e de outro, o messias, seus anjos e seus santos, com o sofrimento sobre as costas. Suas compleições carregadas contrastam. "Fé", Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)- Basílica de São Pedro, Cidade do Vaticano. BerniniTombAlexander71671-8B CaritasA web.jpg

Anjo com a Coroa de Espinhos, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)- S. Andrea delle Fratte, Roma. BerniniAngelThornsA fill web (1).jpg

O apolíneo, como defenderia Nietzsche, serve de modelo para a alma que suspira pelas virtudes do Übermensch – ou seja, Cristo, Krishna, ou qualquer outra divindade espelhável. O mundo das aparências confere diversas explicações para uma das frases mais famosas do filósofo, “Gott ist tot” (Deus está morto), mas todas elas nos levam a uma única interpretação em comum – aquela de que quem está verdadeiramente morto é o intelecto, sendo este um conjunto de descrença e razão, que ao mesmo tempo em que é vital para a perseverança pode ser seu principal inimigo. A razão, se desmedida, mata o intelecto, e este Deus morto a quem se refere é Dioniso – a capacidade de despertar dentro de si as qualidades observadas. O conflito apolíneo- dionisíaco é uma das maiores lições ensinadas no conjunto de sua obra, e a despeito de seu caráter religioso, Nietzsche, trouxe a compreensão de um despertar que é comparável ao efeito espiritual do repertório de artistas papais ao longo dos anos. Este “deus que concebemos” ao olhar para um quadro ou para a cruz, é o apolíneo, e por meio dele, corrigimos a via sacra sob nossos pés, endireitando-nos em direção ao verdadeiro Cristo, à figura de humildade e honestidade, ágape e simplicidade, que é tão admirada como o exemplo de conduta moral e ortodoxia nos costumes ocidentais em torno do mundo. Em tese, todos querem ser Cristo. A mortalha não cobre mais a face de um Deus morto, pois na fé, ele está vivo. Mortos estão os olhos dos homens que perderam a habilidade de ver e enxergar – há um véu cobrindo os olhos de quem vê, como o sudário. É preciso retirá-lo e contemplar a face do Deus vivo – a nossa face.

"Visão de Constantino", Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)- Basílica de São Pedro, Cidade do Vaticano. 44 (1).JPG

A importância da imagem, tão criticada quando comparada ao materialismo de uma mesma instituição que prega o reinado celeste, não está em jogo agora, mas esteve presente sempre e desde o início de seus tempos. Os cânceres meticulosos para os quais o Papa Bento XVI busca a cura não se encontram nos mistérios sinópticos e muito menos no cânon da Bíblia, embora lá possam permanecer intactos fundamentos sob os quais os discípulos do crucificado deveriam ter mantido a sua congregação. Trata-se, de uma crise de poder temporal. Um momento em que a estabilidade e a importância de dois mil anos de existência são postos em cheque ao lado de valores perenes como a liberdade, a honestidade, a transparência, e o que há de verdadeiro no sustentáculo de um mundo globalizado. A razão não é mais a inimiga das Escrituras, pois de palavras bonitas, o dicionário também já foi preenchido, e está ao dispor de qualquer um. O que se questiona, pertence ao tempo pós-moderno, onde os valores que subsistiram aos longos períodos de mudança, sobreviveram. Não há risco mais nas bases, nas raízes, mas colapso na estrutura, nos tijolos, no que mantém de pé a integridade de uma cúpula onde a luz está apenas começando a entrar. Durante tempos, a Igreja permaneceu falante. Impondo a sua vontade. E se manteve assim por eras. Mas depois, silenciosa, como uma exímia jogadora de Xadrez, assumiu o aspecto de uma Rainha – que pode mover-se para todos os lados, ressaltando o seu aspecto feminino, o sincretismo. Mas agora, está inquieta, cercada, com peões se revoltando contra o Rei, enquanto bispos fugidios abandonam a posição de defesa deixando em aberto uma posição de ataque no tabuleiro. Sua força não está mais na coroa, mas sim naqueles que a veneram. O momento de transição é como a virada do jogo – há riscos, mas há possibilidades.

Neste mundo de aparências ameaçadas por observadores, do distante sendo levado pelo poder da gravidade das situações, é vital que os sigilos comecem a ser quebrados. Com cautela, uma maior aproximação está sendo realizada aos poucos, tentando avizinhar-se com abrangência, de todas as peças deste jogo. É aí que entra Natalia Tsarkova, russa, nascida em Moscou. Graduada pela Academia de Pintura, Escultura e Arquitetura de Toda a Rússia, ela é a primeira mulher a ocupar um cargo predominantemente masculino ao longo dos anos - o mesmo cargo em que trabalharam Michelangelo, Bernini e Rafael. Ela viajou para a Itália com o objetivo de aperfeiçoar seus artifícios, e não demorou para que célebres estadistas e cardeais, aristocratas e colecionadores de arte fossem atraídos pelo seu trabalho. Inclusive o Pontifex Maximus, o Santo Padre, o Papa.

Ela conta que se surpreendeu com a possibilidade de poder ocupar um lugar tão prestigiado na Santa Sé, e que não hesitou em contribuir com o encargo artístico. Seu trabalho diferencia-se dos outros na medida em que torna mais humanas as figuras divinas, desmontando as expressões estoicas, na grande maioria das vezes, para transformá-las em algo mais próximo do católico atual. Em seu quadro da “Última Ceia”, uma versão realística da fatídica cena que retrata Jesus Cristo diante de sua última refeição junto de seus apóstolos, ela diz ter feito algo pertencente ao “terceiro milênio”, onde já não era mais possível para o ungido contemplar seu sacrifício olhando para os céus e muito menos para o pão, como o fez Leonardo da Vinci, dono da versão mais famosa desta arte. Agora, era preciso voltar os olhos do Salvador direto para os homens, tornando-o mais dramático, como se este dissesse “o que estais fazendo homens? Parai!”, em um pedido de misericórdia.

"A Última Ceia", Natalia Tsarkova (1950 - atualidade)- Collezione dell'artista opere_imager (5).jpg

"A Última Ceia", Leonardo da Vinci (1452 - 1519)- Refeitório de Santa Maria delle Grazie (Milão) Leonardo_da_Vinci_(1452-1519)_-_The_Last_Supper_(1495-1498).jpg Natalia também foi a responsável pelo retrato eclesiástico de Joseph Ratzinger, o qual superou expectativas. Em uma exposição realizada em Washington, nos EUA, que pôs em prosa retratos papais ao longo de 500 anos, ela era a única pintora viva, e diz, sentiu-se esplêndida, como que realizada.

"Sua santidade, o Papa Bento XVI", Natalia Tsarkova (1950 - atualidade)- Museu do Vaticano, Cidade do Vaticano opere_imager.jpg Apesar de pertencer à vertente ortodoxa do catolicismo, ela garante que não ocorrem problemas relacionados a isto, e que o clero, de fato, mostra-se muito acolhedor. Ela pinta utilizando-se de uma técnica que mescla o traço ocidental com pinturas a óleo, misturando, por meio desta, um pouco da arte barroca com o modelo bizantino. Diz também fazer parte do trabalho de uma diplomata, tentando aproximar o evangelho da vida contemporânea, com o intuito de não denegrir os mistérios e as verdades dos sínodos em um paralelo com o modernismo. Ela já fez pinturas de João Paulo I, João Paulo II, e também do mais recente, e além de tudo isto, conserva o objetivo de aproximar o homem de um mundo que jamais foi desligado desta terra – o reino dos céus.

"A Senhora da Esperança", Natalia Tsarkova (1950 - atualidade)- Collezione della Fondazione ''Primavera Fine Art Foundation'', Stati Uniti 00-natalya-tsarkova-our-lady-of-light-2000s.jpg

"Beato João Paulo II", Natalia Tsarkova (1950 - atualidade)- Museu do Vaticano, Cidade do Vaticano opere_imager (1).jpg

É interessante perceber que mesmo em tempos de divergência, a opulência do Estado do Vaticano permanece. A aura mística aqui citada pertence aos tempos de Constantino, o Grande, ou de Clemente V, o responsável pela queda dos templários. Mas ela evoca não só na arte, na alma e na história, a arquitetura de um império que sobrevive – a marca registrada da Igreja Católica. Como Nietzsche alertou, e também outros filósofos modernos e questionadores da importância da religião fizeram questão de ressaltar, o Dioniso é despertado a partir de uma centelha de vontade. O Vaticano ao longo dos anos tem se mostrado uma muralha comparável à de Berlim, onde de um lado permanece a reforma como a dos lollardos britânicos e protestantes alemães Martin Lutero, Wycliff, John Ball e Oldcastle, que combatem a Santo Inácio de Loyola em seus debates sobre a importância da imagem e das escrituras– a Igreja, em si - e de outro, aqueles que deixaram para trás os dogmas e a importância do evangelho, os baluartes do poder secular que predomina sobre impérios – como Silvestre I e Thomas Arundel, os Borgia, Pio XII. Em cima desta parede de tijolos resiste a opinião populista e a opção do mundo moderno, os mecenas como Martinho V e os defensores da paz, como João Paulo II. Quando o muro desta Igreja ruir, os sinos ao longo dos continentes irão alardear com um “habemus papam” diferente, e a união, será a verdadeira comunhão com o que há de divino.

" Sua Santidade, Bento XVI", Natalia Tsarkova (1950 - atualidade)- Museu do Vaticano, Cidade do Vaticano t.jpg

No século XXI, vemos como na pintura de Tsarkova uma versão alternativa da história – aquela que olha dentro dos olhos e vê a alma que é pregada nas cruzes da ignorância. Seja ela política, social, ou filosófica. A fé move montanhas, e desta vez, deve mover a terra entre as sete colinas para uma realidade mais próxima do mundo onde vivemos. A Igreja, no mundo contemporâneo, é o Eterno Pedro, a Pedra que nega três vezes e sob a qual a palavra foi cravada – “Ama os outros como a ti mesmo”, é esta a lei divina. A Igreja busca seus fiéis dentro de si. Não há mais riscos, pois o despertar, agora vem de dentro. Será que aprenderemos esta lição? Site da artista: Natalia Tsarkova.net


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
Saiba como escrever na obvious.

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