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" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

Iraque: As Memórias de uma Guerra

Dez anos se passaram desde a invasão americana no Iraque. O país se encontra em estado calamitoso. A democracia ainda germina como semente em uma estufa banhada de sangue. Em meio às antigas areias do Oriente Médio, vagam na forma de política e lembranças aterradoras, sequelas de um conflito considerado desnecessário. O espectro nebuloso de uma guerra ainda recente desola boa parte da vida dos cidadãos iraquianos: um povo frustrado e ofuscado pela opressão. Hoje, muito tempo transcorreu desde a queda de Saddam, e as supostas armas de destruição em massa ainda não foram encontradas. A memória do que de fato aconteceu sobrevive na fisionomia de civis e ex-combatentes, soldados, membros das forças armadas norte-americanas, que como as únicas testemunhas confiáveis da realidade, remontam a efígie assustadora do caos. Relembre a trajetória da luta armada ao longo de uma década.


Bush promete uma operação rápida no Iraque, 19 de Março de 2003 © The Guardian Presidente George Bush na Casa Branca prometendo uma campanha rapida para retirar Saddam Hussein 19 de março de 2003.jpgQuando o ex-presidente dos Estados Unidos recebeu a notícia sobre os ataques do 11 de setembro, uma escola primária no estado americano da Flórida estava prestes a se tornar o palco onde uma longa história de redenção teria o seu fatídico início: A cidade de Nova York estava sobre fogo inimigo. Terroristas armados até os dentes haviam sequestrado e atirado um Boeing 757 contra a torre norte do World Trade Center, e a qualquer momento, outra parte do país poderia se tornar alvo.

Hoje pouco se fala hoje a respeito do ocorrido. A não ser por algumas teorias de conspiração, o 11/9 virou arquétipo políticas no congresso. O fato é que a história já era conhecida na Casa Branca mesmo antes de acontecer. A guerra, de fato, começou na década de 90, quando o Iraque invadiu o Kuwait. O país fronteiriço que tinha algumas das maiores reservas petrolíferas da região, foi um dos principais aliados de Hussein durante a Guerra Irã-Iraque, que durou pouco menos de uma década e acabou por minar completamente a influência do país na região.

Invadido e anexado em 1990 por conta de rixas econômicas e políticas subsequentes de uma queda na estrutura interna do Iraque, o Kuwait foi retomado pelas forças da OTAN durante a primeira Guerra do Golfo, quando o bloqueio de bens nos Emirados Árabes foi adotado como medida pelo então presidente Saddam Hussein. A coalizão que foi liderada por George H.W. Bush, tinha como homens fortes alguns dos mesmos que haviam lutado e patrocinado o atual inimigo na guerra anterior contra o Irã, em uma reviravolta jamais vista à luz dos holofotes.

Saddam Hussein lidera tropas, Abril de 1990 © Sipa Press Rex/FeatureAbril 1990 Saddam Hussein Sipa Press REx FEature.jpg Tropas da OTAN respondendo à invasão do Kuwait, Novembro de 1990 © Greg English APNovembro de 1990 Respondendo a invasão do iraque pelo kuwait Greg English AP.jpg O conflito foi pontuado pela grande presença da mídia e o uso de tecnologia de ponta contra um exército visivelmente inferior. Além disso, o temor do uso de armas químicas despontou como tema crescente. O Iraque já havia utilizado algumas contra o inimigo xiita, que poucos anos antes, era um país fraco e praticamente dividido.

Mas é claro, nem tudo são flores.

Atentados terroristas nas embaixadas estadunidenses eram tão comuns quanto a troca de valores em meio ao campo de batalha, e nunca tiveram vínculo oficial com o governo iraquiano. O Talibã e a Al-Qaeda são nomes relativamente novos se comparados à aliança EUA-Iraque, tão distantes de Hussein, quanto Washington de Bagdá. Mesmo assim, as coisas fluíram como se fossem um rio em processo de transposição. Por mais que não houvessem evidências, às 14h40min do dia 11 de setembro, ordens expressas para que uma possível relação de Saddam Hussein com a tragédia em Nova York fosse estudada foram emitidas pelo ex-secretário de defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, a partir da Casa Branca. O mesmo lugar que havia financiado a Al-Qaeda dentre outros mujaheddins na luta contra a URSS e o Irã.

Protestos contra a invasão do Iraque, 15 de fevereiro de 2003 © Guy SmallmanDon't attack Iraq - Guy SmallmanGuy Smallmanwww.guysmallman.com 15- de fevereiro - 2003.jpg Tropas da Grã-Bretanha em direção ao Iraque, 14 de março de 2004 © Dan ChungTanques e tropas da grabretanha 14 de março de 2003 dan chung.jpg Protestos de todas as idades contra a guerra em Hyde Park, Londres © Dan ChungProtestos de todas as idades em Hyde Park Dan Chung  London.jpg Segundo o ex-diretor da CIA, George Tenet, os indícios de que o Iraque possuía armas nucleares eram um “caso certo” e a “confirmação” de que tais possibilidades eram reais fora um passo essencial para convencer o povo norte-americano de que uma invasão era a melhor alternativa a ser feita. Em entrevistas posteriores concedidas ao canal de televisão CBS News e ao The Washington Post, George Tenet se referia com sarcasmo de ter feito tais afirmações, mas ao ser questionado pelo famoso jornalista investigativo Bob Woodward em seu livro “Plano de Ataque”, inúmeras outras histórias sobre as falhas de segurança e operação da CIA antes e pós-11 de setembro surgiriam. “Como se você precisasse que eu te dissesse se tratar de um caso certo”, afirmava, direcionando tais palavras ao ex-vice-presidente Dick Cheney, um dos políticos linha dura no lobby do pró-guerra dentro da Casa Branca. Tenet renunciou, e revidou afirmando ter sido usado como bode expiatório para o início da Segunda Guerra do Golfo. Cheney, dentre tantos, era um dos que mais fortalecia os argumentos de conexão entre Saddam e a Al-Qaeda.

Capitão James Blake Miller, Fallujah, 9 de novembro de 2004 © Luis Sinco AP Lance Cpl JAmes Blake Miller um soldado nascido em Kentucky 9 de novembro de 2004 Fallujah Luis Sinco AP.jpg Campo de refugiados Al-Rweished, no Jordão, 30 de março de 2003 © Tom Hurndall Al-Rweished Campo de refuigados Jordão 30 de marçço de 2003 Tom Hurndall.jpg Mas os anos se passaram, e o legado Bush ruiu. A situação é clara e existem razões para se apontar erros. O que é completamente desnecessário, visto que são auto-evidentes. Bush partiu e levou o partido republicano consigo, ladeira à baixo, junto com a economia. Sobretudo no Iraque, a situação é crítica. Atentados terroristas continuam alertando o mundo. O custo de US$ 504 bilhões não foi o suficiente para parar os terroristas, e em 2005 o número de mortos oscilava entre 104 mil e 223 mil. Em 2010, já passava de 97 mil. Recentemente o Nobel Joseph Stiglitz calculou que o custo real da guerra chegou a US$ 3 trilhões se os impactos adicionais não forem levados em conta.

Soldado em campo de batalha © AP Photo Laura Rauch, File AP Photo Laura Rauch, File.jpg Dez anos depois, Obama veio e prometeu acabar com a guerra, o que aconteceu em 2011, mas os reflexos continuam a ser sentidos. Enquanto a França arrumou outra frente de batalha, os EUA são relegados ao antigo sentimento do Vietnã. As enormes falhas no serviço de segurança, argumentos falhos, e fracasso em garantir a democracia, resultaram no aumento do poder da Al-Qaeda que ainda é uma ameaça. O medo agora é o do extremismo sunita, que ameaça a região. As consequências ainda estão se desdobrando. Há quem diga que o homem nem sempre explora o homem, e que às vezes, acontece o contrário, mas a verdade se resume no fato de que ninguém tem direitos sobre outrem. O ex-vice-primeiro ministro da Grã-Bretanha, John Prescott, afirma que uma “segunda cruzada” está acontecendo, e que a vontade de impor verdades e costumes “cristãos e ocidentais” sob povo do Oriente Médio resulta em fracassos tão grandes quanto, ou maiores do que a guerra do Iraque. Ele, que esteve ao lado de Tony Blair durante os momentos que precederam e sucederam um dos períodos mais obscuros da história moderna, afirma que todos estavam “convencidos” de que o Iraque era o inimigo e repletos de wishful thinking a respeito da guerra. Decisões precipitadas modelaram a geopolítica atual, e a administração da superpotência foi minada por uma crise de identidade em relação aos países do Oriente Médio. Para isto, basta olhar para o tato de Obama ao lidar com a Palestina.

George W. Bush discursa em 2008 para as tropas em Bagdá© Mandel Ngan AFP George Bush discursa 2008 Tropas em Bagdah.jpg Morador foge de carro bomba © ReutersUm morador foge de um ataque de carro bomba Reuters.jpg Obama cumprimenta o tenente Rich Henderson, Basra, Iraque, 21 de julho de 2009 © Jannine B Hartmann Mod PAObama tenente Rich Henderson Basra Iraq 21 de julho Jannine B Hartmann Mod PA.jpg Soldados veteranos estão convencidos de que a guerra foi um embuste, e de que o ganho sob o sofrimento de terceiros se reflete no julgamento de homens como Bradley Manning e John Kiriakou, dispostos a revelar os abusos de poder e as infrações de lei internacional em rede pública. O caso se estende desde os ganhos de multinacionais como a Halliburton e a KBR, a CACI, e o uso de mercenários da Blackwater, às rixas entre o ex-conselheiro e coordenador de segurança nacional Richard Clarke, que criticava o papel da inteligência americana e a decisão de ir à guerra, contra os homens fortes da administração Bush, Donald Rumsfeld e o vice-secretário da defesa Paul Wolfowitz, ex-presidente do Banco Mundial. Ambos integraram o lobby do pró-guerra em reuniões secretas que ocorreram na Casa Branca logo após os atentados. Como se não bastasse, escândalos como os de tortura e espancamento na prisão de Abu Ghraib e os vídeos liberados juntos com os documentos de Cablegate, pelo Wikileaks, aumentam a tensão. Há relatos de que Bush teria ganhado a eleição em 2000 somente por conta de recorrer à Suprema Corte dos Estados Unidos, pois por voto popular, o ganhador fora Al Gore. Uma mulher iraquiana chora no lugar onde um carro bomba explodiu em Bagdá, 14 de setembro de 2004 © Ghaith Abdul-Ahad Uma mulher iraquiana chora no lugar onde um carro bomba explodiu Baghdad 14 de setembro de 2004 Ghaith Abdul-Ahad.jpg Soldados americanos da Segunda Brigada em patrulha no triangulo da morte, em Bagdá © Sean Smith Soldados americanos segunda brigada patrulha no triangulo da morte Bagdah Iraq Sean Smith.jpg Uma década se passou e a Guerra no Iraque deixou milhares de feridos, abriu uma cicatriz no coração do Oriente Médio. Hoje a história é recontada de diversas maneiras. O mundo jamais se esquecerá do que aconteceu em Fallujah, muito menos dos atentados de 2001. Abu Ghraib e o enforcamento de Saddam Hussein, ao lado da caçada por Bin Laden, entraram para a história. Hoje ambos estão mortos, mas o terror ainda desola Bagdá. Como uma tempestade de areia, se distendeu, e se espalhou por todos os cantos. O que acontecerá a seguir? O Iraque clama pela Paz. Mas e o mundo? Será capaz de garantí-la?


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
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