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" Porque são nas menores caixas que cabem as grandes coisas "

Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo.

A História da Coreia

Diferente de um território disputado por duas ideologias completamente distintas, a península da Coreia retém um passado histórico e majestoso de união e sabedoria. Foi somente nos tempos modernos em que ela se dividiu nos dois extremos que hoje conhecemos: um ao norte e o outro ao sul. Precedidos, pois, por eras de fraternidade, a origem e as características marcantes de uma cultura adormecida pelas rixas da atualidade permanecem repletas de significado. Conheça o mito de criação e os precedentes de um país milenar.


Cheongcheon Lee Sang-beom, Sojeong Byeon Gwan-sik, Dan-weon Kim Hong-do, Gyeomjae Jeong-sun ©11-01-26-002.jpg Tudo começou em um tempo onde os homens e as muralhas ainda não existiam. Um enorme pedaço de terra se espalhava pelo continente asiático, disforme e sem limites. Hwan-in, senhor dos céus, o pai de toda a criação, que regia o universo em uma sublime onipotência, recebeu de seu filho Hwan-ung um pedido para que pudesse descer à terra e governar seu próprio reino. O pai assentiu, e alçando voo sobre os desertos e planícies, estepes e pradarias, montanhas, córregos, vaus e florestas temperadas, decidiu que seria em uma montanha ao norte o local onde seu filho ascenderia como o soberano, o líder de uma nação. O local escolhido foi a Montanha Baekdu, onde, ao lado de três mil seguidores, em um pé de sândalo, Hwan-ung foi proclamado o senhor da Terra, fundando uma cidade sagrada sob a alcunha de Shinshi, com a regência e a ajuda dos espíritos da natureza: O vento, a chuva, e as nuvens. Sob seu comando, eles estabeleceram um códice de trezentas e sessenta leis onde estavam inclusos sensos de moral, agricultura, artes, educação, e diferenciação entre o bem e o mal. Diz a lenda que após longos anos de próspera governança sob a montanha (que geograficamente hoje se encontra próxima a Pyongyang, capital da Coreia do Norte), um urso e um tigre em oração colocaram-se aos pés de Hwan-ung, pedindo para que pudessem se tornar seres humanos. O príncipe celeste, comovido com a ocasião, decidiu ouvir suas súplicas dando a eles uma chance para que pudessem ser atendidos. A cada um, foram dados vinte dentes de alho e um ramo de artemísia seguidos de uma instrução para que ficassem dentro de uma caverna durante cem dias, onde, após a ingestão, sairiam de lá na forma humana. O tigre, impaciente, não tardou a desistir, enquanto a ursa, fiel ao sonho que tivera, levou cerca de três semanas para se transformar em uma mulher. Ela foi chamada de Ungyneo, e com gratidão, fez oferendas a Hwan-ung, em um altar de pedra não tão distante da cidade. Contudo, sentir-se sozinha, não era algo que poderia prevalecer. Como não podia ter filhos, fez clamores ao príncipe, que tomou a forma humana e a engravidou, e então esperou o filho de Hwan-ung, que nasceu e foi chamado de Dangun, fundador e primeiro potentado do Reinado na península, filho de Ungyne, e patriarca de todas as lendas coreanas.

O Fundador Hwan-ung, Ungyne e o Tigre © San-shin.org Imperador Hwannong, Ursa e Tigre.jpg Dangun, que pode ser comparado a figuras como o Imperador Yao da mitologia chinesa, foi segundo a lenda, um ser humano venerável, que além de muito sábio, acabou por estabelecer um Império predestinado que se estenderia desde as vastas regiões da Manchúria a outras províncias chinesas, ao sudoeste do país, como Yunan. Este período foi apelidado de Joseon, cujo predomíneo é às vezes referido como "Gojoseon" ( o prefixo 'go' quer dizer algo como 'o antigo', 'o ancestral'), e durou cerca de mil e quinhentos anos com uma capital estabelecida em Asadal, atual Hwanghae na Coreia do Norte. Diz-se que a ruptúria de Joseon ocorreu após inúmeros conflitos que antecederam a ascensão da dinastia Zhou na China, fazendo com que Dangun , o grande mestre, voltasse à Shinshi na montanha sagrada e se transformasse em um espírito imortal, um Sanshi, que até hoje vaga por lá.

Mulheres dançando no tradicional festival de Dano, Shin Yun © Wikicommonsdano.jpg Amantes sob o luar, Shin Yun © Wikicommons758px-Hyewon,_Weolha-jeongin.jpg O povo coreano sempre foi um dos mais circunspetos da Ásia, mantendo ao lado do Japão, uma cultura de tradição fechada e isolada das outras regiões. Etnograficamente, a imigração populacional ocorreu de maneira centrada do atual noroeste da China e de algumas regiões do nordeste da Ásia, o que, sendo garantido por historiadores, teria acontecido há cerca de 500 mil anos com os humanos ainda primitivos. Em diversos países do continente, a península de Han ficou conhecida como "O Reino de Diamante", ou ainda, "O Reino Eremita", remetendo ao ascetismo e austeridade daquele povo. Sabe-se que após o desvencilhamento das fronteiras de Joseon, diversos conflitos internos tiveram início dentre as tribos restantes, desencadeando uma guerra que de proporção em proporção, poderia ser estendida até os dias de hoje. Posteriormente, o período das tribos, seria chamado de "a época dos três reinos", onde, ao norte, dominavam os que preferiam ser considerados herdeiros da dinastia de Dangun no maior de todos os reinos: Goryo - nome que por meio de corruptelas e latinizações foi transmitido ao atual epíteto de 'Coreia' - que vivia em eterno conflito com a China. No sul, habitavam os aldeões e os guerreiros de Silla, que após a queda de Joseon se tornaram a primeira e mais estruturada monarquia local , onde a terra era separada pelas anexações e batalhas constantes das reivindicações do reinado de Baekje, fundado por dois irmãos que fugiram de Goryo e carregaram um traço histórico sem precedentes de Dangun, o que influenciou em grande parte a cultura dos oponentes. Acredita-se, que ambos os irmãos eram os verdadeiros filhos do Imperador de Gojoseon, Dangun, e que dali teria partido o sincretismo das filosofias taoista e confucionista que se espalhou por toda a Ásia.

Apesar de tudo, os anos se passaram, e a atual Coreia foi ganhando forma. O Reino de Silla conseguiu aliados na dinastia Tang da China e dominou Baekje, avançando sobre Seul e se alastrando pelos arredores de Pyongyang. Após terem expulsado os aliados da região, foram atacados pelos exilados do antigo Estado de Goryo, que foram liderados por um corajoso general que pertencia a precedente família real e disseminara colônias na Manchúria, formando o Estado de Balhae, que invadiria Silla e passaria a controlar algumas províncias. Anos depois, Balhae foi devastado por uma aliança entre China e os comandantes do Reino de Silla, que seriam os responsáveis pela queda do "sistema de controle de ossos", um governo de castas, semelhante aos costumes de prole real europeia que se desentenderia quanto ao direito de sucessão, criando problemas de taxação e crise econômica. Os três reinados que os procederam, Hubaekje (que queria reestabelecer a glória do antigo reinado), Taebong (liderado por um monge budista com convicções totalitárias) e Silla (que ainda era formado por aqueles que carregavam o ideário real) foram unificados sob o título de Goryeo pelo Imperador Taejo, que carregava a fama de totalitário pelas perseguições que perpetrava contra os opositores. Goryeo, nos anos vindouros, transformar-se-ia em Joseon, sob um nova dinastia, que em um período de intensivas invasões japonesas, deteve o assassinato da imperatriz Myeongseong , que provocou reformas na política e culminariam no "Grande Império da Koreia", fundado por Gojong e reprimido pelo Japão até o término da Segunda Guerra Mundial.

A Dança das Espadas, Shin Yun © Wikicommons 753px-Hyewon-Ssanggeum.daemu.jpg Apesar do histórico concomitantemente belicoso e decidido, o povo da coreia manteve um sentimento de união através das eras que prevaleceu sobre as rixas da coroa. Mesmo a guerra de 1953 que oficialmente nunca terminou não foi capaz de desatar os laços culturais e conterrâneos de uma nação que por mais de milênios (a contar dos precedentes históricos e os longos séculos de coadunação imperial ) manteve-se unida. Hoje, encontramo-nos em um cenário peculiar, onde, se não há paz, não há acordo. Ao contrário do que possa pensar - e do que pode parecer -, por lá não existe o medo da guerra que passeia pelos noticiários, pois, acima de tudo, a Coreia é uma, em um único povo, tanto no norte quanto ao sul. Apesar da situação política desastrosa, os eventos que quebraram as fronteiras do milenar povo asiático hoje são os que voltaram a atenção do mundo todo para eles, e a fraternidade, que outrora era vigente, prova-se mais uma vez enraizada em um espírito atemporal de unicidade. "Começar é metade da tarefa", diz um provérbio coreano. Para um povo que começou há tanto tempo, não resta dúvida de que mais da metade já foi feito, e o processo que segue, é o que faz parte de um contínuo sentimento de completude. Até mesmo uma folha de papel pesa menos quando levantada por duas mãos, e o mundo, não tem só duas. A Coreia tem muitas. Juntos, não existe peso nenhum para carregar. A união, com toda certeza, é o legado do Reino Eremita, que para o hoje, o ontem e o amanhã, trouxe uma mensagem de paz. A Coreia é apenas uma, homens, é que são muitos. Mas nenhum deles é capaz de não ser homem. E o homem é um, como a Coreia. E a Paz será mantida.


Lucas de Siqueira

Creio na incongruência relativa. Na constância da criação. No que existe entre o que vem, e o além, no que está depois do tempo. Escrevo, logo existo..
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