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Laboratório de investigação audiovisual

Adonias Pimenta Jr.

Adonias Pimenta é um jovem cineasta do Brasil. Atualmente cursa Comunicação Social com habilitação em Cinema na UnP e trabalha com direção de criação e produção em publicidade. Anteriormente formou-se em Direito, com ênfase em Direito Digital e Direito Autoral.

Aprender a fazer filmes é muito fácil...

...difícil é aprender a sobre o quê fazer filmes.


Foto: Henrik Karlsson

George Lucas resumiu muito bem a Teoria do Filme ao dizer que "aprender a fazer filmes é muito fácil, difícil é aprender a sobre o quê fazer filmes". É verdade. O avanço tecnológico tornou o processo de produção de filmes muito simples, bastando, basicamente, de apenas um dispositivo para capturar sons/imagens e, se necessário, conhecimentos básicos de informática para montar o filme.

A disponibilidade das câmeras chegou a um patamar quase democrático, beirando à acessibilidade total. No mercado, é possível encontrar câmeras fotográficas (que também filmam) a partir de U$10,00. Agora só é preciso de uma história, e é aí onde está uma das grandes problemáticas da 7ª arte.

É evidente que há um tópico muito importante referente ao desempenho da maioria desses dispositivos baratos. Eles apresentam baixa qualidade de gravação das imagens e desafiam ao mesmo tempo a estética do filme e a criatividade do realizador. Entender da tecnologia por trás dos filmes e dominar os equipamentos de produção é fundamental para qualquer profissional do cinema, mas tudo isso vai por água abaixo se a história que se conta tiver autonomia suficiente para respirar dentro de uma cápsula audiovisual, e poder, finalmente, se tornar um produto fílmico.

Foto: Bastidores do filme Check Point, em Nollywood / Aimee Corrigan

Na África, por exemplo, ocorre um fenômeno incrível que ilustra muito bem este fato. Praticamente não há salas de exibição na Nigéria, mas eles têm a maior indústria de cinema do mundo, mesmo sendo um mercado extremamente informal. Maior não na quantidade de dinheiro que ela movimenta, mas na de filmes. Lá são lançados mais de 50 títulos por semana — quatro vezes mais que Hollywood. Os filmes jogados no mercado são gravados até mesmo com câmeras de celular, o que mostra a capacidade de realização de Nollywood, como está sendo chamada a indústria do cinema do país.

O audiovisual é uma plataforma bastante abrangente, na qual defendo que tudo possa ser retratado, mas o filme não. Para o realizador de uma historia (autor, compositor, diretor, pintor...), é importante entender sua trama e defini-la sobre uma plataforma. Além da plataforma, os agentes passivos (espectador, leitor...) envolvidos também fazem parte da estrutura da obra. Ao criar uma história que só pode ser contada através daquela plataforma, tal obra se torna um verdadeiro objeto de controle. A partir daí, a história se torna uma realidade absoluta, e se expande, através de quem a consumiu.

Já ouvi músicas e li livros cinematográficos que nunca viraram filme, já vi ótimos filmes que teriam causado uma experiência incrível se fossem originalmente um livro. Aqui abre espaço para um debate sobre a transmídia (transporte da informação para as múltiplas plataformas de comunicação) da qual sou fã, mas não vou falar sobre isto agora, por que é algo universalmente abrangente e tem características bem peculiares, como o fato das suas aplicações mais interessantes serem baseadas em estratégias de marketing e vendas.

Qualquer fato é suscetível de virar filme, mas isto é uma condição que deve ser dada a ele. Não dá para apontar os aspectos que uma estrutura narrativa exija para querer ser um filme, esta é a parte difícil. Mas posso mostrar duas histórias cinematográficas:

Foto: Divulgação

Qué tan lejos de Tania Hermida (Equador, 2006), é uma comédia dramática sobre duas mulheres, Tristeza e Esperança, que se conhecem no ônibus e vão para uma mesma cidade por motivos diferentes. Em meio à greve que paralisa o trajeto, ambas continuam o percurso de forma inusitada. A maior parte do filme se passa em lugares externos, utilizando das belezas naturais como montanhas e praias do Equador como cenário.

Trailer de Qué tan lejos

Sucker Punch de Zack Snyder (EUA, 2011), é um drama de ação que mostra a trajetória de uma garota de vinte e poucos anos que é internada em um sanatório pelo seu padrasto ganancioso. Diante do medo, sua única saída será refugiar-se em sua própria mente, onde entrará em uma realidade imaginativa em que o sanatório é um bordel, onde junto com suas amigas irão passar por mundos diferentes, repletos de dragões, robôs, samurais e armamento pesado a fim de poderem escapar.

Trailer de Sucker Punch

Ambos filmes foram produzidos de modo bem diferentes, em mercados diferentes, mas são histórias moldadas na plataforma do filme, e apresentam tudo o que um filme tem que ter, desde a armação da trama até os devidos cuidados na produção. Qué tan lejos poderia ser um livro? Talvez. Sucker Punch poderia ser um game? Talvez. Mas se tornaram verdadeiras obras-primas como um filme.


Adonias Pimenta Jr.

Adonias Pimenta é um jovem cineasta do Brasil. Atualmente cursa Comunicação Social com habilitação em Cinema na UnP e trabalha com direção de criação e produção em publicidade. Anteriormente formou-se em Direito, com ênfase em Direito Digital e Direito Autoral..
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