Rapha Cruz

“Ela virá, a revolução conquistará a todos o direito não somente ao pão mas, também, à poesia.”
―Leon Trotsky

Memória de um Caiçara

Não sabia ler, nem escrever, e muito menos assinar seu nome. Ao falar, suas palavras de poeta soavam como o cintilar das estrelas, e, a cada alento, o céu ficava mais estrelado, onde nuvens esparsas abriam espaços para a verdadeira poesia....


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Calor, sequidão, e o céu emaranhado refletindo o cinza e amarelo da região. A uma quadra do centro de Bayueu-PB, numa casinha de barro, frente ao Manguezal Braço de Maré, morava José Cruz. Sua casinha de dois cômodos era conhecida pelo pequeno espaço e em sua sala-quarto-(cozinha), que formava uma cancha de 10 metros quadrados, tinha lugar para sua cama e seu forno a lenha, onde fazia suas broas de fubá. Seu José, vulgo Zé das Cordas, era conhecido por ser um andarilho. Conhecia muita coisa no Brasil e, sempre que podia, colocava suas sacolas nas costas e saia sem rumo. Na velha parede de seu quarto, tinha a imagem de uma santa negra e, do lado, colado em cima do forno, uma imagem de Padre Cícero, que simbolizava a esperança, a fé de em dias melhores. Zé das Cordas não lembrava de quantos anos tinha, mas era aproximadamente um século, também não lembrava o nome de todos os filhos, muito menos de netos, bisnetos e tataranetos., para Para não se atrapalhar, chamava todos de menino ou menina... Seu 1,57 de altura, não revelava o ser grandioso que era e que quanto batalhara em sua vida. A cicatriz em sua testa resvalava em sua pele morena, dando ao Seu Zé das Cordas, um tom de batalhador, guerreiro, daqueles que só se encontram no agreste do sertão nordestino. Não sabia ler, nem escrever e muito menos assinar seu nome. Ao falar, suas palavras de poeta soavam como o cintilar das estrelas, e, a cada alento, o céu ficava mais estrelado, onde nuvens esparsas abriam espaços para a verdadeira poesia. Como de costume, quando não estava em viagem, dormia às sete da noite, e acordava com o cantar dos galos do vizinho, as às quatro e meia da manhã. Num dia qualquer, Seu Zé, estava deitado no velho colchão, deitava virava de um lado para outro quando, depois de duas horas, conseguiu dormir profundamente. De repente, José viaja por um tempo memorável, num devaneio perdido, tempo em que existiam rituais, ele se viu muitos anos mais jovem. No fundo de seu âmago , se deparou-se com uma imagem dele com seu pai, e ele pescando, na sua cidade natal. A cidade era Caiçara, um miolo no meio do sertão da Paraíba, perto do da serra da Borborema,cidade Cidade cultivada e fundada por índios, na cidade casas de pau a pique deram lugar para a vazão portuguesa, com lugares com mínimo de conforto, as casas lado a lado, juntas umas às outras, formavam um cenário esquecido e perdido no tempo.

Seu sono era profundo, e algumas imagens eram recortadas junto ao Cristo Redentor, aparecia jovem e de repente se via velho, outra hora estava no meio de multidão, repentinamente se via solitário, andando pelo Planalto da Borborema . Na Estrada somente via peixes, muitos peixes, e não entendia o por que dos peixes soltos, à mercê.

Durante seu sono, flutuou, mergulhou em lembranças adormecidas que seus velhos anos não estavam permitindo.

Aquele momento era único e Seu Zé adentrava em sua história. E seus resquícios de lucidez o satisfaziam como a uma criança que perdida em sua memória; ria sozinho, cada detalhe, era rememorado e, através deem seu sonho, seu Zé se perdia pela viagem do inconsciente. A memória era como uma colcha de retalhos , nada se perdia e tudo se aproveitava.

A solidão deu vazão e, de madrugada, o Galo cantou, seu Seu Zé se levantou um pouco bastante confuso, não conseguia se lembrar de muita coisa. vestiu Vestiu sua camisa listrada rasgada, colocou suas calças beges e suas chinelas velhas, estava triste, sabia que a hora de sua morte se aproximava, fez uma oração ao Padre Cícero, sentou novamente ao lado do saco de fubá, começou vagarosamente a talhar o milho. Por uns um instante, parou, se levantou, abriu a porta, e somente olhou os resquícios das estrelas misturados com entrelaçado matinal.

Rapha Cruz

“Ela virá, a revolução conquistará a todos o direito não somente ao pão mas, também, à poesia.” ―Leon Trotsky .
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