Rapha Cruz

“Ela virá, a revolução conquistará a todos o direito não somente ao pão mas, também, à poesia.”
―Leon Trotsky

Não só vejo, como enxergo...

"Somos seres espirituais vivendo uma experiência física, e não seres físicos tendo uma experiência espiritual...."
Reencontros, providências e iluminação. Não Só Vejo, Como Enxergo relata a experiência humana concreta das reais conexões.



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Irecê cidade localizada na Bahia, um ponto no mapa geográfico brasileiro, uma terra árida, seca e cheia de sofrimento. Entre os bodes magros espalhados pelo pasto, o céu azul de esplendor, contrasta com a terra vermelha da dor. Na caatinga a linha do horizonte rumo a uma estrada sem fim. O cheiro é seco, os galhos e as árvores em suspiro de agonia conversam com Deus a procura de água.

Na pequena cidade há apenas um mercadinho que serve ao mesmo tempo de comércio e funerária. A morte floresce junto ao cacto do sertão. Nas arribações da cidade há uma fazenda. Seu Anísio, dono do local, vive desertificado, sua alma destemida parece na encruzilhada das escolhas da vida. Todas as noites em sua habitação solitária no meio das cabras, faz uma oração ao criador, reza e agradece pelo milho recém colhido.

A oração além de gratidão da alma é a forma que Anísio encontra de aplacar suas tristezas. A esposa morrera há alguns anos, os filhos mortos pela seca apareciam como fantasmas no celeiro das cabras, só restara para ele Deus e as estrelas. Assim como a oração lhe era sagrada, a conversa com a lua também lhe aparecia como forma de aplacar suas dores. Ficava durante horas observando o crepúsculo enquanto fumava calmamente o seu cigarro de palha. Esperava que as estrelas se colocassem no céu para que pudesse suspirar e ter a certeza de que ainda existe alguma esperança. Esperava um sinal das confluências estelares para lhe devolver o significado à vida.

Em mais uma dessas muitas noites quentes de lua cheia, Anísio avista uma estrela verde cintilante. Lembrou-se dos olhos dela e de seus filhos. E nesse intento da memória, lhe surge a epifania de que talvez ali já não seja mais seu lugar.

No dia seguinte àquele céu estrelado, teve a certeza de que o motivo que o deixava ali, era uma saudade martirizante de sua família, contrária ao desejo que lhe brotara ao avistar aquela estrela verde. Ali se manifestava o verdadeiro desejo da esposa morta, que ele retomasse a vida cigana de outrora. A partir do momento que interpretou os olhos da esposa no céu noturno, sua casinha se despiu de significado. Por que ele continuaria ali, se seu destino o espera ao longe? Anísio passa a mão no chapéu, pisa por uma última vez na soleira da porta de chão batido e se despede de tudo o que já foi, do que é, e do que nunca mais será.

Pelo caminho poeirento anda durante horas, os caminhões levantam o pó da aridez da estrada e de suas vidas Na sua cabeça se formam pensamentos confusos sobre arrependimento e incerteza. Para um carro velho na estrada , um jovem na casa dos 35 anos para e oferece carona. Vê os olhos dela mais uma vez no altivo verde que emana o olhar do homem. O jovem de olhos verdes, olhou fundo nos olhos de Anísio e os olhares se cruzaram de modo, que a proximidade das íris dava a dimensão da proximidade de ambos. O universo proporcionou o silêncio de mútuo descobrimento e cumplicidade.

O homem percebe a imagem de São Jorge pendurado no retrovisor do carro. Galego, o motorista como era conhecido José, disse que era sua fortaleza em momentos difíceis e que estava de viagem pesquisando sobre congadas na Bahia. A conversa flui e ambos param num vilarejo, depois de viajar por quase 12 horas. Galego fala um pouco da vida pra Anísio, diz que seu espirito é livre e que veio a terra sempre para cumprir missões. Anísio olha atentamente e concorda dizendo que desde criança sentia sua alma cigana, mas não comenta o fato da morte de sua família o tê-lo feito parar por algumas décadas no tempo.

No vilarejo, tinha uma pequena capela, era uma Capela simples e na frente da dupla a grande imagem de Nossa Senhora da Aparecida. Zé ajoelha e Anísio o segue, os dois agradecem. Chama a atenção na saída em que Zé olha para seu companheiro e diz: _ Rapaz um homem sem uma mulher não é nada, fique atento para seus caminhos, valorize o momento, ta vendo aquela santa, aquela é a imagem de tudo que é mais sagrado no mundo, se tratar o ser como divindade, achará o que sempre procura, somos espelhos de nós mesmos.

Zé ainda replica:

_ Amigo, preste atenção a vida é feito de sinais, segue seu coração, siga a seta da tua intuição, tu tem cara que já sofreu demais, tu sofreu pela dor.

Anísio replica, com a certeza de que Zé é a entidade que o guiará de volta as guias do porvir: Agradeço, Zé, a palavra de atenção. Os olhares se cruzam novamente e o Galego diz: Nada é por acaso, o universo tem suas explicações.

Anísio agradece de olhos marejados, Zé emenda: “ Sabe que ela está no seu caminho, como as estrelas estão para o céu” Num canteiro, Zé pega uma flor e diz: “ Essa flor veio de alguém que gosta muito de você, sua pétala está trançada além do que os olhos humanos podem ver.” Como em mais um dos muitos sinais de esperança que a esposa o deixara, Galego se esfumaça pelo ar, deixando o perfume das flores e a certeza de que enquanto uma estrela verde resplandecer no céu, qualquer caminho de Anísio o levará a esperança.


Rapha Cruz

“Ela virá, a revolução conquistará a todos o direito não somente ao pão mas, também, à poesia.” ―Leon Trotsky .
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