megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida...

O corpo: entre a cruz e a espada

Lugar de vida, de desejos e prazeres, o corpo, historicamente esteve sempre "entre a cruz e a espada". Símbolo e expressão das tensões e conflitos entre sagrado e profano, céu e inferno, alto e baixo, o corpo foi, na Idade Média, condenado pela Igreja. O corpo era então, para a Igreja, o lugar da tentação e do pecado. Como declarou o papa Gregório, O Grande, era “a abominável vestimenta da alma”.


David, Michelangelo Bunarroti (1501-1504)

A vergonha causada em Adão e Eva pela nudez do corpo é a primeira consequência imediata do pecado original. Daí, um corpo livre do pecado deve ser encoberto, deve abster-se do gozo, dos desejos e dos prazeres. Há uma rejeição do corpo na Idade Média disseminada pela Igreja que pregava a exaltação do espírito, a elevação da alma e a repreensão dos prazeres, dos desejos e das necessidades corpóreas sob a forma da penitência e da dedicação à vida monástica. Para a Igreja, que tem no monge o modelo ideal de vida, a salvação da alma passa por uma penitência corporal. Para elevar-se ao céu é preciso abandonar o corpo.

Na transição da Idade Média para o Renascimento, nas artes vigorava um novo cânon corporal, que definiu as formas de representação do corpo e que dialogava com a proposição da Igreja sobre o corpo, caracterizava-se pelo acabamento do corpo, por sua completude e individualidade. Fecham-se todas as extremidades e orifícios do corpo, eliminam-se qualquer possibilidade de contato do corpo com o exterior, dissimula-se toda a vida orgânica e natural do corpo. Cada corpo é uma unidade perfeita, sem falhas, que não se alia a outro corpo, nem ao que lhe é externo. Anula-se a sexualidade e elimina-se qualquer manifestação de vida íntima e interior do corpo. Ou seja, nega-se a incompletude, o inacabamento e o despreparo do corpo humano, renega-se a organicidade da vida íntima corporal.

A este cânon corporal, opõe-se o grotesco. O corpo grotesco é, ao contrário, um corpo aberto e orgânico. A palavra grotesco surgiu no século XIV e tem sua origem etimológica na palavra gruta. Desde então passou a ser utilizada para designar uma categoria estética (e também estilística) e é aplicada a diversas manifestações artísticas, literárias e pictóricas. O grotesco caracteriza-se pelo hibridismo das formas, pela presença, numa mesma figura, de elementos humanos e animais ou vegetais, por uma composição heterogênea e exagerada (a exemplo das figuras bizarras de Hyeronimus Bosch), que provoca o rebaixamento (bathos) de tudo que é dito sagrado ou tido como superior. Pela subversão dos padrões e cânones estabelecidos, cria uma nova ordem alheia às hierarquias, de significado aberto e universal.

Cristo carregando a cruz, óleo sobre madeira, 76,5 x 83,5 cm, Hyeronimus Bosch (1510-1535), Museu de Belas Artes de Gante

O grotesco refere-se frequentemente às partes baixas do corpo, a uma animalidade que aturde, foge à harmonia das formas, transgride as leis da natureza e da proporção, as fronteiras entre natureza e cultura entre os reinos animal e humano. O grotesco desconstrói essa ideia de corpo fechado do novo cânon a partir da desconstrução do corpo, da exposição das suas extremidades e da exploração da sua fragilidade e despreparo. O corpo grotesco é um corpo que contínua em outro corpo, que não está separado do mundo, mas está unido a ele de forma natural e orgânica.

É o corpo o lugar privilegiado das manifestações do grotesco. Nele o grotesco exprime sua visão de mundo. O corpo grotesco não renega sua naturalidade, não esconde sua vida íntima, ao contrário, realiza-se a partir dela. Há na concepção grotesca do corpo um caráter de contestação e subversão da ordem natural e lógica da vida corporal e do tempo. No grotesco, o tempo é cíclico e a vida corporal é natural e orgânica, é biológica.

Característico das manifestações culturais populares na Idade Média e no Renascimento, o grotesco é a libertação do corpo. Com a abertura das extremidades e dos orifícios do corpo, no grotesco, o corpo continua para além de seus limites. É um corpo embrionário que continua em outro corpo, que vive para além de seus limites, que se funde a outro corpo. É um corpo que se cria e recria - corpo criador e criatura - continuamente em outros corpos e que participa da existência de todas as coisas. Essa ambivalência é um traço característico e essencial do corpo grotesco: o novo corpo nasce da morte do primeiro, continua-o, ambos os corpos são princípio e fim continuamente. O corpo grotesco é um corpo em metamorfose.


Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
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