megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida...

Sorria! Você está sendo curado

Mais que um retrato do trabalho dos Doutores da Alegria, o documentário "Doutores da Alegria - o filme", é uma importante reflexão sobre a forma como nos relacionamos com vida, a doença e a morte. Nos exibe uma visão encantadora da vida e da morte, fundamentada essencialmente no olhar ingênuo e na simplicidade da criança, que não se preocupa em viver, apenas vive. Para os Doutores da Alegria, um palhaço tem que ser sincero, transparente, corajoso, ter um olhar ingênuo e original como o da criança. E essas qualidades se manifestam nas relações com as próprias crianças e com todas as pessoas.


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Para ser um doutor da alegria, em primeiro lugar, o palhaço tem que “abafar o próprio ego para não colocar suas habilidades e virtuosismos acima da relação com a criança”. A criança é o personagem principal. Trabalha-se com aquilo que ela tem a oferecer no momento. A proposta é interagir com a criança através do improviso, numa relação que não é premeditada, que acontece pela experiência e que não pode ser concebida previamente.

Enquanto o adulto, com sua mania de racionalizar tudo que existe, se propõe a prever e anteceder e a se prender às coisas, a criança e o palhaço, pela sua incondicionalidade na relação com o mundo e com o “outro”, vivem cada momento de acordo com o fluxo natural da vida. A vida é fonte de alegrias, mas as alegrias trazem consigo sofrimento, inquietações e tristeza devido o caráter impermanente e dualista da própria vida e de todas as coisas. Vida e morte são duas faces da mesma moeda. Todas as coisas estão ligadas a todas as coisas (filosofia Budista).

“A criança é um ser livre de preconceitos. Não é prisioneira nem da lógica nem da razão. Para a criança não existe o ridículo. Só vive no presente. Não faz planos. O adulto para se relacionar com o outro precisa de um rótulo, de um preconceito. Tem de fazer um juízo.”

O trabalho dos Doutores da Alegria com as crianças requer cuidado, delicadeza e dedicação. Para cada criança visitada há uma preocupação especial. A relação com ela se estabelece antes mesmo de adentrarem o quarto. O respeito é primordial. No decorrer do tratamento tudo é obrigatório, mas o palhaço é optativo. Se as crianças se recusam a recebê-los, eles respeitosamente atendem ao pedido. Há todo um cuidadoso trabalho no estabelecimento de contato. A criança tem liberdade na relação com o palhaço. É a partir dela que a interação se desenvolve.

A conversa inicial possibilita entender qual recurso disponível permite ter acesso à essência da criança para desenvolver a rotina de interação com ela. Trabalha-se com o momento, com o improviso. O acaso é um fator importante. Para tanto o palhaço tem que estar vazio, aberto para receber os estímulos e responder a eles de modo criativo. Esses estímulos podem ser de várias espécies. O corpo, por exemplo, é visto como um meio de manifestações diversas causadas pelos estímulos. Esses estímulos são consequência da interação e do uso de técnicas e habilidades artísticas no desenvolvimento da rotina com a criança. A saída tem que passar a mensagem de esperança, deixar claro que eles irão voltar.

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Para os Doutores da Alegria, o amor é mais importante que a razão. As relações afetivas, a amizade, o amor, o respeito e a admiração devem ser conquistados. A relação com a criança é pautada pela liberdade e pelo respeito. Há uma predisposição para conquistar o respeito e o carinho das crianças. O trabalho dos Doutores da Alegria, inclusive com crianças inconscientes, permite a medicina tradicional pensar numa outra lógica que não a dela. Para ela a criança em estado de inconsciência não responde a estímulos independentemente de sua origem. O palhaço investe na relação com a criança como se cada momento fosse importante e com isso imortaliza a relação com a criança através da lembrança.

Alguns exemplos de cenas emocionantes marcam este comovente filme. Um dos palhaços conta que ao visitar uma criança com leucemia, em estado terminal, e que tinha perdido por conta disso a visão, trabalhava com outros estímulos que não os visuais dada a incapacidade da criança de enxergar. Cantavam e tocavam para ela e ela, generosamente, balançava o pezinho acompanhando o ritmo da música. Outro palhaço conta que dois anos após a primeira visita, voltou a um hospital e encontrou uma das crianças, que visitava rotineiramente, internada na UTI, em coma. Após ter sido autorizado pela família e pela equipe médica a entrar no quarto, se apresentou e a criança reagiu com um sorriso. Em seguida, cantou as canções que costumava cantar dois anos antes e ao terminar perguntou a criança se ela havia gostado e ela inacreditavelmente mexeu as mãos e fez um sinal positivo.

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“A medicina tradicional parte de uma visão externa do ser humano enquanto os Doutores da Alegria enxergam o ser humano por dentro. A medicina tradicional jamais será completa se não o enxergar por dentro e por fora. É preciso ter uma visão integral do ser humano.” O palhaço, ao contrário dos médicos, não trabalha com respostas. Se contenta em brincar com as perguntas, não vê a criança como um paciente que está doente e sente dores. Não enxerga o que está ruim, busca o que está bom e procura trabalhar com a capacidade de fantasiar que é própria da criança. A imaginação da criança permite ao palhaço brincar com a natureza das coisas, criar um mundo que não deixa de ser real, pois existe para ela, ela consegue vê-lo e experimentá-lo de maneira a confundir fantasia e realidade. “Somos aquilo que pensamos” (Buda), somos aquilo que queremos ser e é essa capacidade de pensar e fantasiar sem compromisso nem receios que permite a criança criar e manter um mundo próprio e imaginário. Mas isso não significa que ele não seja real. Afinal de contas quem pode definir o limite entre o real e o imaginário da mente de uma criança?

“Ser palhaço é um resgate continuo da inocência. Para o palhaço o que é o coma? Imperativo do verbo comer? A lógica do palhaço é outra. Ele olha a criança do jeito que ela está no estado em que ela se encontra. Não o ignora, mas aceita. Quem pode dizer que não há uma comunicação? Para o palhaço o que é ouvir? O que é entender? Entender o quê? Essas questões não passam pela cabeça do palhaço. Para um ser que provoca o riso, que não se importar em passar por ridículo o que é a morte e a vida?” Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria.


Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
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