megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida...

Carnaval sem máscaras

As origens do carnaval remontam aos rituais do mundo antigo, desde as saturnais romanas. Mas, é na Idade Média que as festas carnavalescas se desenvolvem com maior riqueza de formas e amplia de forma exponencial suas funções políticas e ideológicas para além das fronteiras da esfera da cultura.


o combate do carnaval com a quaresma.jpgO Combate entre o Carnaval e a Quaresma de Peter Brueghel, "o Velho", 1559.

Os festejos do carnaval e outros ritos cômicos como, por exemplo, a festa dos tolos (festa stultorum), a festa do asno e o riso pascal (risus paschalis), eram parte muito importante da vida pública na Idade Média. As formas artísticas e literárias do carnaval se relacionavam com as formas dos espetáculos teatrais, ditos oficiais, da Igreja e do Estado. Todavia, o carnaval pertence à esfera da vida cotidiana, não entra no domínio da arte. Situa-se na fronteira entre a arte e a vida (BAKHTIN).

Diferentemente do teatro, que tem no palco o seu espaço, o carnaval ignora o palco, se apresenta no espaço da vida cotidiana. No carnaval não há espectadores, ele existe para todo o povo. Não se assiste nem se atua no carnaval, vive-se. É a própria vida que se apresenta com elementos próprios da representação (BAKHTIN). É a libertação dos dogmas religiosos e das leis do Estado, a renovação da própria vida numa segunda vida completamente livre, sem hierarquias. Nisso consiste o princípio universal do carnaval.

Os espetáculos teatrais e os ritos cômicos e carnavalescos da Idade Média representavam uma fuga provisória dos moldes da vida ordinária (oficial), enquanto o carnaval é uma forma concreta da própria vida, é a própria vida apresentada de forma idealizada e livre. O carnaval subverte as leis da vida ordinária, transformando-se na própria “vida real”, enquanto dura. É a suspensão da vida pela própria vida, a vida de forma efetiva, que no tempo do carnaval se apresenta em sua plenitude.

O carnaval se estabelece no interior do mundo oficial e da vida ordinária cotidiana, suspendendo-os, criando um segundo mundo, uma segunda vida com suas próprias leis e princípios. É a forma ideal da vida ressuscitada, é sua forma efetiva, plena e pura e é também a celebração da vida, é a vida festiva do povo baseada no princípio do riso e numa visão dualista de mundo de caráter cômico e grotesco.

carnaval%20de%20arlequim.jpg O Carnaval de Arlequim de Juan Miró, 1924-25.

Esse caráter festivo do carnaval resgata o princípio original das festas, relacionado a uma concepção natural, cósmica e biológica do tempo. O carnaval é a festa do tempo futuro, a festa da renovação. É o triunfo da liberdade e a celebração da vida na sua forma pura, a suspensão das formas da vida ordinária e das leis do mundo oficial (opõe-se à sua seriedade). O tempo do carnaval é o tempo da vida, mais especificamente, da vida pela vida, da vida ideal tornada real.

Daí, o princípio grotesco da percepção carnavalesca de mundo, que destitui toda e qualquer superioridade, rebaixa todo aquele que na vida ordinária cotidiana se apresenta como superior, seja por sua condição financeira ou social, ri-se dessa superioridade, ridiculariza-a, declara a igualdade entre todos os homens e estabelece um contato livre e familiar entre todos os indivíduos da sociedade, o que permite a criação e o desenvolvimento de um vocabulário próprio riquíssimo, marginal e grosseiro, popular.


Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
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