megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Carnaval sem máscaras

em Cultura por em 17 de fev de 2012 às 19:49

As origens do carnaval remontam aos rituais do mundo antigo, desde as saturnais romanas. Mas, é na Idade Média que as festas carnavalescas se desenvolvem com maior riqueza de formas e amplia de forma exponencial suas funções políticas e ideológicas para além das fronteiras da esfera da cultura.


o combate do carnaval com a quaresma.jpgO Combate entre o Carnaval e a Quaresma de Peter Brueghel, "o Velho", 1559.


Os festejos do carnaval e outros ritos cômicos como, por exemplo, a festa dos tolos (festa stultorum), a festa do asno e o riso pascal (risus paschalis), eram parte muito importante da vida pública na Idade Média. As formas artísticas e literárias do carnaval se relacionavam com as formas dos espetáculos teatrais, ditos oficiais, da Igreja e do Estado. Todavia, o carnaval pertence à esfera da vida cotidiana, não entra no domínio da arte. Situa-se na fronteira entre a arte e a vida (BAKHTIN).

Diferentemente do teatro, que tem no palco o seu espaço, o carnaval ignora o palco, se apresenta no espaço da vida cotidiana. No carnaval não há espectadores, ele existe para todo o povo. Não se assiste nem se atua no carnaval, vive-se. É a própria vida que se apresenta com elementos próprios da representação (BAKHTIN). É a libertação dos dogmas religiosos e das leis do Estado, a renovação da própria vida numa segunda vida completamente livre, sem hierarquias. Nisso consiste o princípio universal do carnaval.

Os espetáculos teatrais e os ritos cômicos e carnavalescos da Idade Média representavam uma fuga provisória dos moldes da vida ordinária (oficial), enquanto o carnaval é uma forma concreta da própria vida, é a própria vida apresentada de forma idealizada e livre. O carnaval subverte as leis da vida ordinária, transformando-se na própria “vida real”, enquanto dura. É a suspensão da vida pela própria vida, a vida de forma efetiva, que no tempo do carnaval se apresenta em sua plenitude.

O carnaval se estabelece no interior do mundo oficial e da vida ordinária cotidiana, suspendendo-os, criando um segundo mundo, uma segunda vida com suas próprias leis e princípios. É a forma ideal da vida ressuscitada, é sua forma efetiva, plena e pura e é também a celebração da vida, é a vida festiva do povo baseada no princípio do riso e numa visão dualista de mundo de caráter cômico e grotesco.

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O Carnaval de Arlequim de Juan Miró, 1924-25.

Esse caráter festivo do carnaval resgata o princípio original das festas, relacionado a uma concepção natural, cósmica e biológica do tempo. O carnaval é a festa do tempo futuro, a festa da renovação. É o triunfo da liberdade e a celebração da vida na sua forma pura, a suspensão das formas da vida ordinária e das leis do mundo oficial (opõe-se à sua seriedade). O tempo do carnaval é o tempo da vida, mais especificamente, da vida pela vida, da vida ideal tornada real.

Daí, o princípio grotesco da percepção carnavalesca de mundo, que destitui toda e qualquer superioridade, rebaixa todo aquele que na vida ordinária cotidiana se apresenta como superior, seja por sua condição financeira ou social, ri-se dessa superioridade, ridiculariza-a, declara a igualdade entre todos os homens e estabelece um contato livre e familiar entre todos os indivíduos da sociedade, o que permite a criação e o desenvolvimento de um vocabulário próprio riquíssimo, marginal e grosseiro, popular.

É possível afirmar que há um esvaziamento do sentido original do carnaval, que, contraditoriamente, é hoje uma “festa oficial”. Particularmente referente aos grandiosos espetáculos carnavalescos no Brasil, se o que se apresenta a nós não é a própria vida a expressar-se com total liberdade, será, talvez, ao menos, a própria sociedade que se apresenta a si própria?

jannesouza
Artigo da autoria de Janne Alves de Souza.
Estudante e pesquisadora de artes e comunicação e artista plástica. Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
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