megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida...

José e Pilar: o encontro de almas desassossegadas

Obra-prima premiada do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, aclamada pela crítica especializada e pelo público, José e Pilar é um maravilhoso retrato do cotidiano e da intimidade comum do escritor português, Nobel de Literatura, José Saramago, e Pilar del Rio, jornalista espanhola e presidenta da Fundação José Saramago, sua esposa.


José-e-Pilar.jpgJosé e Pilar não é um documentário convencional, mas um filme cuja estrutura é de uma narrativa clássica que tem como propósito registrar o processo de criação do livro A Viagem do Elefante, de José Saramago. Entretanto, sobressai-se a si próprio, transpassa seu objetivo primordial e põe-nos, ora, encantados com momentos de sublime contemplação, ora, desassossegados, confrontados com questões existenciais sobre a vida e a morte, sobre Deus e os homens, sobre a sociedade e o Universo. José e Pilar é uma história sem roteiro que não se prende a estilos e estereótipos, com cenas de grande sensibilidade poética e profunda densidade filosófica.

“Vivo desassossegado e escrevo para desassossegar.”

José Saramago tinha um’ alma desassossegada que só se desassossegava nos livros que escrevia. O que lhe causava tanto desassossego? O mundo. Saramago era um homem inconformado com a condição do mundo. Seus livros, seja qual for o tema, falam acima de tudo sobre o mundo, segundo o próprio escritor, pois, como o disse, o mundo precisa ser falado. Embora tomado por um inconformismo, limiar ao pessimismo, em relação à condição do mundo e da humanidade, mais precisamente, tinha uma crença na gente boa, amante da beleza e amante do justo e do honesto.

“Se toda a gente boa, se toda a gente amante da beleza, se toda a gente amante do justo e do honesto pudesse reunir esforços e opor-se contra a barbárie do mundo, o mundo seria capaz de dignificar o Homem, o Ser Humano que somos. O mundo talvez pudesse ter um futuro.”

Pela lente da câmera que se pretendia oculta, acompanhamos a intimidade cotidiana de José e Pilar (...tudo é autobiografia. A vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos..). O encontro de José e Pilar é um encontro de almas desassossegadas e de grande sensibilidade. Percebe-se em ambos um sentimento de urgência que não os deixam descansar. A palavra descanso não faz parte do nosso dicionário vital... Teremos toda a eternidade para descansar. Esta é a vida, diz Pilar.

Pilar é uma mulher lúcida, politizada, de ideais feministas baseados numa consciência histórica e social. Para ela a razão tem de mandar sobre a emoção, não há de se dar tempo e espaço para a dor e o sofrimento. É aversa à dramatização da vida. A Pilar não é nada acomodatícia. E a falta de escrúpulos, a hipocrisia põe-na completamente fora de si [...] Se traduz numa frase que é ver, ouvir e não calar (Saramago).

No percurso narrativo do filme envelhecemos com José e Pilar (Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente, é isto a velhice). Sentimos o peso das horas, demasiado lentas, e a insustentável leveza dos dias, demasiado rápidos. Parece a nós, como a certa altura parece a eles, absurda a maneira como vivem, aprisionados no círculo do espetáculo, sufocados por compromissos, flashes e microfones. Saramago exclama: Cansei-me de sorrir e do esforço de parecer inteligente.

Nascer, viver e morrer, e acabou. Mais nada. A vida, per si, não tem sentido nenhum. Saramago (e também Pilar) encontra o sentido da vida no desassossego e dá sentido à nossa própria vida desassossegando-nos. Enquanto A Viagem do Elefante é uma metáfora da inutilidade da vida (não conseguimos fazer mais dela do que o pouco que ela é...), José e Pilar é um retrato da ausência de sentido da vida e de todas as coisas, é uma abstração (reflexiva) dos significados da existência ancorada nos pensamentos de Saramago.

“Um dia desaparece o Sol... e acabou. E o Universo nem sequer se dará conta de que nós existimos. O Universo não saberá que o Homero escreveu a Ilíada.”

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Penso que, já nas cenas finais, ao falar sobre seu livro (A Viagem do Elefante), Saramago, muito provavelmente sem dar-se conta de tal coisa, descreveu o que este maravilhoso filme de Miguel Gonçalves Mendes, José e Pilar, significou para si próprio:

“É a voz de alguém que se sente a despegar-se da vida. E que faz, ainda, uma última tentativa para que o ouçam e para que o retenham deste lado, deste lado, do lado onde nos encontramos ainda, os vivos.”

Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam. A morte (com inicial minúscula, a nossa morte, essa pequena morte que levará a todos nós, humanos), aquele esqueleto de mulher jovem embrulhado por um lençol acompanhado de uma velha e ferrugenta gadanha, esperava José em sua sala fria, rodeada de paredes caídas ao longo das quais se arrumam entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes. Saramago não morrerá. Penso que a morte é isto: ter estado e já não estar. A vida que se ausentou da forma física de seu corpo já encurvado, habita as páginas de seus livros em palavras de desassossego, e cada alma que desassossegar-se nessas palavras fará ressuscitar a própria alma desassossegada de Saramago.


Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
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