megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Cartiê Bressão: un génie brésilien

em Fotografia por em 28 de ago de 2012 às 08:40 | 2 comentários

Cartiê Bressão c'est un génie! A óbvia referência à imagem e às imagens do francês Cartier-Bresson (ou seja, ao artista e à obra) aliada à beleza singular e singela de suas imagens me conduziu do encantamento à reflexão. Henri Cartier-Bresson, o mais importante fotógrafo francês do século XX, tem nas “images de la vie quotidienne” o mais belo exemplo da potência sensível de sua obra e a sagração do seu estilo, a sua própria sagração como artista. Sua obra é testemunha viva da Paris moderna, símbolo e expressão “de la vie moderne”.

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“retour de la pêche”, Copacabana — 2012

Assim como Henri Cartier-Bresson, Cartiê Bressão tem a potência encantadora e a beleza de sua obra nas imagens da vida cotidiana. Elas apreendem e expressam a vida do quotidiano e o quotidiano da vida, ou seja, a vida banal, a banalidade da vida, aquele aspecto da vida que a nossa própria consciência não julga digno de ser apreendido pela nossa memória e que só é resgastado mais tarde inconscientemente pelo despertar do nosso afeto. Não atoa, Cartiê se autodenomina “le chasseur de l’éphémère”.


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“bus collecteur pense dans la vie”, Linha 409: Horto/Saens Pena — 2012

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“la barre de regarder le novela”, Copacabana — 2012


A beleza dessas imagens consiste justamente no fato de serem expressão daquilo que é comum na vida (sendo comum é banal), que faz parte do quotidiano, e por isso mesmo sugerem frequência e repetição - de onde provém a ideia de efêmeridade tão combatida há mais de meio século-, o que lhes distancia daquilo que é tido como extraordinário e surpreendente, raro, e por isso mesmo digno de ser registrado como forma de materializar a memória e perpetuá-la.

É no cotidiano que a vida se apresenta na sua forma espontânea como pulsão orgânica e natural que independe da ação da nossa consciência, e é na revelação posterior dessa memória inconsciente que a vida se faz extraordinária e surpreendente. Recorro à uma citação bastante elucidativa extraída do filme La Jetée de Chris Marker: Nada separa as recordações dos momentos banais. Mais tarde exigem que nos recordemos quando mostram suas cicatrizes.

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“vendeur de maïs mange son goûter”, Praia do Arpoador — 2012


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“neptune et ses poissons”, Arpoador — 2012


Cartiê est "Pop"

Característica interessante em Cartiê Bressão é apropriação da imagem e da linguagem do renomado fotógrafo francês. O nome Cartiê Bressão é versão "abrasileirada" (nitidamente sarcástica) de Cartier-Bresson. Com a apropriação, o fotógrafo carioca subverte a imagem do fotógrafo francês (constrói para si uma caricatura), com humor sútil que abriga o aspecto crítico de suas imagens e da sua própria imagem enquanto artista. Todas as suas fotos são intituladas em francês, em referência clara à Cartier-Bresson, o que cria um contraste com as imagens banais do cotidiano carioca.

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“vieillards jouant aux cartes sur un samedi matin” Largo do Machado — 2012


Numa perspectiva cultural mais abrangente, a obra de Cartier-Bresson e a língua francesa figuram no imaginário social da elite carioca e brasileira como elementos do universo kitsch. Em contraponto, as imagens do fotógrafo carioca são registros do que pode ser abordado como popular, ou brega ainda, considerando que são imagens da trivialidade da vida cotidiana e banal carioca (basta atentar-se à composição das fotos). Cartiê Bressão apropria-se, dilui e adapta a imagem e a linguagem de Cartier-Bresson potencializando a capacidade expressiva das suas próprias imagens.

 

Artigo da autoria de Janne Alves de Souza.
Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
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Comentários

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Claudio

A idéia é interessante, as imagens fracas.

Claudio, antes de publicar, cheguei a me indagar se devia publicá-lo. Justamente por saber que há inúmeras considerações que deveriam ser feitas e que não haveria espaço pelo formato que o texto tem que ter. Fiz o exercício de analisar Henri Cartier-Bresson e sua obra em seu contexto e fiz o mesmo com Cartiê Bressão, considerando não só suas imagens e o contexto, mas sua proposta, que está elucidada pelas observações que faço ao final do texto. Pensei ser suficiente para justificar a minha percepção subjetiva.

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